Cinema

Honra e amor numa China em mutação

O mestre chinês Jia Zhang-ke é o mesmo e não é mais o mesmo em

18/04/2019 09:21

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Jia Zhang-ke é o mesmo e não é mais o mesmo em Amor até as Cinzas. Ele é o mesmo quando narra os altos e baixos na vida de um criminoso (como em Xiao Wu/Pickpocket); quando menciona a decadência da atividade mineradora na sua província natal de Shanxi (como em Plataforma); quando reedita a história de alguém buscando pela pessoa amada na região da grande barragem das Três Gargantas (como em Em Busca da Vida); quando mostra indivíduos em deslocamento numa China em transformação radical; quando recorre a figuras de linguagem do wuxia, o gênero chinês de artes marciais (como em Um Toque de Pecado); ou ainda quando pontua a situação de uma mulher em três tempos diferentes (como em As Montanhas se Separam).

Zhang-ke é o mesmo, principalmente, quando cria mais um veículo para sua mulher, a atriz Zhao Tao, aqui no papel de Qiao, dançarina de salão apaixonada por um mafioso de pouco caráter. É mais uma oportunidade para Zhao Tao demonstrar sua capacidade de se metamorfosear com sutileza, passando de gatinha atrevida a ex-presidiária amargurada e a mulher madura e senhora de si. Por transformações igualmente importantes passa o seu namorado através dos anos 2001, 2006 e 2017.



A história original de Zhang-ke alude ao código de honra do submundo jang-hu, comunidades de autoproteção dos pobres na China pré-comunista, tema muito presente nas histórias de wuxia. O mafioso Bin (Fan Liao) acredita-se herdeiro daquele código e quer transmiti-lo à namorada, mas não hesita em trai-lo com relação à própria Qiao enquanto ela passava cinco anos na prisão por tê-lo salvado de uma emboscada. No fim das contas, a honra vai se mostrar algo bastante relativo para todos, inclusive para Qiao, que sucessivamente engana e é enganada.

No percurso desse misto de railway-movie e boat-movie pela região do Rio Yang-Tse, é como se revisitássemos algumas locações e motivações de filmes anteriores do diretor, mas sem a força da originalidade e, sobretudo, sem algumas marcas de estilo que fizeram a personalidade autoral de Zhang-ke. Nisso ele não é mais o mesmo. A decupagem clássica das cenas o aproxima de um cinema-padrão internacional. O seu fotógrafo e parceiro de criação estética habitual, Nelson Yu Likwai, aparece apenas como consultor, tendo seu lugar ocupado pelo francês Eric Gautier (de Diários de Motocicleta e dos últimos filmes de Alain  Resnais).



A gramática do cineasta se alterou profundamente desde As Montanhas se Separam, seu longa anterior. Agora não é a construção dos planos que determina a ação e a movimentação dos atores, mas o contrário, como de praxe nos filmes comuns. Cresce a transparência da linguagem, mas reduz-se o prazer do cinema enquanto redesenho do mundo.

Isso não impede, é claro, que momentos de grande beleza e elegância surjam com regularidade. Os flertes surrealistas com a ficção científica (como o prédio que decolava em Em Busca da Vida) ressurgem na visão de um Ovni e na meia-hora final ambientada numa espécie de cenário futurista inacabado, que é como Jia Zhang-ke deve enxergar a Novíssima China.








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