Cinema

Michael Moore: as democracias de aparência

O capitalismo como doença e a origem da palavra 'populismo' no novo 'doc' de Michael Moore, 'Fahrenheit nove de novembro', inédito no Brasil. Nele, o tema das democracias de aparência e o fascismo que chega nos rostos sorridentes das telas de TV

01/12/2018 07:15

 

 
O novo documentário de Michael Moore, Fahrenheit nove de novembro, dura exatamente duas horas e oito minutos. Tempo demais para conviver com Donald Trump numa tela de cinema, pensou o autor do filme. “Eu sabia que o espectador não ia suportar passar esse par de horas na companhia dele, ’’ Moore comentou com a jornalista Mathilde Blottière, da revista francesa Télérama, durante uma entrevista, pouco mais de um mês atrás. Ele se preparava para lançar outro demolidor doc sobre o capitalismo, desta vez com o atual presidente americano como seu dileto representante. ‘’Trump é o sintoma de uma doença muito grave – o capitalismo, ’’ ele diz. ‘’Uma doença que afeta a democracia a qual, por sua vez não se comporta como democracia. ’’

Familiar? Poderia ser aqui: uma democracia que não se comporta democraticamente.

O filme tem início no dia do anúncio da vitória (inesperada e chocante) de Trump, um dia de luto para os verdadeiramente democratas. Mostra uma América que está se dissolvendo, diz a jornalista francesa, onde ‘’uma elite local, corroída, pode, até, impunemente, envenenar a água distribuída para uma cidade inteira. ’’



Ou uma classe dirigente americana, continua Blottière se referindo à histeria religiosa que acometeu o país, quando após cada massacre de massa (que regularmente ocorre em escolas, shoppings, nas ruas, hospitais, até quartéis) ela só se manifesta para pedir ‘’pensamentos positivos e orações. ’’

Moore comenta: “É um espetáculo insólito. Inconcebível. Inaceitável. ’’ E arremete: ‘’ À força de tantos compromissos, a esquerda reformista pariu um monstro.”

Sobre o capitalismo, Moore faz essas considerações:

‘’Eu sabia que o espectador não conseguiria passar duas horas vendo o filme sobre Trump. Então decidi ampliar o meu foco para o sistema político em que vivemos. O colégio eleitoral dos grandes eleitores, por exemplo. Há muito tempo nós deveríamos te-lo abandonado. Nada fizemos. O resultado: Hillary ganhou a eleição no escrutínio popular, mas é Trump quem ocupa a Casa Branca. ’’

O diretor fez questão de estrear seu doc no dia 31 de outubro passado esperando contribuir para que não houvesse tanta abstenção como ocorreu na eleição para presidente.



Sobre os que o acusam de ser populista, Moore responde: ‘’Eles deviam conhecer a origem da palavra populista nos Estados Unidos. No fim do século 19 esse termo correspondia à expansão do movimento socialista e dos sindicatos de trabalhadores. É a acepção histórica e não aquela que se utiliza, hoje, para identificar os Le Pen e os trumpistas aquela que eu sigo. Assumo a designação, nesse sentido, da palavra populismo. ’’

‘’No filme, ’’ ele continua, ‘’ fiz um paralelo entre Hitler e Trump para que não se pense que o fascismo só ocorre em outros países e com outras pessoas: o outro. No livro Friendly Fascism: the new face of power in America, um livro dos anos 80, Bertram Gross escreveu que o fascismo do século 21 não chegará com  ‘’sinistros vagões de prisioneiros levados para campos de concentração, mas sim com os rostos sorridentes dos noticiários de televisão. ’’



‘’É esta a marca fabricada pelos trumps, mundo afora, hoje: o divertimento. Com ilusionistas e mágicos, num espetáculo de circo. ’’

Para eventualmente, por acaso (?) os americanos conseguirem mudar o governo, em 2020, Moore se lembra de ‘’pessoas em quem se confia: Tom Hanks, Michelle Obama, Oprah Winfrey... como candidatos.  Ou será difícil Trump ser descartado. ’’

E termina pragmático e sem ilusões sobre a realidade do seu país que cai - com ressalvas de fundo - como uma luva para o momento brasileiro.

‘’Se quisermos sair desta situação atual, que é crítica, não será com orações nem apenas com esperança que vamos conseguir. Temos que lutar. ’’





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