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Lamas gerais

'O Amigo do Rei' é uma peça de acusação sobre a tragédia de Mariana, mas sabotada pela poluição cinematográfica

08/08/2019 17:04

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
O documentarista André d'Elia colheu um vasto material sobre o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. As imagens e os depoimentos contidos em O Amigo do Rei são eloquentes quanto à devastação da área e ao impacto sofrido pelos moradores que perderam seus bens, suas memórias e seus entes queridos. Mais que isso, de vítimas eles passaram a reféns da Samarco, a empresa que, após um acordo controvertido com o governo, ficou encarregada de gerenciar a reparação dos danos causados ao ambiente e à população.

Ao drama da população ribeirinha de Minas e do Espírito Santo o filme soma uma análise detalhada da questão minerária brasileira pelos vieses industrial, político, ambiental e geológico, estendendo-se por quase duas horas e meia. É longo, é técnico, mas é razoavelmente dinâmico e entrecortado pelo potente testemunho dos atingidos. Versado em documentários sobre meio-ambiente, André d'Elia (Belo Monte – Anúncio de uma Guerra, A Lei da Água, Ser Tão Velho Cerrado) não foge à complexidade da matéria. Deixa clara a divisão da cidade entre os defensores da Samarco em nome do emprego e do "desenvolvimento", e os partidários da segurança ecológica e do justo ressarcimento da população afetada.



Realizado com verba do Ministério Público de Minas Gerais, advinda de multa empresarial, o filme resulta numa contundente peça de acusação da joint-venture Samarco-Vale-BPH em particular e das ligações corruptas ou pelo menos lenientes entre empresas mineradoras e governos de várias instâncias e partidos. Referências diretas ou indiretas são feitas a Dilma, Temer, Aécio, Fernando Pimentel e o PMDB no que diz respeito a financiamento de campanhas e tráfico de influência.

As denúncias se repetem: a segurança das barragens no Brasil é um grande teatro, em que as empresas fingem que cumprem as regras e o Estado finge que fiscaliza. O Amigo do Rei já estava montado quando a barragem de Brumadinho se rompeu, em janeiro último, deixando um saldo ainda maior de mortos. As inquietações expostas no filme se confirmavam. As barragens de Minas são um conjunto de tragédias anunciadas.

As inegáveis qualidades de O Amigo do Rei são, porém, sabotadas por ingredientes poluidores. As falas dramáticas dos moradores são sublinhadas por música intrusiva, sendo algumas decepadas por cortes inexplicáveis. Um efeito cafona de edição comparece aqui e ali, mais afeito a um videoclipe amador do que a um documentário do gênero. Mas o desastre pior são as intervenções de um entrecho ficcional com o (bom) ator Luciano Chirolli no papel de um deputado que pretende representar o político brasileiro corrupto genérico. Debaixo de uma peruca deplorável, ele esbanja sordidez e demagogia enquanto costura um acordo entre o Congresso e o setor de mineração. O fato de ser proposital e ter relações com a realidade não retira a grosseria da caricatura. Além de não acrescentar rigorosamente nada ao filme, esse recurso ainda lhe retira legitimidade.





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