Cinema

'Il Generale della Rovere': Um estudo de Rossellini sobre o caráter

Reprise de um filme precioso narra a sobrevivência dos canalhas e a firmeza de quem não trái num país ocupado (ou não) pelo inimigo

30/07/2020 12:51

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Na série reprises do confinamento, o clássico Il Generale della Rovere, de Roberto Rossellini,* é uma obra prima que não pode deixar de ser (re)visitada. No Brasil da década dos anos 50 recebeu o título infame de De crápula a heroi; e foi realizado em 1959, nos estúdios da emblemática Cinecittá (fundada por Mussolini), em Via Tuscolana, arredores de Roma, quando a indústria cinematográfica italiana lançava uma obra prima atrás da outra e fascinava as plateias do mundo.

O admirável filme, premio Leão de Ouro no Festival de Veneza de 59, foi rodado no auge do prestígio e da maturidade artística do diretor. Após o seu Roma, cidade aberta e Paisá (outras duas obras primas), e depois do badalado Stromboli, que celebrava a paixão entre o cineasta e a sueca Ingrid Bergman, e de Europa 51, de 1952, este é uma preciosidade.

Um dos clássicos da filmografia exuberante de RR como o chamavam seus amigos, Il generale della Rovere está entre os mil melhores filmes já feitos no mundo segundo os críticos do jornal New York Times.

A incrível história do personagem encarnado pelo diretor e ator Vittorio de Sica - com uma interpretação notável embora não fosse um grande intérprete - é real e se passou durante a ocupação dos nazistas na Itália fascista onde atuava um dos mais organizados movimentos de guerrilha dos partigiani contra os alemães.

Um dos co-autores do roteiro do filme, o então famoso jornalista e escritor romano Indro Montanelli, conheceu o suposto general numa prisão de Milão. Oficialmente, ele teria sido preso durante uma missão secreta que cumpria em nome dos Aliados, mas na realidade se tratava de um pequeno canalha, vigarista e jogador viciado, Giovanni Bertoni, contratado como espião dos alemães na cadeia e colocado ali depois da morte do verdadeiro general.

Bertoni foi sofrendo tal transformação de caráter diante dos sofrimentos testemunhados e ficou tão impregnado com a autoridade e o respeito que o militar inspirava que na sua interpretação do personagem se recusou a transmitir qualquer informação aos seus captores. Acabou sendo um inimigo real dos nazistas.

O começo da sua transformação se dá numa sequência memorável em que de Sica/Bertoni irrompe, aos gritos, na galeria da cadeia, se fazendo passar por della Rovere e acalmando os homens trancados em suas celas durante feroz bombardeio.

Nos primeiros anos da guerra, Indro Montanelli chegou a acompanhar os fascistas italianos antes de mudar de lado e se juntar ao célebre movimento clandestino de resistência Giustizia e Libertà; e por isto acabou sendo preso.

Quando a guerra terminou ele dedicou um livro ao personagem do general e participou da criação do roteiro final do filme junto a outro roteirista afamado, Sergio Amidei, e Diego Fabri.

O cinema de Rosselini, assim como os melhores trabalhos do cinema neorrealista italiano, não vem com adjetivos. Com austeridade, cria perfis de personagens e, até onde pode ir, objetiva caráter e ações do indivíduo nas circunstâncias da cada realidade. A fotografia é dura, sempre dramática e sem sutileza.

O tema da traição, do traidor e da mentira como recursos de sobrevivência pessoal e política em tempos excepcionais (e em tempos ''normais'?), e do desassombro e da ousadia como meio de redenção do heroi é a argamassa do caráter do pequeno/grande canalha Bertoni, o general factóide.

Durante o primeiro capítulo do filme, nos exteriores de ruas da cidade, uma mescla de registros de época com cenas construídas nos estúdios, nos coloca com insistência, a nós espectadores, diante do cenário devastado pelos bombardeios das blitzen dos aviões aliados, mas não somente em prédios residenciais.

Rossellini quer falar também sobre a desintegração da personalidade e do caráter do homem na realidade adversa, cada qual procurando sobreviver ao seu modo aos ataques sofridos. Mas até quê ''certo ponto''?

Como julgamento político, apenas uma observação rápida, no segundo capítulo do filme que transcorre na rotina da cadeia, quando um prisioneiro exclama, em diálogo de um grupo de prisioneiros: ''Estamos todos aqui porque muitos de nós nada fizemos.''

A questão moral fica em suspenso até a última e ríspida sequência dessa pérola do cinema.

*A obra prima de Rossellini entrou em cartaz este mês na plataforma gratuita do Sesc e também se encontra disponível no Youtube onde uma das cópias é original, falada em italiano e legendada em inglês.






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