Cinema

Il Caimano, o retrato multifacetado de um Berlusconi inatingível

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25/05/2006 00:00

Sofia Pleym

CANNES - Uma das grandes questões colocadas pela presente edição do Festival é a capacidade de diretores consagrados, representantes de um cinema muito pessoal e característico, em continuar inovando e não ficarem engessados na própria fórmula que lhes deu sucesso. Ken Loach parece ter refeito um de seus filmes anteriores, Kaurismaki pouco acrescenta com “Les Lumières du Faubourg”, o último item de sua suposta trilogia sobre os flagelos da sociedade moderna, exibido anteontem na competição do Festival. Nanni Moretti, no entanto, escapa deste fracasso com “Il Caimano”.

O projeto de fazer um filme sobre Berlusconi é antigo e a primeira tentativa de Moretti, um documentário sobre o presidente italiano, começou a ser feito em 2001, para ser abandonado em seguida. Em 2002, o diretor começou a trabalhar num roteiro de uma ficção que se basearia na vida do governante, mas este segundo projeto foi igualmente descartado. Talvez o sucesso do último filme de Moretti deva-se justamente a esse amadurecimento do tema na cabeça do diretor, que terminou por rodar uma ficção "menos frontal", em suas palavras, que é lançado agora em Cannes.

Moretti declarou que não gostaria de realizar um retrato folclórico ou caricatural da figura italiana, à qual, aliás, Berlusconi se prestaria sem nenhuma dificuldade. E, na tentativa de escapar desta formula, ele parece ter encontrado instrumentos para lidar com o tema de maneira mais criativa.

Ao invés de traçar o percurso puramente factual do Presidente ou desenvolver um pastiche anedótico, o filme cria algumas camadas para elaboração da figura de Berlusconi, como, por exemplo, a sua interpretação no filme ser realizada por quatro atores diferentes, cada qual contribuindo para a construção de um quadro multifacetado.

Um ator que tem grande semelhança física com Berlusconi interpreta-o nas primeiras cenas, quando assistimos, na realidade, a visualização pela personagem do produtor de cinema do roteiro que lhe é apresentado por uma diretora principiante. Em seguida, temos o Berlusconi do próprio Berlusconi, por meio de imagens extraídas de aparições públicas do Presidente. É' uma forma de "deixar que a obra fale por si", Berlusconi é caricatural a tal ponto que um espectador mais desavisado poderia acreditar tratar-se da interpretação da figura por um segundo ator. Em seguida, no contexto de produção do roteiro da diretora principiante, o personagem é interpretado um ator profissional escalado para o elenco do filme. Trata-se de um ator muito conhecido do publico italiano (tanto no enredo do filme quanto na vida real), que faz um estilo um pouco canastrão e enganador. Finalmente, o próprio Moretti propõe-se a interpretá-lo, substituindo o ator anterior, que abandona o projeto antes da filmagem.

Esse conjunto de pontos de vista é justamente a riqueza de “Il Caimano”. Na dúvida sobre como tratar o tema, Moretti vale-se de instrumentos diversos e sua criatividade resulta num filme metalingüístico que discute justamente como se fazer um filme sobre Berlusconi. Para fugir da acusação de estar manipulando elementos de seu percurso para ridicularizá-lo, Moretti coloca-nos em confronto com imagens reais da figura, demonstrando que, às vezes, os fatos falam mesmo por si. É' curioso, nesse sentido, observar como a interpretação de Berlusconi por Moretti ao final, num retrato, digamos, mais profundo do personagem, não convence. É' como se o diretor tentasse dar à personagem uma dimensão, dando-lhe sentimentos que ele não tem e fazendo-o mais humano. As imagens reais do Presidente refutam essa humanização e o encerram no retrato caricato e estereotipado que, em última instancia, é o único que lhe pertence.

O filme de Moretti acrescenta uma peça à escassa filmografia a respeito do Presidente italiano e também às questões que justificam de alguma forma esta própria escassez. Berlusconi, no poder por 12 anos, foi "imposto" aos italianos numa espécie de lavagem cerebral com auxilio dos três canais de televisão nacionais que ele detém, mas nada parece justificar o fato de que tantos anos se passaram antes que o cinema abordasse o tema. As dificuldades de financiamento e o risco de repressão, ainda que econômica, pelo grande poderio audiovisual e de mídia do Presidente na Itália não deveriam ser suficientes para justificar a indiferença critica do povo italiano à sua realidade dos últimos anos.

Como diz um dos personagens de “Il Caimano”, a Itália estaria entorpecida e sua população totalmente esvaziada cerebralmente após anos de manipulação pela televisão de Berlusconi. E Moretti parece corroborar esta imagem, mostrando, ao final do filme, o julgamento no qual Berlusconi é condenado pelo Judiciário, para ser em seguida acolhido calorosamente pelo povo na saída do tribunal, enquanto os magistrados são atacados. Resta esperar que a realidade imite apenas a condenação da ficção de Moretti, mas que a população esteja muito além do triste universo do italiano.





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