Cinema

John Reed no México Insurgente

Através de documentos e sempre com Taibo in loco, o vídeo mostra a travessia de Reed pela fronteira de El Paso e a chegada a Chihuahua, reduto de "Pancho".

26/05/2015 00:00

Los Nuestros/Reprodução

Créditos da foto: Los Nuestros/Reprodução

Dois capítulos da série da Telesur, Los Nuestros, dirigida pelo jornalista “Paco” Ignácio Taibo, se referem a uma fase inicial da vida de trabalho do célebre jornalista americano John Reed. Ela é bem menos conhecida que a experiência dele, com entrevistas e observações antológicas, do seu período em Moscou – onde morreu de tifo e está sepultado dentro do Kremlin. Enquanto esta gerou o livro Dez dias que abalaram o mundo (Ed. Penguin/Companhia das Letras) e inspirou três filmes* inclusive um super premiado e dirigido pelo ator Warren Beatty (Reds), a fase mexicana de Reed não é menos importante.

Ela é a origem do seu primeiro livro, México Insurgente (Ed. Boitempo) onde inaugurou o gênero das grandes coberturas com narrativa apaixonante e salpicadas de detalhes do cotidiano, historietas e vinhetas pessoais fascinantes – a mesma escola do correspondente inglês Robert Fisk. Construiu assim uma reputação nacional no seu país, como excepcional correspondente de guerra.

Nestes dois capítulos da minissérie, nota-se a grande admiração de Taibo por Reed. Ele conduz o espectador (à maneira de Michael Moore; verborrágica e nervosa) desde a Nova Iorque onde o americano trabalhou no jornalismo militante engajado de esquerda e morou até 26 anos. Pouco antes de viajar para cobrir a revolução mexicana de “Pancho” Villa, durante quatro meses, como correspondente da revista Metropolitan.

Era 1914 e Villa liderava o levante de camponeses, trabalhadores e peões que depois se ampliaria pelo estado de Chihuahua, região de Juarez, Jimenez, Nieves e Nogales, todo norte do país, culminando na batalha de Torreón e abrindo caminho para Cidade do México. Então, já se afigurava “não só uma revolução militar, mas uma revolução social”, escrevia Reed. A esta altura, o movimento repercutia forte, nos Estados Unidos, com a grande mídia falseando fatos para defender interesses econômicos do governo americano no México. Uma prática de jornalismo que nos é bem familiar.

Reed simpatizava com a situação dos revolucionários e era um crítico veemente dos lobbies milionários e de qualquer intervenção norte-americana – a qual acabou chegando mais tarde.
 
Através de documentos e sempre com Taibo in loco, o vídeo mostra a travessia de Reed pela fronteira de El Paso e a chegada a Chihuahua, reduto de “Pancho” Villa, por quem nutria grande admiração e do qual se tornou bem próximo. A série de seus artigos sobre a revolução e entrevistas com Villa foram o estofo do seu México Insurgente.

“Reed era um rebelde social”, comenta Taibo com o historiador Jesus Vargas, que participa do vídeo. “Escreveu também que esse período do seu trabalho ele considerava como um dos mais satisfatórios para si mesmo”. Vargas lembra trechos da principal entrevista do jornalista com Villa, na qual o líder revolucionário revela um sonho para a sua "nova República": 'Não haverá exército no México. Exército é o maior apoio a todas as tiranias'.

Há um diálogo expressivo entre Taibo e Vargas onde se pode entender, do ponto de vista histórico, o México de ontem e de hoje. Referências a algumas anotações de Reed sobre visões de “Pancho” Villa. “Ele escreveu que a luta de classes no México não era apenas dos pobres contra os ricos. Havia nela uma perspectiva racista contra negros, eslavos – a grande força trabalhadora naquele instante, no país -, judeus e italianos. Reed registrou essa visão de Villa. A de que era preciso romper o modelo norte-americano e o mito de que o futuro e o progresso deveriam ser construídos por uma sociedade branca. Pois esse era um conceito de terceiro mundo que apenas surgiu décadas depois, ao fim da segunda guerra mundial! Naquela época existia o primeiro mundo e o resto era a merda...”

Outro registro recorrente nas reportagens de Reed é comentado por Taibo. A quase obsessão de Villa pelo tema da educação. ”Em Chihuahua ele criou 50 escolas em 30 dias. Mais de 40% do orçamento do governo revolucionário era destinado à educação. Isto é a revolução.” Como filho de família (conservadora) muito rica de Portland, Reed tinha sido estudante de Harvard. Sabia bem o que significava educação; uma boa educação. Uma educação de primeira linha.

“E quando você envelhecer?” Perguntava Reed ao amigo entrevistado durante um encontro entre os dois que durou dias seguidos, em Chihuahua. “Villa dizia que sua ambição era a de viver numa pequena granja, trabalhando, e entre os companheiros que tanto sofreram e a quem ele queria muito.  Ele desejava continuar ajudando o México a ser um lugar feliz".

Quando voltou a Nova Iorque, John Reed percebeu que tinha uma imensa história nas mãos: a grande crônica da revolução mexicana. Fechou-se durante meses em casa e, obstinadamente, o ‘rebelde social’ escreveu seu primeiro livro.

Depois, a história o levou a escrever sobre os cem dias em que mencheviques e bolcheviques disputaram o poder. Outra imensa história.
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Léa Maria Aarão Reis é jornalista, autora de 'Novos Velhos - viver e envelhecer bem'.

* Há mais dois filmes inspirados nas anotações e no livro de John Reed: o de 1973, Reed: Insurgente México, do diretor mexicano Paul Leduc, e a coprodução em duas partes do México, Itália e URSS: Red Bells, de 1983, ambas dirigidas por Sergei Bondarchuk.





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