Cinema

Imagens e poder na Era Vargas

Filme de Eduardo Escorel e livro de Miguel Freire repassam a produção de imagens da era getulista e falam de uma época em que, como agora, o irracional e a supremacia dos sentimentos se impuseram sobre o pensamento e a razão

15/03/2018 12:12

 

 
A internet, as mídias alternativas e a produção independente disponibilizam hoje um imenso manancial de imagens, informações e reflexões que não dependem dos canais do estado nem da mídia corporativa. Esse fluxo de dados não controlados opera como um contrapeso político à opinião ainda dominante nos sistemas tradicionais, seja para o bem, seja para o mal.

Mas nem sempre foi assim. A era de Getúlio Vargas representou um primeiro ápice do controle estatal da informação entre nós. Quem ousasse sair às ruas com uma câmera de filmagem e sem a devida autorização na época do Estado Novo corria o risco de passar algumas noites na cadeia. O domínio dos meios de comunicação servia à formação de um acervo completamente alinhado com os projetos governamentais, inclusive aqueles de caráter cultural. Informação e propaganda se confundiam completamente.

ACERVO FGV/CPDOC_ARQUIVO GETÚLIO VARGAS

Para iluminar esse contexto, está chegando às telas o documentário Imagens do Estado Novo 1937-1945, de Eduardo Escorel. No ano passado, as livrarias receberam Fotografia Getuliana – Imagética germânica na construção do olhar fotográfico nos tempos do Estado Novo, de Miguel Freire. Filme e livro se complementam.

Em tempos de retorno do fascismo, agora em embalagem pop, evangélica ou empresarial, soa particularmente oportuno examinar a fundo esse momento da História em que o irracional e a supremacia dos sentimentos se impuseram sobre o pensamento e a razão.

Uma viagem imersiva pelo Estado Novo

O filme de Escorel, com quase quatro horas de duração, levou uma menção honrosa no Festival É Tudo Verdade de 2016. Seu diretor é um dos grandes cultores do cinema documental no Brasil, montador de filmes como Cabra Marcado para Morrer e Santiago, e diretor do curso de pós-graduação em documentário da Fundação Getúlio Vargas. Imagens do Estado Novo 1937-1945, com seu enunciado direto no título, pretende, por um lado, apresentar a maior compilação já feita de imagens daquele período ditatorial, ampliando a resenha histórica já empreendida pelo cineasta em 1930 – Tempo de Revolução, 32 – A Guerra Civil e 35 – O Assalto ao Poder (leia aqui sobre esses três filmes). Por outro lado, quer discutir o Estado Novo como usina de imagens ou mesmo o fato de o regime ter se sustentado como pura imagem, apagamento de contradições e de contestações.

O roteiro desenvolvido em conjunto com Flavia Castro partiu, naturalmente, das imagens, a maioria delas oficiais, de cinejornais produzidos pelo DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Mas a narração, a cargo da voz cheia e pausada do próprio Escorel, procura, aqui e ali, fazer a crítica da imagem. Já no começo, ele se pergunta: "É possível fazer um filme sobre o Estado Novo com imagens de propaganda?". Vez por outra, essa narração se volta sobre o próprio material fílmico, indagando o que as cenas omitem em vez de mostrar, ou que conclusões se pode tirar dos materiais perdidos. A opção de desmentir o discurso das imagens pelo discurso verbal também é acionada em diversos momentos. Em um deles, pelo menos, a interpretação é discutível. É quando a população carioca festeja o final da II Guerra diante de Getúlio e uma faixa com a inscrição "Democracia" é identificada por Escorel como um protesto contra a ditadura brasileira. Para quem vê a cena simplesmente, a faixa soa como uma celebração da vitória da democracia dos aliados contra o nazifascismo.

