Cinema

Histórias de desmonte

Os documentários 'Estrada de Sonhos', lançado nesta quinta-feira, e 'O Desmonte do Monte', que estreia semana que vem, levantam perdas de patrimônio em nome do progresso

05/07/2018 10:09

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Créditos da foto: Reprodução

 

Para onde foi esse trem?

Se algum plano lançado pelo "governo" Temer merecesse um mínimo de credibilidade, poder-se-ia esperar que as ferrovias brasileiras ganhassem um impulso significativo. O Plano Nacional de Logística prevê que, até 2025, a participação dos trens no transporte de cargas vai saltar de 18% para 31%, em detrimento das rodovias. Para o traslado de passageiros, porém, não há horizonte à vista.

O documentário Estrada de Sonhos oferece um dossiê sobre a história e a situação atual da malha ferroviária do país. O tom dominante é a nostalgia, que cala fundo em passageiros, velhos maquinistas, ferroviários aposentados, poetas e no cartunista Carlos Latuff. Sim, Latuff, famoso por seu ativismo pró-Palestina, diz-se também um "arqueólogo ferroviário". Tem por hobbie fotografar e desenhar antigas linhas férreas, estações desativadas, trens sucateados. Esse trabalho, que infelizmente não aparece no filme, pode ser visto neste blog.

Embora nunca tenha sido um esplendor em matéria de trilhos, o Brasil já teve melhores dias sobre os dormentes. Linhas pioneiras como a Mauá-Petrópolis, a São Paulo Railway e a Central do Brasil tiveram papel muito mais relevante do que o desempenhado pelas que ainda estão em funcionamento. A biografia das nossas ferrovias passa por processos de estatização e privatização, expansão e desmonte, que foram minando sua importância, sobretudo depois que o transporte rodoviário avançou dramaticamente nos anos 1950. O resultado é que, para muita gente, os caminhos de ferro são hoje mais folclore que realidade.



Ainda assim, o documentarista Pedro von Krüger consegue captar flashes interessantes de vagões em atividade em várias partes do Brasil. Gente para quem o trem continua a servir como o meio de transporte mais tranquilo e rápido. Outros para quem a passagem dos trens por seu lugarejo significa um ganho de vida. A história de uma família de várias gerações de ferroviários, até chegar à jovem maquinista Maria Raquel, é um dos achados da pesquisa que o filme aborda em velocidade maior do que deveria.

Estrada de Sonhos faria uma viagem mais proveitosa se não tivesse um roteiro tão dispersivo. Alguns personagens (como o congadeiro mineiro e a vendedora baiana) atraem para si uma atenção demasiada, levando a desvios pouco interessantes em relação ao tema central. Chega-se ao ponto de entrevistar um casal pelo simples fato de que eles se conheceram através de um amigo ferroviário.

Faz falta um dispositivo que orientasse a exposição dos diversos ângulos, em prol de um entendimento mais claro das muitas questões (históricas, econômicas, políticas, técnicas e humanas) envolvidas, e até mesmo do ponto de vista que o filme esposa. Restam as reminiscências, o saudosismo e um abuso cafona da imagem com bordas dissolvidas para efeito supostamente poético.  

A mãe de todas as remoções cariocas

Quase todas as ações de resistência contra as remoções de comunidades no Rio de Janeiro para dar lugar às obras das Olimpíadas de 2016 se reportaram, de alguma maneira, à derrubada do Morro do Castelo, a mãe de todas as remoções no Rio. O chamado Morro do Castelo de São Sebastião, local fundador da cidade, foi "arrazado" (conforme grafia da época) em 1922, depois de décadas de polêmicas.

Para seus detratores, o morro prejudicava a ventilação da cidade, era fonte de doenças e sinônimo de atraso. Para os defensores, queria-se apenas afastar os pobres do Centro e dar à região feições mais condizentes com o jargão "A cidade civiliza-se". Enfim, um projeto de embranquecimento e higienização do Rio de Janeiro – pensamento que, aliás, não está de todo extinto.



