Cinema

Mostra SP destaca o cinema brasileiro em ano de crise e muitos prêmios

 

17/10/2019 12:40

''Dois Papas'', de Fernando Meirelles

Créditos da foto: ''Dois Papas'', de Fernando Meirelles

 
O Brasil, pela primeira vez na história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que realiza sua quadragésima-terceira edição de 17 a 30 deste mês de outubro, estará no centro das atenções e nas mais nobres telas da maratona paulistana.

Há profissionais brasileiros em postos-chave no filme de abertura, “Wasp Network”, e no de encerramento, “Dois Papas”. Há 60 filme nacionais programados em sessões competitivas, informativas e galas em território nobre (pela primeira vez, o Theatro Municipal exibirá filmes da Mostra).

“Wasp Network”, dirigido pelo francês Olivier Assayas, de 64 anos, traz nos créditos o ator Wagner Moura, em papel de grande destaque, o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, e o autor da trama, o escritor Fernando Morais. Afinal, é dele o livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, sobre cinco agentes cubanos infiltrados entre anticastristas de Miami-Flórida. O título em inglês nada tem a ver com concessão ao cinema hegemônico. Os personagens do filme expressam-se em inglês ou espanhol, segundo a necessidade e o interlocutor. Afinal, seus protagonistas representam altos quadros da espionagem cubana, em missão de alto risco em solo norte-americano.

Já “Dois Papas” tem como seu autor o cineasta paulistano Fernando Meirelles, também de 64 anos. Com ele, na equipe, estão os brasileiros Cesar Charlone, na direção de fotografia, Fernando Stultz, na montagem, e a equipe de pós-produção da O2. O diretor de “Cidade de Deus”, que concorreu a quatro Oscar e mobilizou 3.200.000 espectadores, aceitou dirigir esta produção Netflix, por razão muito simples: adorou o roteiro (de Anthony McCarten). O filme une dois grandes atores anglo-saxões: Jonathan Pryce (o pontífice Francisco, que hoje ocupa o trono do Vaticano) e Anthony Hopkins, intérprete do papa Bento XVI, que renunciou ao pontificado). Um é progressista, o outro, conservador.

Meirelles contou à Revista de CINEMA que, além de dirigir dois grandes atores, encantou-se com os diálogos do roteirista britânico, banhados com muito humor. Para ele, a ironia e o humor são essenciais a um filme, pois cativam o espectador. O brasileiro regressou feliz dos festivais de Telluride, nos EUA, e de Toronto, no Canadá, pois “Dois papas” recebeu boas críticas. Embora não admita, Meirelles espera ver o filme indicado a alguma categoria do Oscar. Quem sabe ator, roteiro…


“Wasp Network”, de Olivier Assayas

No substantivo recheio da Mostra, entre a abertura e o encerramento, serão exibidos muitos filmes 100% inéditos no Brasil. Entre os nacionais, destacam-se “Acqua Movie”, de Lírio Ferreira, “Abismo Tropical”, de Paulo Caldas, “Beco”, de Camilo Cavalcante, todos pernambucanos, “A Jangada de Welles”, dos cearenses Petrus Cariry e Firmino Holanda, “Aos Olhos de Ernesto”, da gaúcha Anna Luiza Azevedo, “Três Verões”, de Sandra Kogut, “Breve Miragem de Sol”, de Eryk Rocha, “O Juízo”, de Andrucha Waddington (com roteiro da atriz e escritora Fernanda Torres), os três cariocas, “Querência”, do mineiro Helvécio Marins Jr, e “Siron – Tempo sobre Tela”, de André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos.

Haverá, também, espaço para filmes brasileiros festejados em festivais internacionais e nacionais. Os três títulos mais notáveis são “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, premiado em Cannes e indicado pelo Brasil para concorrer a vaga no Oscar internacional, “Pacarrete”, de Allan Deberton, o xodó dos festivais de Gramado, Vitória e FAM Floripa, e “Pacificado”, de Paxton Winters, vencedor do prêmio máximo do Festival de San Sebastián, no País Basco (Troféu Concha de Ouro).

“Pacificado”, que tem entre seus produtores o festejado Darren “Cisne Negro” Aronofsky, integra safra do que vem sendo chamado de “filme com DNA brasileiro”. Nesta abrangente e gelatinosa categoria, têm sido colocadas, também, produções norte-americanas do produtor Rodrigo Teixeira. Ou seja, filmes falados em inglês, filmados nos EUA e com equipe artística e técnica 100% estadunidense.

