Cinema

Miles: a música que vai direto ao coração

Trilha musical da geração pós guerra até o começo dos anos 90, o jazz romântico do trompetista americano está no doc 'Miles Davis: birth of the cool'

25/03/2020 18:02

 

 
O perfil deste documentário do escritor, diretor e documentarista americano Stanley Nelson é o tema de uma das maiores legendas do jazz e da ''música de maestro'', o panteão no qual Miles Davis foi entronizado a certa altura da sua histórica trajetória quando foi consagrado como compositor e excepcional trompetista. O filme mostra como Davis imprimiu sua marca na trilha musical das gerações que viveram os anos do pós Segunda Guerra mundial - no Rio de Janeiro muitos dos aficionados que frequentavam o célebre Beco das Garrafas, em Copacabana - e o seguiram fervorosamente, dali em diante e até hoje, quando a morte por pneumonia o levou, aos 65 anos de idade. Numa passagem do filme, a tola apresentação, num canal de TV americano, identificando o jazz do pós guerra como a ''moda atual; um barulho musical que está em voga.''

Miles Davis: birth of the cool percorre a vida do músico que usou pela primeira vez o recurso da surdina na boca do seu instrumento, bem próxima do microfone, para obter o som lancinante que desejava. Vai desde 1926 e a época de rapaz nascido em Saint Louis, à beira do rio Mississipi e para quem a música sempre foi a prioridade absoluta. Menino, Miles saía pelos campos e florestas para ouvir os cantos dos pássaros. Aos 13 anos ganhou de presente do pai, um dentista e fazendeiro bem sucedido, o seu primeiro trompete embora a mãe quisesse que o presente tivesse sido um violino bem comportado.

Trata-se de uma jóia de doc, de cerca de duas horas, relembrando os grandes hits de Davis e mostra como ele foi mudando as cores do jazz ao longo da vida até mesclar músicas clássicas com o jazz do bebop: nascia aí o cool jazz.

Os entrevistados ilustres do filme são, nada mais nada menos que Billy Eckstine, Charlie Bird Parker, Quincy Jones, Wayne Shorter, Carlos Santana, Herbie Hancock. Gil Evans surge como mensageiro da grande virada do trabalho de Miles Davis.



E também a cantora francesa existencialista Juliette Gréco, musa e grande amante de Miles quando da temporada dele em Paris, e quem o apresentou à inteligência dos bulevares daquela época. Inclusive a Sartre e Picasso, fãs do americano.

Uma sequência comenta a espetacular trilha do filme de Louis Malle, Ascensor para o cadafalso, com o trompete de Davis seguindo as caminhadas de Jeanne Moreau através da cidade. O disco, lançado simultâneo ao filme, foi mais comprado e ouvido antes do próprio clássico de Malle ser apreciado nos cinemas.

Outra, sua viagem a Barcelona com a mulher, como descobriu o flamenco e se apaixonou pela música espanhola. O resultado foi o belo álbum Sketches of Spain.

Birth of the cool rastreia as gravações no histórico selo Prestige e depois na gravadora Colúmbia. Em 1955, o ano da virada após uma fase difícil, a saída de Miles do vício da heroína, e sua apresentação no Newport Festival, e com Telonius Monk.

Kind of Blue, o memorável àlbum que mudou o som do jazz, a personificação do cool, do sofisticado. Uma obra prima.

O som de Miles, puro e elegante, como dizem seus companheiros, é um som puro que vai direto ao coração. " E é romântico sem ser sentimental,'' diz o guitarrista mexicano Carlos Santana no filme. Tem toda razão.





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