Cinema

Libelo contra os linchamentos

Os linchamentos vêm se tornando uma triste prática também no Brasil. Daí a importância do documentário A Primeira Pedra, dirigido por Vladimir Seixas e produzido por Luís Carlos de Alencar

04/06/2018 09:32

Biné Moraes

Créditos da foto: Biné Moraes

 
O noticiário da semana passada foi abalado por dois linchamentos de homens suspeitos de furto. No Tocantins, um rapaz de 28 anos foi morto a pedradas e tijoladas. Em Brasília, um adolescente de 16 anos faleceu em decorrência de agressão coletiva depois de um suposto roubo de celular, na verdade praticado por outra pessoa. No último domingo, na Bahia, um homem escapou por pouco de morrer linchado após ter assassinado uma ex-companheira e o homem que estava com ela no momento.

Os linchamentos vêm se tornando uma triste prática também no Brasil. Daí a importância do documentário A Primeira Pedra, dirigido por Vladimir Seixas e produzido por Luís Carlos de Alencar, parceiros na produtora carioca Couro de Rato, que já pariu o poderoso "Vozerio". Realizado para a TV Futura, o média-metragem pode ser visto neste link do Futura Play.

O tema é dos mais difíceis, já que se situa num extremo da condição humana. O linchamento é o ápice da barbárie. É quando a massa se sente autorizada a cometer um crime. É quando os "homens de bem" e os "pais de família" passam para o outro lado, achando que têm o direito de ser monstruosos por um momento de exceção. 

A Primeira Pedra se divide em quatro capítulos, de modo a tratar o assunto por ângulos diferentes – desde a justificativa dos linchamentos baseada na incompetência do estado para punir, e até o consumo de imagens desse tipo de violência na internet, passando pelo juízo de que "bandido bom é bandido morto".  Sobreviventes, familiares e estudiosos do tema abordam a mecânica cruel que leva um grupo a cometer crime igual ou pior do que os imputados a sua vítima.

A Primeira Pedra
A mãe de Cledenilson Pereira, morto após ser acusado de roubo, é uma das entrevistadas do documentário. - Divulgação

Quatro casos célebres, três recentes e um histórico, ilustram o arrazoado, sendo que dois deles se referem a linchamentos por equívoco, duplamente trágicos, quando a vítima é confundida com um suposto criminoso. O espectador não é poupado de cenas fortes, embora reeditadas de modo a suprimir o aspecto sensacionalista. 

Mesmo trabalhando num registro característico da televisão, Seixas expande o seu enfoque para fazer aflorar camadas mais ocultas dessa prática macabra. O racismo, por exemplo, é componente indissociável do linchamento. O caráter de espetáculo e a dissolução da culpa individual na catarse coletiva são partes do ritual. E a iniciativa de impedir um linchamento é prova de coragem e senso de justiça.

Levantar esses aspectos de maneira clara e incontestável faz de A Primeira Pedra uma peça de esclarecimento e reflexão que precisa ser veiculada o mais amplamente possível. Depois de ver esse filme, certamente um linchador vai hesitar antes de desferir o primeiro golpe.

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