Cinema

Monos

Revisitando os clássicos ''O Senhor das moscas''' e ''O coração das trevas'', filme colombiano é candidato à lista de indicados para melhor filme estrangeiro ao Oscar de 2021

18/11/2020 15:11

 

 
Estreou semana passada Monos - entre o céu e o inferno, do diretor equatoriano nascido em São Paulo, Alejandro Landes, e representante do cinema colombiano na relação de indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2021. Um filme maduro, de forte impacto, com roteiro enxuto do argentino Alexis dos Santos influenciado diretamente por dois monumentos literários - e, posteriormente, cinematográficos: os romances O Senhor das Moscas, de William Golding*, e O Coração das Trevas, de Joseph Conrad que inspirou Francis Ford Coppola em Apocalipse now.

Livros revisitados que, na visão de Santos, um experiente diretor e roteirista, são como ''tatuagens' que marcam para sempre o leitor que se aventura nessas duas terríveis narrativas sobre a crueza da brutalidade humana (latente?) desencadeada em situações limites de guerras nos cenários do isolamento fantasmagórico das selvas.

As selvas onde Monos (macacos, em português) foi rodado estão a poucas horas da cidade de Medelín, nas redondezas do rio Samaná. Uma região que '' estranhamente ficou intocada porque até pouco tempo era inacessível por conta das disputas entre a guerrilha colombiana e os grupos de paramilitares'', explicou o diretor Landes em entrevistas recentes. "Uma benção estranha da violência colombiana'', ele acrescenta, e nomeia seu filme como um ''sonho febril no meio de uma guerra civil repleta de fantasmas e que parece não ter fim, no país.''

Os protagonistas são adolescentes, meninas e meninos que estão sendo treinados num campo de guerrilha em alguma região da América Latina não nomeada enquanto guardam uma prisioneira, refém americana. Em meio a armas e apelidos de guerra, oito soldados adolescentes fazem parte do grupo rebelde chamado ''A Organização''.

À primeiríssima vista poderia parecer um acampamento de férias isolado entre montanhas e ruínas latinas, desse grupo de soldados adolescentes armados, encarregado de garantir que a refém ''Doutora'' permaneça viva..

Mas, acidentalmente, matam uma vaca emprestada por amigos camponeses locais para lhes fornecer leite provisoriamente. Acabam precisando fugir e se embrear nas profundezas das florestas. No elenco, dois atores profissionais, Moises Arías e Julianne Nicholson. Os demais, jovens estreantes e bem conduzidos por Landes.

Desde sua estréia no Festival de Sundance, há mais de um ano, e depois mostrado no respeitado Festival Internacional de San Sebastián, Monos vem suscitando discussões e debates, em particular em meio às platéias jovens. Em ambos os certames recebeu premios: do júri na Espanha e de melhor filme em Sundance.

Mas a imagem que permanece como uma ''tatuagem'' no espectador desse filme, como se refere Landes à profunda impressão deixada por Golding e Conrad no leitor de suas obras, é o close do garoto paramilitar com o rosto pintado de preto, olhar de um misto de loucura, poder e liberdade tal o general Kurtz de Marlon Brando no filme de Coppola, nas selvas profundas do Vietnã.

Um menino de um continente à beira de uma guerra?

***

*O senhor das moscas (Master of the flies) disponível no youtube.

**Monos está em cartaz em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Campinas e Ribeirão Preto.



Léa Maria Aarão Reis é autora de Maturidade (Ed. Campus), Manual Prático de Assessoria de Imprensa (Ed.Campus), Porto Seguro, Arraial d'Ajuda e Trancoso: Sul da Bahia (Ed. Index), Nova Idade (Ed. Rocco), Cada um envelhece como quer (Ed. Elsevier), 40/50 anos: Além da idade do Lobo ( Ed. Campus) e Nada Muito coautoria com João Curvo (Ed. Rocco)



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