Cinema

Khadija na noite, Amanda na água

O belga 'Trópico Fantasma' e o brasileiro 'Raia 4' disputam atenção no streaming

23/05/2021 13:53

Trópico Fantasma (Cinema Guild)

Créditos da foto: Trópico Fantasma (Cinema Guild)

 
A noite urbana no cinema é geralmente vista como hora vazia ou, quando há festas, cheia demais. É muito raro ver um filme como Trópico Fantasma (Ghost Tropic), que captura ao mesmo tempo o vazio e as possibilidades de encontro. O diretor belga Bas Devos usa o silêncio, o movimento suave e a granulação da película 16mm para nos dar uma experiência de imersão na noite de Bruxelas pelo ângulo dos que estão fora do ciclo diurno. Geralmente imigrantes, mães solteiras e pessoas sem teto que trabalham ou perambulam nas altas horas.

A câmera de Grimm Vandekerckhove segue a viúva muçulmana Khadija (Saadia Bentaïeb), faxineira de um shopping center que cochila no último metrô da noite e só acorda no fim da linha, bem longe de sua casa. Sem dinheiro para um táxi e sem ônibus em serviço, ela precisa voltar a pé. Mas chegar em casa não parece ser a meta principal de Khadija, uma vez que tudo atrai sua atenção e interesse. O segurança de outro shopping center, a empregada de uma loja de conveniência, um rapaz que está morando clandestinamente numa casa vazia onde ela trabalhou no passado... Cada encontro é um oásis de empatia que se abre no deserto da noite invernal.

Khadija não só é ajudada, mas também tenta ajudar um sem-teto que está a ponto de morrer de frio e seu cachorro. Mais adiante, depois de encontrar e espreitar sua filha adolescente em farrinha com amigos (na cena mais bela do filme, a meu ver), essa ideia de empatia vai sofrer um choque em episódio que envolve uma lojinha atendida por outro imigrante. A essa altura, já não sabemos exatamente quem é Khadija, impressão que vai se adensar com o desfecho do cão.

Trópico Fantasma envereda com muita calma por um território onírico, sugerido por um anúncio de turismo visto logo no início com o slogan "Get lost". Perder-se na noite junto com Khadija pode ser uma espécie de sonho: fragmentado, silencioso e algo enigmático. Para se lembrar com carinho quando chegar a manhã.

>> Trópico Fantasma está na plataforma Supo Mungam Plus

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Raia 4 (Tuane Eggers/Ausgang)

Amanda (Brídia Moni) tem 12 anos e uma ótima performance na natação. Mas isso não a impede de ser uma garota retraída, abúlica mesmo, e complexada por ainda não ter um corpo plenamente desenvolvido. Às restrições impostas pelo esporte soma-se a falta de espaço familiar para se desenvolver, à mercê de pais muito absorvidos pelo trabalho e por seus hábitos burgueses. Para completar, Amanda está em pleno despertar sexual, mas à margem de qualquer experiência.

Raia 4, vencedor dos prêmios da crítica, fotografia e melhor filme gaúcho no Festival de Gramado, pinta um quadro potencialmente inquietante da pré-adolescência. Um quadro em que as sucessivas frustrações podem alimentar sentimentos nocivos de competição, ressentimento e confusão afetiva. Para Amanda, a água é um refúgio, uma porta para a fantasia e o único local em que ela se sente potente – inclusive para a ação brutal que cometerá no desfecho. Fora da água, comporta-se como se estivesse no fundo de uma piscina, ou seja, deslocada dos outros e submersa num mundo interior indevassável.

Bem cuidado técnica e visualmente, embora sem qualquer intenção de inovar, o filme de Emiliano Cunha marca pontos na condução do elenco de guris e gurias da equipe de natação. Uma espontaneidade legítima transparece ali, contrastando com a introversão de Amanda. Esta, por sua vez, resulta numa personagem por demais opaca, de consistência rala para sustentar um filme inteiro em torno de si.

>> Raia 4 está nas plataformas NOW, Google Play, Apple Tv, iTunes e Youtube Filmes





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