De qualquer forma, é necessário pontuar que a atitude crítica face aos arquivos da época é amplamente sobrepujada pelo uso dos filmes e cinejornais como simples matéria de um relato historiográfico. Mais do que desnudar a propaganda do DIP, Escorel a engaja numa narrativa factual do comportamento do Estado Novo, do seu início com um golpe militar ao encerramento com outro golpe. Como explanação audiovisual, o valor do filme é inestimável. Nunca se viu antes uma seleção tão rica e definidora do Brasil daqueles anos. Se Getúlio é obviamente o ímã de todas as câmeras, é possível também vislumbrar as imagens do povo, da vida nas ruas, além de cinejornais estrangeiros que ajudam a compor o mosaico documental do período. Uma canção de louvor a Getúlio montada sobre cenas da lavagem de um jacaré abatido é um dos poucos momentos em que o filme se permite exercitar a ironia.

Escorel usa também trechos dos diários de Getúlio, de cartas e outros documentos escritos para complementar ou questionar sentidos latentes nas imagens. Referências à sucessão de bombardeios que vão de Guernica a Hiroshima, passando por Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, a invasão nazista na Polônia e a destruição de Dresden, pretendem sem muito êxito ampliar o espectro retórico do filme. O foco mais bem-sucedido está na ambiguidade/pragmatismo de Getúlio no trato com as forças da II Guerra Mundial e com os militares no front interno, assim como no projeto de ligação direta do presidente com o povo.

De resto, Imagens do Estado Novo convoca o espectador a uma viagem imersiva e fascinante por oito anos de Brasil.

Em breve desembarcará no circuito independente outro documentário sobre Vargas, este baseado no livro A Era Vargas, de José Augusto Ribeiro. Na direção, o jornalista Beto Almeida promete colocar em discussão a visão deturpada que, segundo ele, se criou em torno do Vargas ditador e filonazista, inclusive por parte da esquerda. “O Estado Novo era condicionado pela geopolítica internacional numa época em que não havia estado de direito. Getúlio foi o grande fundador do estado social brasileiro e responsável por muitas medidas de emancipação da nação”, sustenta.  Getúlio Vargas – a Transformação do Brasil deve ser lançado em versão de média metragem em abril e, até o fim do ano, em três módulos de uma hora cada. O patrocínio é da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini.   

De Nuremberg ao Catete

DivulgaçãoQuando os cinejornais do Estado Novo enfocavam a chegada de Getúlio Vargas a grandes eventos, as cenas eram perturbadoramente semelhantes ao efusivo desembarque de Hitler em Nuremberg como retratado em O Triunfo da Vontade. Esse é apenas um dos muitos exemplos de semelhança entre as imagens oficiais brasileiras da época e a estética alemã dos anos 1930-40. Apontar, analisar e contextualizar esses influxos é a tarefa a que se impôs o pesquisador, professor e cineasta Miguel Freire em Fotografia Getuliana – Imagética germânica na construção do olhar fotográfico nos tempos do Estado Novo (Kotter Editorial, 2016).

Miguel não foi o primeiro a se debruçar sobre o assunto. Antes dele, pelo menos Aline Lacerda, Lauro Cavalcanti, Maria Rita Galvão, Mauricio Lissovsky e Beatriz Jaguaribe já o estudaram, em maior ou menor extensão. Fotografia Getuliana tem o mérito de resenhar esses trabalhos anteriores e interrelacioná-los, reunir preciosas referências teóricas sobre as questões do olhar e do totalitarismo, além de deter-se numa dissecação minuciosa de cinejornais e fotografias. A obra de Leni Riefenstahl mereceu um capítulo especial na qualidade de matriz de uma arte colocada a serviço de um poder totalitário.

O estudo se dá, principalmente, pelo cotejo em duas frentes: de edições do Cine Jornal Brasileiro, produzido pelo DIP de Vargas, com documentários e cinejornais da era nazista; e do projeto de revista Obra Getuliana, conduzido por Gustavo Capanema (mas nunca publicado) com o livro comemorativo Neues Deutschland, editado em 1939 para divulgar os feitos de Hitler entre alemães residentes fora da Alemanha.

