Cinema

Mangueira, uma voz poderosa da cultura brasileira

Ótimo programa para hoje e amanhã, em 'streaming', o 'doc' 'Mangueira em dois tempos' acaba de ser apresentado no Festival Internacional do Filme de Nova Iorque

28/06/2020 14:45

'Mangueira em dois tempos' foi apresentado no Festival Internacional do Filme de Nova Iorque (Reprodução)

Créditos da foto: 'Mangueira em dois tempos' foi apresentado no Festival Internacional do Filme de Nova Iorque (Reprodução)

 
O documentário é um oásis neste fim de semana, no meio da selva em que se transformou o Brasil, com os eventos políticos farsescos - neofascistas - sucedendo-se, e a catástrofe da administração desgovernada de contenção à covid-19 que deixa a população desorientada e confusa sobre a proteção da saúde pessoal e coletiva.

Mangueira em dois tempos* é um filme que celebra a alegria, a perseverança dos jovens incansáveis e sofridos das favelas e, sobretudo, a força da nossa cultura atualmente tão alvitada. Sua autora, a cineasta carioca, atriz e produtora Ana Maria Magalhães, é uma das protagonistas históricas da evolução do cinema nacional e, em particular do cinema novo dos anos 60. As duas trajetórias se confundem.

Atriz de filmes brasileiros clássicos (Idade da terra, de Glauber Rocha, Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, Quando o carnaval chegar, de Carlos Diegues, Uirá - um índio à procura de Deus, de Gustavo Dahl, e vários outros) ela participou, em 2010, do elenco de O Estranho Caso de Angélica, do diretor português Manoel Oliveira.

Dirigiu o doc sobre Leila Diniz, Já que ninguém me tira para dançar, e Lara, sobre a atriz Odete Lara, além de Reidy, a construção da utopia, e a série O Brasil de Darcy Ribeiro.

Em 1992, Ana Maria produziu Mangueira do amanhã, curta-metragem com os preparativos, ensaios e desfile da célebre escola de samba mirim do Rio de Janeiro; e a influência do samba na vida dos pequenos do Morro da Mangueira. O filme estreou logo após a chacina da Candelária.

Três décadas depois, ela retornou ao mesmo cenário para narrar os caminhos percorridos pelo grupo da querida escola de samba verde e rosa. Há uma semana Mangueira in 2 Beats - um ''filme de reencontros'', como diz a diretora - foi exibido no Festival Internacional do Filme de Nova Iorque, e indicado ao premio de Melhor Documentário.

Carta Maior conversou com Ana Maria, por email, sobre a sua produção que vem ''envolvida em música - o samba, o funk e o jazz; um jazz brasileiro com percussão da Mangueira.”

Carta Maior: Qual a origem do seu primeiro filme sobre Mangueira, de 30 anos atrás?

Ana Maria Magalhães: Mangueira do amanhã foi o fruto de um projeto maior que não se concretizou. Então fui para a França e o Canal Plus fez a compra antecipada. A versão francesa se chamou Les enfants de la samba. A brasileira, Mangueira amanhã, ganhou a Margarida de Prata da CNBB.

CM: Você sempre frequentou os ensaios da Mangueira?

AM: Ia a alguns, com a Leila Diniz, porque ela frequentava os ensaios de muitas escolas. Desde garota eu gostava dos desfiles das escolas de samba; na juventude assistia a festa na Presidente Vargas. A Mangueira me conquistou pelas cores verde-e-rosa e pelos seus sambistas como o Cartola e o Nelson Cavaquinho.

CM: Como foi o processo que resultou no segundo filme?

AM: Durante as gravações de Mangueira do amanhã criamos uma relação de amizade e confiança com as crianças. Eles se divertiam com as filmagens e alguns deles acham que foi a fase mais feliz da sua infância. Depois, quando que eu ia ao ensaio na quadra quase sempre encontrava o Wesley, um dos protagonistas, e ele me dava notícias dos amigos. Eu fui me interessando em acompanhar o percurso deles. É um filme em dois tempos, com o passado e o presente, e porque tem o funk e o samba. O samba, que já é um patrimônio cultural, e o funk, que como diz o Ivo Meirelles, que está no filme, um dia vai sofrer a mesma retratação.

