Cinema

Mentiras e falsificação da verdade

História real que se repete no Brasil com os negacionistas das verdades: a do aventureiro inglês que contestou a existência de câmaras de gás em Auschwitz e foi desmascarado, nos tribunais, pela historiadora Deborah Lipstadt

10/01/2020 09:31

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Negação (ou Denial) é um bom ''filme de tribunal''. Estreou no Festival de Toronto há pouco mais de três anos e chegou ao Brasil logo em seguida. Hoje, encontra-se meio perdido no catálogo de streaming*, vem com um roteiro convencional porém criterioso e bem amarrado, do dramaturgo inglês Dave Hare - o mesmo que escreveu o roteiro de um belo filme, O leitor, de Stephen Daldry, grande sucesso de dez anos atrás. Dirigido por Mick Jackson (não confundir com o cantor), um autor de filmes instantâneos como o mega sucesso comercial O guarda costas, vale assistir Denial nesta era de falsificação da verdade, de cínicas mentiras e de versões desonestas.

O filme vem a propósito da nossa Era da Negação que é também a Era da Boçalidade e a Era do Mal-Estar.

Entramos nos tempos da negação a tudo que contrarie interesses pessoais, políticos, geopolíticos, econômicos, militares, a História, a Ciência, o Meio Ambiente. Provas cabais são destituídas pelos ''negacionistas'' profissionais de plantão do grupo dos que provocam, ou aqueles que não temem cair no ridículo e no absurdo.

Anunciam a Terra plana e zombam da veemência de ambientalistas clamando socorro para as severas mudanças climáticas do planeta que chegam num crescendo assustador. Repudiam o período militar da História do Brasil de 64 como o de uma ditadura e negam a tortura e os assassinatos que prosperaram naqueles governos.

Negação relembra um caso rumoroso, de 1993, envolvendo uma escritora, historiadora, pesquisadora e professora universitária americana, do Texas, uma estudiosa do Holocausto filha de judeus, e um escritor aventureiro de Londres, um ''negacionista'' da carnificina de Hitler. Apesar dos pesares, um indivíduo bem recebido em alguns círculos de historiadores e cientistas britânicos.

A dramatização do caso é baseado no livro da professora, hoje com 72 anos - History on Trial: My Day in Court with a Holocaust Denier - que durante os mandatos de Bill Clinton e Barack Obama foi a chefe do Conselho do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, em Washington.

David Irving, o citado aventureiro, é um dublê de Olavo, um astrólogo nascido em Campinas, hoje confinado em Richmond, nos Estados Unidos. Aquele não se sabe porquê (sabe-se?) não pode vir ao Brasil, mas que aqui conta com discípulos espalhados pelo país e muitos amontoados em Brasília.

Irving, o dublê de Olavo, é autor de diversos livros onde nega a dizimação de judeus por parte de Hitler e a existência de execuções nas câmaras de gás do campo de concentração de Auschwitz.

A história do filme é esta: ele entra com uma ação de difamação na justiça londrina contra Deborah Lipstadt e a Penguin Books, sua Editora, quando é publicado um livro dela contestando as ideias do ''negacionista'' que, mostra o filme, tem boas porções de seguidores fanáticos. Como Olavo. Trata-se de uma história soturna que nós vivemos na pele hoje, no Brasil.

A competente atriz Rachel Weisz faz uma apaixonada, segura e assertiva Deborah Lipstadt, a autora do livro Denying the Holocausto: The Growing Assault on Truth and Memory - Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória - o objeto da denúncia.

O ator Tom Wilkinson, que pertence ao grupo de uma geração de atores ingleses irretocáveis, faz o seu advogado. Ele é responsável pelos momentos mais dramáticos e tensos da narrativa, interpelando e acuando o aventureiro no tribunal, e visitando Auschwitz com sua cliente. É insuperável.

Um dos aspectos menos evidentes do filme, porém mais desafiadores, está no embate entre os mais sensíveis sentimentos humanos da professora, a indignação e repúdio às falsidades do oponente audacioso e impertinente, sua solidariedade às vítimas do Holocausto nazista que a procuram no tribunal desejando depor sobre Auschwitz, e a frieza das estratégias legais da Justiça e de advogados da elite londrina experientes e, de alguma forma, indiferentes ao martírio e o sofrimento renovado de um povo caluniado.

 A tocante sequência da visita do velho advogado (Tom Wilkinson), em companhia da sua cliente, à câmara de gás do campo de concentração alemão - que nem um nem outro conheciam in loco - é uma das chaves do filme.

O tribunal inglês considerou que Irving foi um ativo ''negacionista'' do Holocausto. Anti-semita e racista. Na sentença final do julgamento que mobilizou a opinião pública e durou várias semanas, ficou registrado sobre ele: " Por suas próprias razões ideológicas, persistente e deliberadamente deturpou e manipulou as evidências históricas".

O juiz também considerou que os livros de Irving distorciam a História sobre o papel de Hitler no Holocausto e retratavam-no de forma favorável.

A historiadora e professora brasileira, Beatriz Kushnir, autora do livro Cães de Guarda: Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988”, chamou a atenção, no fim do ano, depois de assistir a Negação, para um aspecto que a incomoda e também a nós, neste filme, e é relacionado à insistência de Deborah Lipstadt junto aos advogados para seguirem uma linha de defesa com mais humanidade.

'' A ideia de que a mulher é colocada como um ser emotivo e portanto, não confiável, '' observa Kushnir. ''Que qualquer fala emotiva não é credenciável.''

Mas ela conclui: '' É fundamental ver esse filme hoje. Nos ajuda a ter armas. É uma discussão de como “verdades históricas” foram construídas e como a dele (N.R. Irving) se baseia na manipulação dos dados para se aproximar da ideologia que milita.''

O triste é que o falsificador da História, hoje com 81 anos, vê-se no final de Denial, continuou se exibindo para os seus seguidores.



*Disponível na Netflix

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