Já “Wasp Network”, “Dois Papas”, “O Traidor”, de Marco Bellocchio (não programado pela Mostra, o que indica que deve estar em espaço nobre no Festival do Rio) e “Pacificado” têm, sim, DNA bem brasileiro. O filme premiado em San Sebastián, então, tem marcas altíssimas de brasilidade: foi integralmente filmado no Rio de Janeiro, no Morro dos Prazeres. É falado em português e interpretado por atores brasileiros (a menina Cássia Gil, a jovem Débora Nascimento, a veterana Léa Garcia, mais Shirley Cruz, José Loreto, Jefferson Brasil, Rod Carvalho e o congolês-cidadão brasileiro, Bukassa Kabenguele, premiado como o melhor ator no festival espanhol).

O diretor de “Pacificado”, um renomado jornalista norte-americano, trabalhou por sete anos no Brasil (e no Morro dos Prazeres). Nos créditos técnicos, estão o produtor-executivo Joel Souza, o montador Afonso Gonçalves, a editora de som Vanessa Gusmão e o design de produção Ricardo van Steen. Portanto, vanguarda (atores) e retaguarda verde-amarela.

Renata de Almeida, diretora e principal curadora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não hesitou ao colocar “Pacificado” como produção brasileira incluindo-o na competição de filmes de Novos Diretores (até segundo longa). O título vem daquele esperançoso momento em que favelas do Rio pareciam pacificadas. Mas, policiais do Bope e outras forças policiais continuavam promovendo tiroteios nos morros e favelas cariocas. Muitos destes confrontos entram na narrativa de “Pacificado” com filmagens reais (ou seja, documentadas durante o fogo cruzado).

A diretora da Mostra confirmou, em coletiva de imprensa, que “o olhar especial para a produção brasileira” é, sim, uma das características da 43ª edição do festival. Na mesma coletiva, Renata apresentou a programação deste ano (composta com 300 filmes vindos de 45 países) e seus principais apoiadores (Alê Youssef, da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, Laís Bodanzky, da Spcine, Claudinei Ferreira, do Itaú Cultural, Mário Mazzilli, da CPFL, e Danilo Santos de Miranda, do Sesc).


Coletiva de imprensa da Mostra: Mario Mazzilli, diretor-superintendente do Instituto CPFL, Laís Bodanzky, diretora-presidente da Spcine, Alexandre Youssef, Secretário Municipal da Cultura de São Paulo, Renata de Almeida, Danilo Santos de Miranda, do Sesc, e Claudiney Ferreira, Gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural © Mario Miranda Filho

Neste ano, em que instituições e mecanismos de fomento ao cinema brasileiro (caso da Ancine) vêm sendo desmontados pelo governo federal, Renata de Almeida garante “que a Mostra está, sim, com uma forte programação de filmes nacionais”. Inclusive “com produções com DNA brasileiro na abertura e no encerramento”. E com “sessões no Theatro Municipal, de produç%u1D7es que estão fazendo o que nossa diplomacia deve fazer: mostrar ao mundo o que de melhor produzimos”. Por exemplo, “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, premiado em Cannes”. Ou “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, de Bárbara Paz, premiado em Veneza.

O empenho em destacar a produção brasileira é tão intenso, que o cartaz da Mostra foi encomendado a uma artista paulistana. “Não tínhamos um cartaz criado por brasileiro desde a 35ª Mostra”, lembrou Renata. “Ao convidar Nina Pandolfo” – detalhou –, “trocamos ideias e ela criou arte que representa doçura, gentileza, compreensão, amor”. E ainda “destacou o meio ambiente e o poder da imaginação”. Num momento tão difícil, “nada melhor que um cartaz e uma vinheta cheios de cor, alegria e vida”.

Laís Bodanzky fez questão de lembrar que “festejar o cinema brasileiro” é intenção explícita das sessões de gala (depois de avisar que Renata não aprecia o qualificativo “gala”) programadas para o Theatro Municipal. Lá, serão exibidos, com tapete vermelho, cinco títulos: “Três Verões”, de Sandra Kogut, “Abe”, de Fernando Grostein Andrade, “Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, “A Vida Invisível”, e “Turma da Mônica – Laços”, de Daniel Rezende.

“Vamos receber tais filmes” – detalhou Laís – “neste momento em que se fala em crise no nosso audiovisual, mas o setor vai bem, obrigado, pois nossos filmes não param de receber prêmios internacionais”. Para enfatizar: “o nosso audiovisual faz parte do agendão da cidade de São Paulo”. E mais: “neste ano que se apresenta atípico na obtenção de patrocínios, nós vamos promover badaladas galas no Municipal”. Elitismo? “De jeito nenhum”, rebate. “Os mesmos filmes serão exibidos em nosso circuito nas franjas da cidade, no CEUs, com tapete vermelho e presença de atores e diretores. E a alta tecnologia de nossas salas”.