CM: Você filmou no sambódromo?

AM: Desde o final de 2014 filmei o ensaio técnico no sambódromo e o ensaio exclusivo da bateria na quadra, com o Wesley; gravação do improviso de repique e tamborim com ele e com Buí, e com a orientação do músico Fernando Moura, a quem eu já tinha convidado para compor a trilha; e também a entrevista com o Buí aproveitando ele estar no Rio de Janeiro.

CM: Patrocínios?

AM: Tentei editais e patrocínios durante alguns anos, sem sucesso. Finalmente, em 2018, gravei um dos eventos mais importantes do filme, na base do empréstimo pessoal. O Canal Brasil entrou na parceria como co-produtor e obtive um aporte da Secretaria Municipal de Cultura. Filmei no final de 2018 e montei até abril de 2019. Foi um trabalho e tanto. Verdadeiro quebra-cabeças, editar vozes e temas variados.

CM: Como foi esse passar do tempo, a evolução, o desenvolvimento da escola nesses últimos 30 anos?

AM:
Houve mudanças em todas as escolas de samba. Hoje, os desfiles têm iluminação própria, as moças tocam na bateria, que ganhou maior relevância, e temos a ''paradinha'' funk. Aliás, Wesley fez parte do grupo que introduziu a ideia da ''paradinha''. Mas no filme importa mais o que aconteceu com a turma nesses 30 anos e, por tabela, com os outros moradores da Mangueira e de outras comunidades.

CM: Por exemplo.

AM: Lembro da primeira vez que vi Wesley. Ele tinha doze anos, era um menino magrinho que sentou na minha frente e disse que queria ser músico. Pensei que seria uma possibilidade remota, mas ele teve determinação e chegou lá. Buí do Tamborim tinha seis anos quando o filmei tocando em lata de óleo vazia; foi uma dica do Carlos Cachaça. Os meninos nascem com o dom e desde pequenos tocam - nem que seja em latas vazias. Os dois, adultos, viajaram o mundo e hoje vivem da música, reunindo o prazer e a sobrevivência. As meninas não seguiram o samba. Casaram-se cedo e têm filhos.

CM: Nos seus filmes, a comunidade é pano de fundo? Ou a favela é também protagonista?

AM: O filme é centrado nas pessoas, dois rapazes e quatro moças. A filha de uma delas representa a nova geração. Na alegria e na adversidade, a relação com a comunidade é orgânica. Lá, há uma forte sensação de pertencimento social e, sobretudo, cultural. Eu vejo a Mangueira como uma aldeia.

O longa de Ana tem Alcione, que participou de Mangueira do amanhã, Ivo Meirelles, Carlos Malta, entre outros, que fizeram e fazem parte da trajetória da escola. As histórias dos personagens se entrelaçam com as circunstâncias brutais da vida dos moradores das favelas do Rio.

 Wesley foi escolhido mestre de bateria da Mangueira na vitória retumbante da escola, em 2019, recorda a diretora. " Foram quatro notas dez, que a Mangueira não tirava há 18 anos na bateria. Tive essa sorte: o protagonista do filme escolhido mestre de bateria e a Mangueira ter sido campeã. O meu protagonista também é um protagonista do samba, hoje”.

Quando apresentou Mangueira em dois tempos no Festival do Rio do ano passado, Ana Maria lembrou de uma bela observação de Darcy Ribeiro:

''A cultura tem duas asas; a erudita e a popular - sem as duas ela não levanta voo.'

Na época, e a propósito, o crítico Dermeval Neto escreveu: ''Citando esta frase do Darcy, Ana Maria declara sua identificação com o universo da cultura. Nas suas imagens, vemos o desenrolar de histórias, personagens, lutas, superações, vitórias buscadas e inspiradas na comunidade verde-e-rosa e transportadas para um cinema que respira música, ritmo, percussão, desafios e acima de tudo, humanidade.''

Para revitalizar o corpo, espírito e a cabeça nesses tempos adversos, sugerimos a alegria na resistência assistindo a esse filme em pré-estréia.

*Mangueira em dois tempos pode ser visto hoje e amanhã no Looke/Festival de Pré-estréias do Espaço Itaú de Cinema. Será lançado nos cinemas quando eles reabrirem



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