Uma das grandes preocupações de Miguel Freire é afastar a ideia de que o Brasil produzisse meras cópias dos exemplares germânicos. Se Capanema tinha um exemplar da Neues Deutschland em sua gaveta, o mesmo não se pode dizer dos cinejornais, uma vez que pouco da produção cinematográfica alemã chegava ao Brasil em tempo hábil. Trata-se, isso sim, de uma filiação estilística exercida por fatores diversos. Um deles, a hegemonia da estética europeia de então, sobretudo alemã e soviética, nas artes oficiais do mundo inteiro. No caso do Brasil em particular, houve a importação de vários fotógrafos alemães que forneceram um upgradedireto à fotografia brasileira da época. Mais que influência, portanto, temos um compartilhamento de ideias e escolhas.

Miguel Freire é um estudioso devotado da luz e da composição de imagens no cinema. Seus trabalhos sobre os fotógrafos Mario Carneiro e Mario Fontenelle são referências incontornáveis. Em Fotografia Getuliana ele devassa o olhar de cinegrafistas e fotógrafos do Estado Novo em busca das formas de expressão de emoções, valores – enfim, do não visível. A detalhada descrição de sequências documentais/propagandísticas e fotografias fixas deixa claro como as angulações de câmera, a ênfase nos movimentos e formas ascendentes, a contraposição da figura do líder à massa serviam à construção de uma imagem nacional de força, juventude, beleza, engajamento, ordem e progresso. Todos atributos comuns à estética da Alemanha hitlerista.

Dois documentários nordestinos

Além do filme de Escorel, vale a pena prestigiar dois outros documentários brasileiros lançados esta semana. Mais do que brasileiros, nordestinos. Em A Luta do Século, de Sérgio Machado, reconta a célebre rivalidade brincalhona (mas nem tanto) de mais de 20 anos entre os pugilistas Reginaldo "Hollyfield", baiano, e Luciano "Todo Duro", pernambucano. Premiado no Festival do Rio, o filme começa por recontar essa história clássica do boxe brasileiro com imagens preciosas de arquivo, em que os adversários não hesitavam em sair na porrada toda vez que se encontravam, de preferência diante de câmeras.

Reprodução/Margarida Neide/A Tarde

O marketing das lutas populares vive dessa teatralização do antagonismo. Mas com Hollyfield e Todo Duro as coisas sempre evoluíam para a fronteira entre o folclore e a veracidade. O baiano e o pernambucano, ambos de origem humilde e pouco letrados, não deixavam de ser personagens de uma comédia, como os velhos lutadores de telecatch. Dez anos depois de seis lutas com saldo equilibrado, os inimigos figadais voltam a se encontrar em 2015 para um desempate. É a "luta do século". Uma dupla talhada para se enfrentar na fronteira entre a rixa e a comicidade.

Reprodução

Em Pernambuco e na Paraíba se espalham os poetas populares retratados em O Silêncio da Noite é que tem sido Testemunha das Minhas Amarguras. O diretor Petronio Lorena mergulha com gosto na prosódia dos poetas populares do sertão. O essencial está nas vozes, claro, mas o filme também cria uma prosódia de imagens do agreste para acomodar muito bem as cantorias, desafios, sonetos, "mourões perguntados" e outras modalidades de poesia que brotam como água da imaginação e da boca dos poetas.

Novos criadores expõem seus versos e recordam os de velhos poetas já desaparecidos. A memória oral se consolida de geração para geração, transformando o que nasceu como improviso em acervo permanente. Toda uma linhagem de inteligência, verve e sensibilidade é desfiada nas histórias, lembranças e exemplos rimados. Por mais espontâneo que tudo esteja dentro do quadro, existe uma intenção estética que se associa ao que vem dos poetas sem nunca se sobrepor. Nisso estão a graça e a grandeza de O Silêncio da Noite...






Conteúdo Relacionado