Cinema

Glauber, um vulcão na TV

Comemorando 17 anos, a CineBrasil TV estreia 'Antena da Raça - O filme', que procura atualizar Glauber Rocha a partir do programa Abertura

07/07/2021 10:01

Zé Celso, Helena Ignez e Paloma Rocha (Reprodução)

Créditos da foto: Zé Celso, Helena Ignez e Paloma Rocha (Reprodução)

 
Uma das últimas contribuições de Glauber Rocha para a geleia geral brasileira foi o seu quadro semanal no programa Abertura da TV Tupi, entre 1979 e 1980. Ali Glauber reinava absoluto, alheio a qualquer censura ou senso de organização audiovisual. Os closes o apresentavam com a barba por fazer, o cabelo desalinhado, as mãos se agitando em frente ao rosto. Uma mistura de clown, agitador e visionário.

O programa reapareceu no ano passado como uma série de 13 episódios exibida na CineBrasil TV e atualmente sendo reprisada. A direção é de Paloma Rocha, filha de Glauber e Helena Ignez, e do diretor de fotografia Luís Abramo. Um condensado da série, Antena da Raça – O Filme, tem circulado por festivais e passou na mostra Cannes Classics. O longa, de 76 minutos, estreia no canal neste sábado (10/7), às 21h30.

Paloma e Luís resgataram momentos preciosos do Abertura, como as entrevistas com "Brizola" e "Severino", que Glauber transformou em personagens emblemáticos do povo brasileiro. Hoje talvez fosse considerado politicamente condenável expor a ignorância e a humildade daquelas figuras, mas isso cabia perfeitamente na irreverência e no livre pensar de Glauber. Todos – de Luiz Carlos Barreto e Caetano Veloso a Eduardo Mascarenhas – vinham ao microfone como "escadas" para o discurso oceânico do apresentador sobre política e cultura.

As famosas contradições do genial baiano também marcam presença. Ele não só reafirmava os elogios aos generais da abertura – o que lhe custou o repúdio da esquerda –, como celebrava Antonio Carlos Magalhães, em sua presença, como "líder incontestável da Bahia".

Brizola e Glauber (Reprodução)

Num ensaio de montagem atômica (conceito glauberiano aparentemente posto em prática por Alexandre Gwaz), Antena da Raça – O Filme promove um diálogo entre materiais e entre tempos. Temas e personagens referidos no programa repercutem em trechos de filmes de Glauber e na realidade atual. Com uma diferença primordial: em 1979, vivia-se uma tênue esperança de abertura política (e é a isso que aludia o título do programa). A passagem do bastão de Geisel para Figueiredo prenunciava alguma mudança, e Glauber se apresentava como arauto do novo. Hoje, bem ao contrário, vivemos um momento de retrocesso e expectativa de ditadura.

A figura nefasta do atual presidente da República ecoa no personagem fascista de Paulo Autran em Terra em Transe; a violência policial dos nossos dias reverbera em cenas de massacre de africanos em O Leão de Sete Cabeças. O genocídio indígena ressoa em imagens de A Idade da Terra. Dessa forma, Glauber vai sendo "atualizado" por obra da filha, movida sobretudo pela indignação diante do Brasil atual.

O procedimento talvez menos feliz de Paloma foi tentar reproduzir as entrevistas de Glauber no pesadelo político de 2018. Enquanto as conversas com Caetano, Zé Celso, Barretão e Helena Ignez convergem para a rememoração do próprio Glauber, as participações de José Dirceu e de populares no contexto de 2018 soam um tanto gratuitas e improdutivas.

>> Antena da Raça – O Filme estreia na CineBrasil TV neste sábado, 10/7, às 21h30, com várias reprises até o fim do mês.

A exibição de Antena da Raça – O Filme é parte das comemorações de 17 anos da CineBrasil TV neste mês de julho. Fundado pela cineasta Teresa Trautman, o canal tem ajudado a viabilizar e exibido documentários e séries documentais de diretores como Tata Amaral, Betse de Paula, Cao Hamburger, Jorge Durán, Renato Tapajós, Toni Venturi, Orlando Senna e Silvio Tendler.

Neste link é possível consultar as operadoras que carregam o canal, apenas informando o Estado.

A programação pode ser assistida através de assinatura na plataforma Divertenet.

O canal também está disponível na Oi Play, gratuito por 30 dias.







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