Cinema

Histórias que uma menina não sabia

O documentário "Zona Árida" mostra a volta de uma brasileira, 15 anos depois, à cidade mais conservadora dos EUA

15/10/2020 12:21

(Rodrigo Levy)

Créditos da foto: (Rodrigo Levy)

 
Poucos de nós somos os mesmos aos 15 e aos 30 anos. É nesse período que formamos nossa consciência social e política, além de começamos a administrar nossos afetos. Foi alguma coisa assim que aconteceu com Fernanda Pessoa, a diretora de Zona Árida. Nesse documentário em primeira Pessoa, a Fernanda de 30 se dirige à de 15 para reavaliar sua estada de intercâmbio numa cidade do Arizona em 2001.

Naquela época, a menina queria experimentar o modo de vida americano que via nos filmes. Suas fotos são sempre sorridentes, posando ao lado de caubóis e amigas, ou vestida com as cores da "star and stripes". Talvez achasse apenas divertido ser tratada pelos rapazes como a "brasileira gostosa" e aconselhada a "não perder a bunda". O que não lhe garantia, como latina, a eleição de rainha dos concursos de popularidade.

Desde então, a percepção de Fernanda sobre aquele lugar se alterou muito. Em 2014, descobriu que a cidade de Mesa era considerada a mais conservadora dos EUA. Em 2016, retornou com uma pequena equipe de filmagem e reencontrou pessoas com quem convivera 15 anos antes. Ela mudara, mas eles não. Continuavam cultivando os valores da religião, da família e da propriedade acima de tudo.



Fernanda conversou com a família que a hospedou em 2001 e com alguns ex-colegas de escola. Os mórmons avançaram na sociedade local, assim como o culto às armas de fogo, o oportunismo frente aos imigrantes mexicanos, ótimos para trabalhar mas indesejáveis para conviver. Com habilidade, ela os faz opinar sobre o que é ser conservador ("é ter a mente aberta", crê uma mãe de família), ser americano ("é pensar maior que a vida", define um professor de literatura) e chamar os imigrantes de "aliens". Capta até mesmo um certo orgulho ao admitirem que, sim, "somos entediantes".

O filme, ganhador de um menção honrosa no prestigioso Festival de Leipzig, é pontuado pelas imagens de uma cidade violentamente plana e padronizada, todas as casas cor de areia com carros, cactus e bandeiras à porta, recostada à topografia exuberante do deserto do Arizona. Os parques temáticos do Velho Oeste continuam lá, testemunhos de uma tradição convertida em mera reprodução. Lá estão as diversões militarizadas, o estande de tiros para distração nos dias de folga, o muro contra a entrada de imigrantes na fronteira do Arizona com o México.

Fernanda Pessoa estreou no longa-metragem com Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, documentário sagaz sobre a dimensão política das pornochanchadas. Zona Árida, já a partir de título tão polissêmico, amplia o reconhecimento da cineasta na área. Quando ela filmou em 2016, pôde flagrar a mentalidade dos que iam eleger Donald Trump meses depois. De lá para cá, tudo ficou ainda mais árido, nos EUA como no Brasil. As últimas cenas do filme realçam sua atualidade, deixando definitivamente para trás a menina que sorria, inocente, no Arizona.

Zona Árida está nas plataformas Net, Vivo e Oi.





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