Cinema

Gramado 2019 vem aí com 'O homem cordial'

A edição deste ano de um dos festivais de cinema mais antigos do Brasil mostrará filme sobre a onda de ódio e intolerância que aflorou no país

10/07/2019 11:19

(Marcelo Vittorino/Divulgação)

Créditos da foto: (Marcelo Vittorino/Divulgação)

 
Dirigido por Iberê Carvalho, que também assina o roteiro ao lado do uruguaio Pablo Stoll (filme Whisky, 2003), O homem cordial vai estrear na mostra competitiva do 47º Festival de Cinema de Gramado que se inicia dia 16 de agosto próximo.

O longa é um thriller psicológico, no qual o afloramento de uma onda de ódio e intolerância é visto a partir do ponto de vista de Aurélio (Paulo Miklos), um homem de 60 anos, branco, rico e heterossexual, que da sua posição social privilegiada se vê perdido e impotente, sem saber como reagir a essa realidade que se apresenta.

A ideia inicial para o roteiro surgiu em 2015, quando Carvalho começou a se incomodar com a crescente onda de polarização no país.

A partir de então, passou a pesquisar o tema e se deparou com o vídeo de um garoto de dez anos sendo linchado numa manifestação pró-impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

"A reação e o ódio das pessoas que o cercaram me chocaram tremendamente e me perguntei o que eu faria se estivesse ali. Foi daí que surgiu a premissa inicial do argumento do filme", diz Carvalho. Depois, o co-roteirista Pablo Stoll aderiu ao projeto.

"Na época, o Brasil vivia o início de uma polarização política, mas que não se expressava de forma tão violenta e extremista como hoje. Quando filmamos, em meados de 2018, na véspera da eleição, o clima já era outro e esse novo cenário foi incorporado ao universo do filme".

"Mesmo assim, em setembro de 2018, quando a montadora Nina Galanternick assistiu ao material bruto, ela temeu que as cenas estivessem um pouco exageradas no tom e no seu desenrolar. Três meses depois, ela me confessou que sua percepção sobre as cenas havia mudado completamente, e então elas lhe pareciam até suaves perto dos episódios de intolerância e violência que vinham acontecendo no Brasil", conta o diretor.

"Estamos vivendo um momento tão estranho e revelador de nossa sociedade que é impossível qualquer ficção ter a pretensão de acompanhar a realidade", ele completa.

Para o protagonista, Carvalho precisava de um ator que tivesse carisma e ao mesmo tempo agressividade. Que tivesse quase 60 anos, mas com espírito jovem. Logo que o personagem principal, Aurélio, foi desenhado, pensou em Paulo Miklos.

"Ele era perfeito para o papel. Claro que o fato de sua experiência em uma das maiores bandas de rock do Brasil era um fator excepcional, já que o roteiro previa uma cena de show, mas a escolha se deu principalmente por seu trabalho em O invasor, que é umas das referências estéticas do filme".

O diretor conta que foi um privilégio trabalhar com Miklos, que possui 20 anos de experiência como ator, e que o ponto principal foi buscar as divergências entre o personagem e o intérprete, já que as convergências eram nítidas e poderiam se tornar uma armadilha no processo.

"O trabalho de preparação de elenco da Amanda Gabriel (Aquarius, Bacurau) foi fundamental para encontrar uma unidade entre todo o elenco".

Trabalhando ao lado dos produtores de elenco Guilherme Angelim e Alice Wolfenson, os demais personagens foram ganhando seus intérpretes.

"Thaíde foi das apostas que fiz que mais me orgulho. Uma potência incrível diante da tela. Dandara de Morais eu tinha visto em Ventos de Agosto, do Gabriel Mascaro, e quando a conheci pessoalmente surgiu a vontade de trabalhar junto", conta Carvalho.

O filme conta, ainda, com atores e atrizes de Brasília e paulistas. Thalles Cabral (Yonlu), Bruno Torres (Somos Tão Jovens), Theo Werneck (Que Horas Ela Volta), Murilo Grossi (Linha de Passe, Batismo de Sangue), Fernanda Rocha ( O Último Cine Drive-in), Felipe Kenji (Boas Maneiras) e com a participação da rapper Mc Sofia.

A cidade de São Paulo, onde O homem cordial foi rodado, também é uma personagem do filme. A opção do diretor pela capital foi devido ao cenário urbano de uma grande metrópole que simboliza o desenvolvimento. Incorporá-la ao longa pelo olhar ‘estrangeiro’ foi um desafio, "mas conseguimos trazer um olhar fresco da cidade".

A fotografia é de Pablo Baião, vencedor do Kikito de Melhor Fotografia no último Festival de Gramado, e Maíra Carvalho, ganhadora do Kikito de Melhor Direção de Arte em 2015, assina a arte.

A montagem é de Nina Galanternick, som de Daniel Turini, Fernando Henna e Henrique Chiurciu, som direto de Marcos Manna, figurino de Eduardo Barón e Vinicius Couto e maquiagem por Vanessa Barone.

A sinopse do filme: Aurélio é vocalista de uma famosa banda de rock que fez grande sucesso até o final dos anos 90. Na noite de retorno de sua banda aos palcos, viraliza na internet um vídeo que o envolve na morte de um policial militar. Ninguém sabe o que de fato aconteceu, mas o astro passa a ser alvo de grupos radicais. Aurélio, então, se vê inserido em uma tensa e violenta jornada pelas ruas de São Paulo. Durante uma única noite, encontrará figuras importantes de sua carreira, e também Helena, uma jovem jornalista determinada a descobrir o que realmente aconteceu.



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