Depois de muito ser citada em filmes, essa história emblemática ganha um documentário de longa-metragem só para ela. O Desmonte do Monte chega aos cinemas no dia 12 de julho. Trata-se de um filme didático-crítico que coloca a demolição do morro já como extensão do processo de exploração colonial. Os 20 minutos iniciais são consumidos com um arrazoado sobre a exploração de índios e escravos africanos pelos poderes da colônia. Segundo o texto de narração – que não apresenta fontes bibliográficas nem o aval de historiadores –, a fundação do Rio de Janeiro foi baseada no estímulo à rivalidade entre tribos indígenas. "Os índios foram pacificados através da opressão", diz a voz da atriz Helena Ignez.  

O filme discorre sobre a rede de interesses em torno da derrubada do morro, inclusive do próprio prefeito Carlos Sampaio, que era sócio da empreiteira encarregada da obra. Estende-se também no tema das especulações e do folclore a respeito de tesouros dos jesuítas supostamente enterrados nas entranhas do monte. Ao que se sabe hoje, ou os tesouros foram encontrados e abocanhados por quem tinha acesso, ou nunca se encontrou nada além de galerias subterrâneas cheias de câmaras funerárias e instrumentos de tortura.

O tesouro maior que vem à tona em O Desmonte do Monte é um tesouro iconográfico. Fotografias e filmetes da primeira metade do século, em número abundante, mostram imagens raras da região central, das obras de demolição e de figuras populares. As cenas de ondas chicoteando violentamente as balaustradas do Flamengo, as fotos aéreas do espaço aberto com o desaparecimento do morro e as tomadas da Exposição Internacional de 1922, embora não sejam inéditas, surtem um efeito poderoso quando reunidas como aqui.

Esse documentário é mais um filhote da família Sganzerla. Narrado por Helena Ignez (e algumas vozes adicionais), foi pesquisado, dirigido, produzido, roteirizado e montado por sua filha, Sinai Sganzerla, que ainda selecionou a trilha musical e até assina alguns temas. O bom (e inusitado) uso de música do hitchcockiano Bernard Herrmann e de um Cartola bem sacado para encerrar o filme é trunfo que joga a seu favor.

A todo o discurso organizado por Sinai, poderíamos acrescentar que as terras do Morro do Castelo continuam existindo por baixo de nossos pés quando passamos, por exemplo, pelo Aterro do Flamengo, as bordas da Lagoa Rodrigo de Freitas e as proximidades do Jardim Botânico. Mas um pedaço importante da alma original do Rio se perdeu.



Pinochet e os cachorros

Estreia esta semana também o longa de ficção chileno Cachorros.

Enquanto o Brasil praticamente se esquece dos horrores da ditadura – e muitos ainda a querem de volta –, na Argentina e no Chile as feridas continuam abertas. O cinema dos dois países tem colocado na tela uns tantos acertos de contas com o passado. O caso do filme chileno Cachorros tem algo de especial, pois está centrado numa personagem ambígua e mesmo repulsiva, que não participou da época ditatorial mas lida com seus restolhos.

Mariana (Antonia Zegers) mantém um caso extra-conjugal com seu professor de equitação, mesmo  depois de saber que ele tem um currículo ligado à DINA, a polícia secreta de Pinochet, e está sendo processado por isso. Descobre também que seu pai, um rico fazendeiro e criador de cavalos, foi colaborador do regime militar e tem recursos suficientes para se safar de qualquer incriminação.

A moral de Mariana é oscilante, embora condicionada por uma forte atração pelas figuras autoritárias de policiais, militares, instrutores e do próprio marido arrogante e machista. Ela também é autoritária, filha mimada da alta burguesia, que acredita poder comprar o que quiser, como se vê no contato com um artista que quer levar para sua galeria de arte.

A diretora Marcela Said já assinou vários documentários de análise do conservadorismo no Chile, entre eles I Love Pinochet (2001), que investigava o que ainda restava de admiração pelo ditador. Em Cachorros (Los Perros), ela procura trabalhar sutilezas de comportamento, mas esbarra nos imutáveis sorrisos cínicos de Antonia Zegers e num desenvolvimento dramático algo entediante.

São muitos e vagos também os subtextos simbólicos envolvendo cachorros (fidelidade, vulnerablidade?) e cavalos (soberba, teimosia?). O cartaz do filme reproduz o quadro Laura y los Perros, de Guillermo Lorca, tela velazqueana que a protagonista ganha do marido. A menina com nove cães a seus pés fica como uma charada para os cinéfilos decifradores.

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