Cinema

Leniência e colaboração

Mais um filme de advertência para quem desacredita nos processos autoritários de destruição de uma nação, ele mostra a ocupação nazista na França - para muitos cidadãos, natural, e para poucos resistentes o inferno

09/02/2020 15:28

Cena de 'Uma história íntima: a França sob ocupação nazista' (Premiere L'occupation intime), de Isabelle Clarke e Daniel Costelle (Reprodução)

Créditos da foto: Cena de 'Uma história íntima: a França sob ocupação nazista' (Premiere L'occupation intime), de Isabelle Clarke e Daniel Costelle (Reprodução)

 
Um tema é recorrente, no gênero do filme documentário, no mundo a fora de hoje e, em especial entre os brasileiros. Ele vem sendo procurado nos catálogos de streaming e nas plataformas digitais e vem estourando índices de acessos. Por outro lado, uma palavra foi 'redescoberta' desde então e é associada com frequência a esse tema histórico. A releitura detalhada e a re-visão cinematográfica do processo de infiltração do nazifascismo na sociedade alemã, nos anos 30, e a colaboração ou a leniência das populações que foram objeto de reformas brutais e implacáveis do nazismo, retificam narrativas históricas. Elas desmistificam versões correntes até então, elas perturbam, mas são necessárias nestes nossos tempos em que se tenta reeditar o aniquilamento de políticas públicas progressistas em diversos países. Em particular no Brasil.

Além do documentário Arquitetura da destruição, comentado recentemente em Carta Maior, outro filme no youtube versa sobre a experiência do nazifascismo, (hoje, neofascismo) e a leniência da maioria da população francesa derrotada.

Uma história íntima: a França sob ocupação nazista é escrito e dirigido por uma dupla de realizadores de filmes para a TV, Isabelle Clarke e Daniel Costelle, a partir de um livro do historiador e jornalista Patrick Buisson, L’Occupation Intime. É narrado pelo ator Alain Delon e pela sua filha Anouchka Delon.

Ele se concentra nos quatro anos (1940-1944) da ocupação da França derrotada pela Alemanha e dividida em duas: a ''zona livre'', de Vichy, ao sul, devastada e sob o comando do governo títere do marechal de triste memória Phillippe Pétain, e o restante do país ocupado pelo exército de Hitler.

O longa metragem é muito bem construído com filmes amadores inéditos e realizados pelos próprios alemães, com testemunhos de franceses, músicas e cine jornais da época, e entrevistas de impacto.

Uma delas, a de um cidadão francês de idade, filho de mãe francesa e de pai alemão militar do exército nazista morto na batalha de Estalingrado, que se apaixonaram no interior do país ocupado.

Outra, a de uma escritora francesa aposentada que confessa: "Nós vivemos a discriminação dos judeus covardemente. Tínhamos amigos judeus, mas nos declarávamos antissemitas. Não estávamos dispostos a morrer pelos judeus.''

O filme expõe um tabu persistente na história da França. As muitas pessoas que aprenderam, senão a colaborar com os alemães, (colaboracionistas, os colabôs) gente que soube se adaptar e conviver com o invasor. E com o cruel racionamento, com o mercado negro, com o toque de recolher e, no decorrer dos dois últimos anos da ocupação, com a perseguição e prisão, pela polícia francesa, primeiro dos comunistas, em seguida dos judeus, torturados, fuzilados na França ou enviados aos campos de concentração. Muitos desses com frequência denunciados por vizinhos.

O comediante Fernandel, Sacha Guitry, Maurice Chevalier, Charles Trenet, Coco Chanel, uma das mais populares estrelas da época, a bela Viviane Romance, e a dupla Jean Cocteau e Jean Marais são apontados como lenientes ou colaboradores dos nazistas.

O doc mostra também os primeiros anos da glamorosa operação criada por J. Goebbels para conquistar a população francesa. As ruas de Paris repletas de gente, animadas, carros (a gasogênio) circulando, bicicletas rodando, militares alemães jovens, bonitos e educados namorando e flertando com as moças parisienses nos parques da cidade. Todos juntos, bebendo vinho e saboreando a boa mesa e o bom conhaque nacionais. A vida cotidiana continuava nos cabarés e nos cafés de Paris. As lojas de moda da Avenue Montaigne eram ocupadas por oficiais alemães fazendo compras e a Opéra era uma festa.

O objetivo dessa operação de sedução e charme dos alemães era o de fazer com que a população francesa acabasse perdendo pouco a pouco qualquer desejo ou impulso de revolta - foi o que deixou escrito Goebbels.

Outro trabalho sobre o mesmo tema é o do historiador inglês Robert Gildea, de 2015. Ele desmonta uma imagem nacional bastante fissurada no seu livro Combatientes en la Sombra, lançado na Espanha pela Editora Taurus há quatro anos e no qual prefere falar de “resistência na França'' ao invés de ''resistência francesa" por razão do grande número de estrangeiros (muitos egressos da Guerra Civil espanhola) que se juntaram à luta dos corajosos maquis franceses.

O que se discute a partir desse filme, conforme seus próprios autores indagam, é a questão da ambiguidade humana e da firmeza das posições políticas. Será necessariamente vergonhoso apertar a mão de um inimigo? eles perguntam.

Enquanto escrevíamos sobre L’Occupation Intime nós seguíamos, em paralelo, algumas chamadas e alertas na internet, dos fragmentos de uma entrevista do ator José de Abreu, na semana passada, sobre a aceitação pressurosa de Regina Duarte ao ser convidada por Brasília para o cargo de secretária especial da Cultura do governo atual.

Uma frase de Abreu nos chamou a atenção e veio a propósito e na hora certa para o que escrevíamos sobre a ocupação nazista e a leniência de grande parte da população francesa sob o jugo dela, no inquietante documentário.

''É aquela história,'' disse o ator. ''Tem onze pessoas numa mesa. Senta um fascista e ninguém se levanta. São doze fascistas. Não tem como respeitar.''

A narrativa nacional criada pela França até o reconhecimento formal da culpa de franceses nessa história pelos presidentes Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e Francois Hollande, foi sendo também derrubada, no decorrer do tempo, com filmes inesquecíveis. O último metrô, de François Truffaut, Adeus meninos, de Malle, O silêncio do mar, de Jean-Pierre Melville, Lacombe Lucien, outro filme importante sobre o assunto, de Louis Malle com roteiro do Premio Nobel Patrick Modiano, e A tristeza e a piedade, de Marcel Ophüls.

Enorme sucesso alcançado na França pelas seis temporadas da série de televisão exibida inclusive no Brasil há poucos anos, Un Village Français (Um Vilarejo Francês) demonstra o quanto o assunto da ocupação continua sendo delicado, doloroso e sempre atual no país. Série excelente.

O processo do consentimento, na vida cotidiana, nesse caso, vem acompanhado das provas documentais. No começo, a omissão, o silêncio e a naturalização do regime autoritário. Em seguida a leniência, tolerância e a condescendência; e por fim, com frequência a colaboração.

A população brasileira seguirá o mesmo caminho? É uma pergunta que se impõe fazer ao assistir esse filme. Enquanto o país, antes soberano, vem sendo destruído por uma escalada totalitária galopante nós estamos assistindo a devastação, impassíveis.

Arquitetura da destruição* e A França sob a ocupação nazista estão disponíveis, legendados, no youtube.



*Clique aqui para ler sobre 'Arquitetura da Destruição' e assistir ao filme





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