Cinema

Glauber Rocha sempre: ''É preciso resistir''

No 'doc' de Maria Maia, registros de filmes do cineasta baiano, entrevistas sobre o seu cinema histórico, e anotações poéticas e políticas de Glauber

30/08/2020 14:24

 

 
Lá se vai mais um agosto aziago para o Brasil. Considera-se, este ano, que não apenas o mês que hoje termina, do ponto de vista histórico, mas os vários agouros ruins que vêm se tornando sistemáticos por aqui. Os anos mais recentes constituem uma sucessão de agostos - mês do desgosto - para a maioria da população.

Mas uma das datas dolorosas desse período nefasto, e registrada hoje, último dia do mês (porque ainda é tempo), é a do dia 22 do ano de 1981. Data da morte, aos 42 anos, de Glauber Rocha, um dos grandes cineastas brasileiros. '' Um gênio da raça que merece ser conhecido em suas contradições e limites, o que o engrandece,'' nas palavras de pesquisadores da História.

Entre os diversos documentários que relembram a sua obra e revisitam as idéias de Glauber impregnadas de um intenso amor pelo Brasil, além do clássico Antena da raça, de autoria da filha do cineasta, Paloma Rocha, e de Luís Abramo, há o filme Glauber Rocha, da série Redescobrindo o Brasil, de Maria Maia, que vale ser visto. *(Abaixo, o filme)

Esta série traz perfis de Carlos Drummond de Andrade - Drummond, poeta do vasto mundo -, de Darcy Ribeiro - Darcy, um brasileiro - entre outros. E também 3 refeições, da mesma autora, um registro das Caravanas da Cidadania de Lula pelo Nordeste, em 1993, quando, ao se lançar candidato à campanha presidencial ele refez o trajeto da viagem da mãe e seus irmãos pequenos de Garanhuns (PE) até São Paulo.

O doc sobre Glauber, referência para quem faz cinema, tem trilha musical de Villa Lobos e apresenta um panorama selecionado da obra do diretor baiano que morreu num hospital, em Botafogo, no Rio de Janeiro, depois de internado em Lisboa após passar mal em Sintra, onde se preparava para novas filmagens.

Além de reproduzir imagens de impacto de algumas das produções históricas de Glauber, nele há depoimentos que introduzem cenas e sequências expressivas de inúmeros dos seus clássicos.

Desde Barravento, o primeiro longa-metragem, de 1962 (com a atriz Luiza Maranhão e Antonio Pitanga) até Leão de sete cabeças (1970), uma contestação à cultura europeia, e Cabeças cortadas (de 71), que para alguns críticos o primeiro filme surrealista depois de L'âge d'or.

As entrevistas são do poeta Ferreira Gullar, falecido em 2016 e grande admirador da obra de Glauber, do jornalista Renato Lemos, um companheiro na redação de um jornal de Brasília (Glauber começou a trabalhar, em Salvador, como repórter de polícia), do produtor carioca Luiz Carlos Barreto, e uma série de intervenções da dedicada mãe, Lucia Rocha, que faleceu em 2014.

Duas intervenções são especiais. Uma, as da pesquisadora de cinema Berê Bahia, especialista e minuciosa historiadora do trabalho e da vida de Glauber. Ela comenta a angústia que acometeu o diretor, no final da sua vida, atormentado pela sua condição de exilado e pela incompreensão de parte dos seus colegas do cinema novo quando se dividiram a respeito das normas para a anistia que viriam a ser baixadas no fim da ditadura civil-militar de 64.

Outro depoimento relevante é o da professora da UFRJ Ivana Bentes analisando a técnica do diretor e o seu mitológico conceito de ''uma ideia na cabeça e uma câmera na mão'', época do cinema novo.

Mas o melhor do doc sobre Glauber - um artista-profeta, no dizer de vários dos seus críticos - são as lembranças de algumas das suas observações e do seu pensamento anotados em cartas, artigos jornalísticos e nos diálogos dos seus filmes. Poéticas e políticas, elas servem como antecipação - ou infeliz perpetuação - do quadro de um país que ele amou com paixão, e que sempre esteve (e está, ainda hoje) ''em transe''.

Glauber foi contra as ''festas das medalhas''. Transformou a cobertura filmada que lhe foi encomenda por Sarney para registrar sua posse na Presidência em um documentário libelo contra a fome e a miséria no Brasil. (Há sequências desse filme dentro do documentário de Maia).

Mas acreditou na ''esperança dourada do Planalto'' e investiu contra a ''ingenuidade da fé''. Nada é mais atual.

Na anotação do poeta Mario Faustino, que abre o documentário, a mais justa e exata definição do artista baiano: ''Um louco, um anarquista, um romântico.'' Um romântico, porém, menos louco do que desesperado, e que dizia, num diálogo cinematográfico, pela voz do ator Jardel Filho: ''É preciso resistir, resistir, resistir.'' Nada é mais atual.

Em tempo: Diversos filmes de Glauber Rocha estão disponíveis em plataformas como SPcine, Now, youtube, Looke, Netflix, Telecine entre outras. Em algumas, cópias sofríveis. Em outras, em bom estado. Mas é preciso pesquisar. Há também ótimas entrevistas com o professor Ismail Xavier (USP) e Mateus Araújo (ECA/USP), e com Ivana Bentes e Maria Alzuguir Gutierrez, ambas da UFRJ)





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