Cinema

Goiás melancólico, México brutal

'Dias Vazios' aborda a estreiteza da vida provinciana e a amplidão da criação literária, enquanto o mexicano 'Compra-me um Revólver' contrapõe a inocência de uma menina à violência do tráfico.

30/05/2019 13:47

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Transplante de personagens

Entre os supostos desígnios de Deus e o livre arbítrio, entre a apatia e o desejo de evasão, entre a realidade de uma cidade morta do interior de Goiás e a criação ficcional – aí se encontram enredados os personagens de Dias Vazios. O suicídio de Jean (Vinícius Queiroz) e o desaparecimento de sua namorada, Fabiana (Nayara Tavares), surte um efeito depressivo sobre o colega de ensino médio Daniel (Arthur Ávila), que há dois anos está escrevendo um livro sobre os dois. Alanis (Natália Dantas), namorada de Daniel, é sua primeira leitora e tenta resgatá-lo do poço da melancolia.

Desde as primeiras cenas fica patente que estamos diante de um filme de escrita sofisticada, que não se furta aos enigmas trazidos do premiado romance de André de Leones, Hoje Está um Dia Morto. Na pequena cidade de Silvânia, sempre deserta e coberta por um céu plúmbeo, os jovens sonham em ir embora e ver o mar. O colégio de freiras parece menos opressivo do que se sugere (até a madre superiora, interpretada por Carla Ribas, fuma), mas a abundância de signos religiosos oprime e sufoca como a onipresença de Deus. O quarteto principal se coloca à parte do resto do grupo, parecendo condensar em si todas as dores da adolescência.

Dias Vazios seria apenas mais um filme sobre angústias juvenis não fosse a fina elaboração de sua trama psicológica. Enquanto Daniel tenta encontrar um desfecho para a personagem de Fabiana no seu livro, ele e Alanis transitam entre o plano objetivo e as apropriações do outro casal dentro do romance. Os revólveres, a fantasia de Super-Homem e um transplante de coração são elementos de um labirinto nem sempre fácil de percorrer.

Os ecos de uns personagens sobre outros se dão através de referências e diálogos repetidos, como nos filmes do coreano Hong Sang-soo. Embora algumas pontas possam ficar meio soltas, é notável o domínio do diretor goiano Robney Bruno Almeida, estreante em longas, sobre a dramaturgia e a estética do filme. Ele teve a coragem de permitir os tempos longos que passam a sensação de vácuo e ancoram o sentimento da cidade na consciência dos meninos. Os atores, preparados por Fátima Toledo, respondem com extraordinária precisão ao desafio de atuar em tom menor e longe dos clichês do gênero "filme de escola". Fotografia e montagem de excelência contribuem para uma linguagem contemporânea como pouco se vê em filmes fora do eixo de produção mais regular.

Dias Vazios é, enfim, um filme absorvente e criativo sobre a estreiteza da vida provinciana e a amplidão da criação literária. Mesmo que o desconsolo a tudo envolva como uma longa tarde enevoada. 


México, violência e irrealismo

"Tudo o que está nesse filme é real", apregoa a menina narradora na primeira cena de Compra-me um Revólver. A frase soa cada vez menos verdadeira à medida que avança a trama, centrada em algum ponto do México profundo, em tempo indeterminado. O narcotráfico a tudo domina pelas mãos de um chefe estranhamente andrógino. A menina Huck se disfarça de menino e é mantida acorrentada pelo pai, músico e zelador de um pequeno estádio, a fim de que não a roubem, como já fizeram com sua mulher e a filha mais velha. São unidos por um misto de proteção mútua e exploração da garota.

O ar seco e o chão poeirento não incomodam tanto quanto a presença dos traficantes, arrogantes e sádicos. Huck testemunha todo tipo de brutalidade, mas confia em herdar a sorte do pai, que escapa às situações mais perigosas. Ao acompanhá-lo, ela perde a inocência e faz sua iniciação num território de violência randômica, empenhada também em ajudar um amiguinho a recuperar o braço cortado pelos "cabrones" do tráfico.



Estamos num tipo de cinema áspero e pouco sutil com que alguns cineastas mexicanos costumam explorar a vida bruta de parte do país. Mesmo com resultado um pouco superior a Te Prometo Anarquia, o diretor guatemalteco Julio Hernández Cordón falha em oferecer uma narrativa coerente e satisfatória. As incongruências são muitas, como a sobrevivência e as ações dos três amiguinhos de Huck, o motivo pelo qual os bandidos mantêm a outra menina numa jaula e quase tudo o que acontece na meia-hora final, após o desaparecimento de um dos personagens principais.

Em meio à crueza gratuita em que tudo se passa, de vez em quando o filme decola para momentos de irrealismo poético que, apesar de desconexos com o resto, não deixam de causar boa impressão. Uma pausa para contemplar aves num barranco, um crepúsculo quase mágico ou uma paisagem após a chacina com cadáveres recortados em papel parecem inserções da inocência infantil num panorama de bestialidade.   





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