Cinema

Laços de sangue

Conto moral sobre a corrupção das tradições culturais pelo dinheiro e pelo poder, 'Pássaros de Verão' promove um encontro engenhoso da etnopoética com a história e o cinema de gênero

22/08/2019 08:34

 

 

Pássaros de Verão combina majestosamente o modelo do filme de máfia ao western e à fábula mítico-cultural. Tem sido chamado de “O Poderoso Chefão colombiano” por sua complexa visão dos laços de lealdade e honra familiar, bem como pela austera administração da violência. Ainda no campo das comparações, eu o aproximo de Bacurau por diversos fatores que incluem a presença de ave no título, o império do matriarcado, a alta contagem de corpos e o destaque obtido pelos dois filmes dentro de suas respectivas filmografias nacionais.

O longa de Cristina Gallego e Ciro Guerra venceu festivais em Havana e Londres, foi eleito melhor filme iberoamericano nos Prêmios Fenix e Platino, e representou a Colômbia na disputa de uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Difícil resistir ao preciosismo das composições visuais, ao uso das cores e sobretudo ao magnetismo com que se desenrola a história da ascensão e da queda de uma família de indígenas Wayúu no período entre 1968 e 1980.



Os wayúu são tidos como uma das poucas etnias sul-americanas que não se subjugaram à colonização europeia. Ainda assim, Pássaros de Verão nos apresenta um conto moral sobre a corrupção das tradições culturais pelo dinheiro e pelo poder. Para reunir o dote exigido pela família de Zaida (Natalia Reyes), seu pretendente Rapayet (Jose Acosta) experimenta vender uma partida de marijuana a um grupo de voluntários do Peace Corps em 1968. Os jovens americanos aparecem como hippies mais interessados em curtir a natureza latino-americana e traficar maconha do que propriamente difundir o capitalismo. Mas a oportunidade capitalista atiça a ganância dos locais e desencadeia uma torrente de traições, compensações e vinganças entre as famílias envolvidas no negócio.

O filme, escrito a partir de uma ideia de Cristina Gallego – produtora de O Abraço da Serpente e outros filmes de Ciro Guerra –, inspira-se na chamada “bonanza marimbera”. Nesse período de 1975 a 1985, o narcotráfico floresceu de maneira extraordinária entre a Colômbia e os EUA, ocasionando muitos conflitos internos e também o enriquecimento dos grandes fornecedores. O nível de ostentação a que chega a família de Rapayet, com seu palácio kitsch no deserto de Guajira, demonstra o desvirtuamento cultural provocado pela nova situação.



O preço é a quebra dos dogmas que regem a comunidade. À medida que as pessoas perdem a capacidade de conversar com seus próprios sonhos, a alma se extravia e a morte volta a frequentar o mundo dos vivos. O percurso trágico da família, liderada pela matriarca Úrsula (Carmiña Martínez), é pontuado ora por belíssimas sequências de rituais e aparições oníricas, ora pelo estampido das balas perfurando os corpos.

Não encontrei aqui a idealização dos índios, nem o exotismo posado que me desagradou no (para mim) superestimado O Abraço da Serpente. Bem mais sóbrio e igualmente deslumbrante do ponto de vista plástico, PÁSSAROS DE VERÃO promove um encontro engenhoso da etnopoética com a história e o cinema de gênero.





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