Cinema

Meu filho, por que um terrorista?

O segundo filme do diretor tunisiano Mohamed ben Attia, 'Meu querido filho', narra uma realidade pouco noticiada no Brasil: o fascínio de adolescentes pelo terrorismo e pela violência e o sofrimento de pais da classe média dos países do Magreb

28/12/2018 15:59

 

 

Há uma atmosfera nos filmes do tunisiano Mohamed ben Attia que nos remete ao cinema francês dos anos 60. Não por acaso seus principais produtores costumam ser europeus - os irmãos Dardenne estão entre eles -, belgas e franceses além de investidores do Catar. A simplicidade e singeleza, o despojamento beirando o tosco, dos seus primeiros dois longa metragens é por um lado sua qualidade e por outro, motivo do fascínio que detêm em tempos de piruetas comerciais e artísticas, e efeitos especiais banalizados.

Autor do filme A amante, de 2016 e exibido no Brasil no começo deste ano depois de ganhar, no Festival de Berlim, os prêmios de Melhor Ator (Majd Mastoura) e de Melhor Filme de estreia, Attia é da jovem geração dos 40 anos – tem 42 e é um daqueles diretores que ocupa o lugar vazio deixado pelo jornalismo em praticamente em todas as partes do mundo ao retratar, com um novo realismo, sem fantasia, a vida no seu país.

‘’Ben Attia filma a família como forma de entender o que se passa na Tunísia. Usa o cinema como um espelho para refletir a realidade, ’’ escreveu, na época de A amante, o crítico Luiz Carlos Merten.

O filme de agora, com estreia no Brasil marcada para a próxima semana, é Meu querido filho, mostrado em maio passado no Festival de Cannes, o trabalho mais recente do tunisiano.

O filme narra a história do sumiço de casa, de repente, de um jovem estudante à beira de terminar o ensino médio para fazer exames e entrar na universidade, ainda um adolescente, que sofre de enxaquecas constantes e um dia desaparece sem deixar rastros quando está iniciando um tratamento.

O retrato é, mais uma vez, neste segundo filme com cenário de Túnis - quase um documentário -, o da família da classe trabalhadora (A amante retratava outra família pequeno burguês da capital), estabilizada financeiramente, com o pai prestes a se aposentar, Riadh (Mohamed Dhrif, belo ator), um operador do porto de Tunis casado com Nazli, e cujo motivo principal da vida é o seu filho único, Samir. Realidades do Magreb.



Ben Attia descreve seu protagonista: ‘’A felicidade dele é cuidar de sua casa, ir trabalhar e ganhar o pão de cada dia. ’’ É também o que imagina para o futuro do filho único muito amado. Mas tudo entra em colapso quando, prestes a se aposentar, ele e a mulher vêem o jovem sumir de repente.

Este personagem do pai, segundo o diretor, foi inspirado pela sua leitura de dezenas de pequenos anúncios que vêm sendo publicados há anos em jornais de países do norte do continente - Tunísia, Argélia, Marrocos – de pais desolados procurando filhos desaparecidos, na sua grande maioria fugitivos que vão se juntar à jihad dos terroristas na Síria.

A partir daí a narrativa do drama é centralizada na perplexidade e no sofrimento dos pais, em especial do velho, que parte para procurar o rapaz. ‘’ Eu não quis cair num maniqueísmo previsível. Quis ir além do nível superficial do ódio, de raiva, embora seja completamente compreensível esse sentimento.”

A busca do velho pai se estende à Turquia onde pretende atravessar a fronteira com a Síria para reencontrar Samir no país vizinho. Inclui sua solidão pelas ruas, pequenos hotéis, cafés e kebabs da Istambul supermoderna; uma das metrópoles hoje mais excitantes do mundo, onde tudo pode acontecer nessa confluência de ocidente e oriente, de Europa e Ásia, de país em guerra, mas ao mesmo tempo em paz e com um turismo impressionante.

Em plena era da informação histérica e manipulada, em que agências de notícias e grandes corporações de mídia nos oferecem, aqui no Brasil, o falso panorama do mundo segundo  seus interesses nas guerras e nos seus negócios de petróleo, essa realidade do filme de Mohamed ben Attia, que apresenta a quase a rotina de centenas desses meninos de famílias burguesas magrebinas, fugitivos que se reúnem aos grupos do terror para combater o sistema ocidental, é praticamente desconhecida.

Com a exceção da chance de leitura de meia dúzia de jornalistas independentes com análises mais honestas do mundo em convulsão e que nos chegam traduzidas para o nosso idioma, podemos dizer que somos analfabetos a respeito.

Mas está chegando o momento de estabelecer contato com essa realidade: o fascínio exercido pela violência e pelo terrorismo sobre as novas gerações. Uma das oportunidades são filmes como esse, de ben Attia.



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