Cinema

Missões (quase) impossíveis

Um grande filme inglês de guerra, '1917', e um policial brasileiro, 'A Divisão', colocam seus personagens em incumbências desafiadoras

23/01/2020 11:15

 

 

Missão em linha reta

1917
sobe ao panteão dos grandes filmes de guerra não tanto pelo seu enredo, relativamente simples, mas pela façanha de sua realização e como ela transmite a tensão e o horror de estar em meio ao conflito. Nada mais básico do que a saga dos dois soldados encarregados de levar uma mensagem através do front inimigo até outro batalhão, a tempo de cancelar um ataque e evitar um massacre das forças britânicas na I Guerra Mundial. A inspiração veio do avô de Sam Mendes, que foi incumbido de missão semelhante.

Trata-se de uma tarefa em linha reta. Os dois rapazes têm oito horas para alcançar o objetivo e não podem pestanejar nem olhar para trás. Um deles tem um irmão no outro batalhão, que está ameaçado por uma armadilha dos alemães. Chegar a tempo é, portanto, uma questão não só de pátria, mas também de família. Através de muros de arame farpado, trincheiras abandonadas e casamatas traiçoeiras, arrastando-se na lama e tropeçando em cadáveres e animais mortos, só lhes resta avançar.

Para dar conta desse trajeto inexorável, Sam Mendes optou por uma narrativa igualmente incessante, num falso plano contínuo de duas horas de duração. Ainda que se percebam claramente alguns cortes (em áreas escuras, explosões, mergulhos e num desmaio do cabo Schofield), cada longo plano-sequência leva ao paroxismo o tempo real, as distâncias reais e o esforço real dos atores.



Sustentar tal realismo em movimento permanente, terrenos irregulares e situações as mais diversas – com destaque para a queda e explosão de um avião no mesmo plano em que estão os dois soldados – exigiu técnicas arrojadas da equipe de fotografia dirigida pelo grande Roger Deakins. As câmeras eram conduzidas em steadicams a pé e continuamente acopladas a jipes, motocicletas, gruas e drones, passando de um para outro sem interrupção das tomadas (veja este making of em inglês). A estabilização era feita pelo sitema Trinity da Arri, que combina estabilizações mecânica e eletrônica. Não menos extraordinária é a direção de arte, que provê os mais diferentes cenários, incluindo uma cidade destruída e cerca de dois quilômetros de trincheiras construídas para os extensos travellings ininterruptos.

Longas-metragens em um único plano sem cortes (ou com cortes dissimulados) não são novidade desde Festim Diabólico (1948), de Hitchcock. Outros exemplos notáveis são Arca Russa, de Sokurov, Birdman, de Iñarritu, Time Code, de Mike Figgis, e os brasileiros Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, e Estamos Vivos, de Filipe Codeço. O que 1917 tem de mais espantoso é a quantidade de desafios a que se propôs e a organicidade entre tema e estética. O movimento contínuo reflete o senso inabalável de dever e os compromissos pessoais assumidos por Blake e Schofield.

A guerra não está ali como fato político nem como motor de ação, mas sim como uma prova individual, inclusive de amizade, para os dois soldados. A sucessão de perigos no caminho deles tem semelhanças com reality shows de sobrevivência, o que não é exatamente um grande elogio. Mas a alternância de momentos grandiosos com cenas intimistas, o resultado técnico primoroso e as atuações intrépidas de George MacKay e Dean-Charles Chapman levam o filme a um patamar muito superior. No quesito elenco, note-se o luxo adicional de ter os superastros Colin Firth e Benedict Cumberbatch em pequenas pontas como os oficiais nos dois extremos da linha de comando.



Polícia em área de sombra moral

A série A DIVISÃO, exibida no Globoplay em 2019, virou filme para contar ficcionalmente como a Divisão Antissequestro da Polícia Civil terminou com a onda de sequestros que assombrou o Rio de Janeiro na segunda metade dos anos 1970. Alguns personagens são identificáveis com figuras reais, como o general (Nilton Cerqueira) que comandava a Secretaria de Segurança Pública e o chefe da Polícia Civil, decalcado em Hélio Luz. Outros deslizam entre a corrupção e a ultraviolência, conferindo uma mancha de amoralidade ao sucesso da operação.



Como costuma acontecer, a coisa pega fogo quando um membro da elite se torna vítima. A filha de um poderoso deputado, candidato a governador do estado, é sequestrada. A DAS (no filme identificada com um "A" a mais) precisa, então, agir decisivamente. É quando se instala o conflito entre os métodos utilizados pelo comandante da Divisão (Silvio Guindane), um novo integrante acostumado a extorquir bandidos (Erom Cordeiro) e o delegado vivido por Marcos Palmeira.

A proposta do filme, um pouco na trilha de Tropa de Elite, é mostrar o trabalho da polícia numa área de sombra moral. Os fins poderiam ou não justificar os meios. E os que posam de heróis nem sempre têm a conduta correspondente. Os sequestros, por sua vez, são evocados como uma rede de negócios onde não só os bandidos se beneficiavam dos pagamentos de resgates.

A DIVISÃO é uma bomba de testosterona, suor e sangue. Vicente Amorim usa sua tarimba eclética junto a uma equipe de primeira no gênero do filme de ação. Não há espaço para sutilezas nem aprofundamento de personagens. A estética de série de TV prevalece sobre a do cinema mediante insistentes closes, ritmo acelerado e uma edição que desorienta espacialmente o espectador em troca da produção de adrenalina.

A mim incomoda a fetichização dos ícones policiais (armas, distintivos, viaturas, tatuagens) e da favela e da periferia como meros cenários de tiroteios estetizados. A brutalização reiterada da moça sequestrada também parece apelar ao instinto mais básico de certas plateias. Quanto à caracterização dos "homens da lei", imperam os semblantes e entonações de policiais americanos, numa amostra de fidelidade maior aos cânones do gênero do que aos modelos da realidade.



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