Cinema

Mais uma vez, precisamos de legalidade

Filme de ficção apoiado na realidade política de 1961, 'Legalidade', sobre a corajosa campanha de Leonel Brizola, está em cartaz em várias capitais do país e deve ser visto pelas novas gerações

16/09/2019 18:16

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
__________

∴ Leia mais: "Não vai ter golpe": resenha sobre 'Legalidade', por Carlos Alberto Mattos
__________

No quadro vigoroso do cinema nacional de hoje faltava um filme, especialmente necessário atualmente, que relembrasse a trajetória, o perfil – uma cinebiografia - ou mesmo recordasse, através de um recorte, a intervenção tão importante na vida política recente do país, do gaúcho Leonel Brizola, um marco e referência das esquerdas brasileiras.

O filme de Zeca Brito está aí, cumprindo esse papel através da ficção com Legalidade, sexto longa metragem de sua autoria, mostrado no Chicago Latino Festival deste ano e premiado com a melhor direção, melhor ator, direção de arte e melhor fotografia no Festival de Cinema de São Luiz do Maranhão.

Legalidade vem num momento auspicioso para o cinema brasileiro e em especial para o sulista. Zeca Brito foi nomeado, há menos de um mês, o novo diretor do Instituto Estadual de Cinema (Iecine), do Rio Grande do Sul que, como o realizador afirma, deverá operar ‘’em três dimensões: a simbólica (memória e produção artística), a econômica (emprego, renda, mercado) e a dimensão cidadã (humana, territorial e social) ’’.

Este seu filme de agora atua justamente sobre a dimensão da memória. Mesmo com a linguagem escolhida, a de ficção que se mescla e se enraíza na realidade, e além do tom de suspense e de filme policial escolhido, ele preenche a função de informar e relembrar aos mais moços o que foi a valente Campanha da Legalidade desenvolvida pelo rádio, que permaneceu no ar durante 14 dias, liderada por Brizola, de Porto Alegre para todo o país.



Seu objetivo era o de resistir corajosamente e assumindo os grandes riscos do momento defendendo a democracia em perigo para abortar o projeto de golpe de estado em andamento logo depois da renúncia intempestiva de Janio Quadros.

Não é nada, não é nada, são episódios que mobilizaram o país há mais de 50 anos. Já constituem História, mas são também acontecimentos de um ‘’ontem’’ recente na medida do tempo histórico.

Um golpe civil e militar abortado em 61 que, se na época não se consumou, três anos mais tarde vingaria e resultaria na ditadura civil-militar que duraria até 1985.



Este, o grande argumento de Legalidade. Ele recria, com uma direção de arte exemplar em todo o trabalho, os momentos de tensão com o comunicado da renúncia de Janio e a ausência de João Goulart do país, em viagem oficial à China.

O governador Brizola, como de hábito político rápido e perspicaz, e destemido homem de ação, constatou de imediato o interesse dos militares – marionetes dos governos americanos - em não permitir que o vice-presidente assumisse.

Inicia uma série de comunicados pelo rádio ao povo do Rio Grande do Sul informando sobre a real possibilidade de um golpe militar mesmo enfrentando as ameaças de bombardeio ao palácio Piratini, fechamento de emissoras de rádios e censura dos seus pronunciamentos.

E a partir das transmissões operadas nos porões da sede do governo, Brizola passa a comandar uma frente democrática enérgica para que Goulart, ao retornar ao Brasil, assumisse a presidência. Teve êxito.

É esse miolo que trata da campanha propriamente dita, o melhor do filme de Brito mesclando imagens de época com ficção – a história (artificial) de uma jornalista interpretada pela atriz Cleo Pires.

O falecido ator Leonardo Machado, a quem o filme é dedicado, constrói o Brizola com correção, embora se sinta falta do forte acento gaúcho do governador do Rio Grande do Sul e único político a governar, anos depois, outro estado, o do Rio de Janeiro.

Numa atmosfera com nuances de narrativa operística o filme se desenrola. E embora deva ser assistido (está num circuito cinematográfico diríamos quase nacional), como uma informação histórica fazendo contraponto à inércia política diante de todas as ilegalidades naturalizadas, no tempo presente, ainda assim o filme definitivo sobre Brizola está aguardando para ser produzido.



Conteúdo Relacionado