Cinema

Interstellar: a utopia resgata o presente do futuro?

Interstellar não é unicamente um filme-catástrofe: é uma narrativa sobre a fronteira da ciência quando a Terra se esgota. E essa fronteira é misteriosa.

07/12/2014 00:00

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Interstellar (realização de Christopher Nolan, 2014) começa com uma distopia banal: uma família de agricultores, os Cooper, resiste dia a dia à degradação ecológica na planície norte-americana, num futuro incerto em que o planeta vai empobrecendo. A saga de um pai com dois filhos esconde no entanto uma outra história: ele quer esquecer o seu passado, quando trabalhava na NASA, um tempo que foi erradicado dos manuais de estudo para ser esquecido por todos. Porque não pode ser permitido que alguém imagine um além no espaço, onde se pudessem encontrar novas eternidades para a salvação da espécie.
 
É o mistério, um “fantasma”, que comunica com a sua filha Murphy através de incidentes com ondas gravitacionais, que o leva a procurar uma agulha em palheiro. Reunido, através desse acaso, com o seu antigo mentor na NASA, Cooper vai dirigir uma operação de busca através de um buraco negro, por mundos em que o tempo se acelera.
 
Com Gravity (realizado por Alfonso Cuarín, 2013) este é o segundo filme de grande audiência que, em pouco tempo, nos faz olhar para o espaço. Mas Interstellar não é unicamente um passeio no cosmos e um filme-catástrofe: é uma narrativa sobre a fronteira da ciência quando a Terra se esgota. E essa fronteira é misteriosa.
 
Como em 2001, Odisseia no Espaço (1968, Stanley Kubrick), não saberemos exatamente quem é a inteligência que nos contacta, ou que lhes abre os caminhos do buraco negro, ou que organiza o espaço que encerra o tempo e através do qual Cooper contacta consigo próprio e com a filha, como o “fantasma” do seu quarto. Ele vai e volta, não sabemos como. Pode ser por mão alienígena, podemos ser nós próprios no futuro a reorganizar o passado.
 
Outras semelhanças com 2001 levaram muitos críticos a inquietar-se com este mistério. O lugar de Hal9000 é aqui ocupado pelos robots TARS e CASE, a busca é sempre ambígua, o tempo torce-se, a ciência não aprende o suficiente, não sabemos se estamos sozinhos, olhamos para todo o lado e não vemos.
 
Ao deixar as perguntas, o filme desenha uma utopia: o êxodo da humanidade salva-a de si própria, depois de esgotado o planeta da origem. Mas, desse modo, o filme afasta-se da tradição mais eloquente da ficção científica, a que procura outros seres que são como nós ou que são meios de nós próprios. Arthur C. Clarke, autor do texto original de 2001, adivinhava aliens, mas Isaac Asimov construía robots, Philip K. Dick andróides e Donna Haraway cyborgs, todos eles sendo reproduções do humano. No cinema, temos uma e outra destas narrativas, por vezes pela mesma mão: foi Ridley Scott quem realizou Aliens (1979), sobre o outro que nos ameaça, mas também Blade Runner (1982, a partir de um conto de Philip K. Dick), sobre os nossos semelhantes que foram criados por nós.
 
Em todo o caso, esta ficção científica diverge da fantasia, que tem predominado nos ecrãs nos últimos anos, em particular evocando empolgantes nostalgias medievais (O Senhor dos Anéis, de JRR Tolkien, A Guerra dos Tronos, de George RR Martin, todos grandes textos antes de serem grandes filmes ou séries), mas também a literatura infantil (Harry Potter, de JK Rowling). Esses livros e esse cinema, mesmo invocando a magia, reproduzem os dramas clássicos: Westeros é a Dinamarca de Shakespeare e King’s Landing é a corte de Camelot depois da morte de Arthur e Lancelot. Em contraste, a ficção científica não imagina o passado, procura o futuro e por isso ocupa a incerteza mais radical, que as artes do feitiço não podem sequer simular. A nostalgia é conservadora, a ficção é ousadamente transformadora.
 
Ou, se tiver arte para isso, procurará um futuro que volte ao passado onde vivemos, por entre as estrelas e por dentro do que não sabemos delas.





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