Por fim, laís justificou a presença de “Laços”, já lançado e visto por 2,1 milhões de espectadores, nas galas: “este filme é o terceiro mais visto no Circuito Spcine, bateu vários blockbusters norte-americanos”. Para “mostrar nosso reconhecimento, vamos promover sessão matutina no Theatro Municipal e num CEU, com presença de Mauricio de Souza, da Turma da Mônica e de Daniel Rezende. Eles serão recebidos com gala pelos frequentadores destes espaços. As sessões serão gratuitas no CEU e no Theatro Municipal, pois queremos levar a este espaço, aquelas pessoas que não o frequentam”.

Entre as atrações internacionais, Renata destacou a mostra “Carta Branca – Filmes Alemães”, com dez produções realizadas durante os 15 anos em que Mariette Rissenbeek comandou a German Films (incluindo obras de Von Trotta, Fatih Akin, Doris Dörrie, Maren Ade e Christian Petzold). Destacou, também, “Gabinete do Dr Calighari – 100 Anos”, que será mostrado em sessão no Parque do Ibirapuera (com acompanhamento da Jazz Sinfônica, ao vivo), e longas premiados nos principais festivais internacionais (“Sinônimos”, vencedor de Berlim, “Parasita”, “O Jovem Ahmed” e “O Paraíso Deve Ser Aqui”, os três laureados em Cannes, “Honeyland”, no Sundance, “Pacificados”, em San Sebastián, e “Fim de Estação”, em Roterdã).

O segmento latino-americano da Mostra também será forte, garantiu Renata. “Além da presença do argentino Leonardo Sbaraglia, do venezuelano Edgard “Carlos” Ramirez, ambos do elenco de “Wasp Network, e da peruana Magaly Solier (“Vivir Ilesos”), que apresentarão seus filmes, serão exibidos (muitos na presença de seus diretores) oito produções argentinas. A começar por “A Odisséia dos Tontos”, um Darin movie, que o país platino indicou ao Oscar, e mais “Distante de Nós”, “La Vida en Común”, “Magalí”, “Carteiro”, “A Boia”, “Chuvas Suaves Virão” e “Venezia”. O México também tem representação poderosa (seis títulos): “El Diabo entre las Piernas”, um legítimo Arturo Ripstein, “Coração de Mezquite”, “Poetas do Céu”, “O Umbigo de Guie’dani”, “O Desejo de Ana” e “Não me Ame”). A pequena Guatemala traz dois filmes de Jayro “Excanul” Bustamante (“La Llorona” e “Tremblores”). Outros países de fala hispânica se farão presentes: Colômbia (“Os Dias da Baleia”), República Dominicana (“A Fera e a Festa”, da mesma dupla de “Dólares de Areia”, Laura Guzmán e Israel Cárdenas), Uruguai (“Os Tubarões”), Chile (“Lenebel”), Equador (“La Mala Noche”), Peru (“Mataindios”) e Venezuela (“Pequenas Histórias”).

Três realizadores internacionais serão homenageados com dois dos principais prêmios da Mostra: o Humanidades, para o palestino Suleiman, e o Leon Cakoff, para o francês Olivier Assayas e o israelense Amos Gitai. Os dois primeiros ganharão retrospectiva de suas carreiras, e Gitai autografará livro que contém cartas de sua mãe (por ela escritas ou a ela destinadas). Algumas cartas serão lidas por Bárbara Paz e Regina e Gabriel Braga Nunes, mãe e filho).

No Vão Livre do Masp, serão exibidos filmes como “O Mágico de Oz”, em homenagem ao crítico Rubens Ewald Filho, que morreu meses atrás, “Curtas de Georges Meliès”, o papa do cinema-magia, “Slam, a Voz do levante”, entre outros.

A safra de candidatos a uma vaga entre os finalistas ao Oscar Internacional compõe-se, na programação da Mostra, com 12 títulos; o coreano “Parasita”, o argelino “Papicha”, o palestino “O Paraíso Deve Ser Aqui”, o norueguês “Cavalos Roubados”, o tcheco “O Pássaro Pintado”, o alemão “System Crasher”, o australiano “Empuxo”, o dominicano “O Projecionista”, o equatoriano “La Mala Noche”, o argentino “La Odisseia de los Giles”, o macedônio “Honeyland” e o brasileiro “A Vida Invisível”.

A lista de nomes familiares aos cinéfilos, aqueles que acompanham religiosamente a maratona fílmica paulista, inclue diretores da grandeza dos Irmãos Dardenne (“O Jovem Ahmed”), Werner Herzog (“Family Romance, Ltda”), Bruno Dumont (“Joana D’Arc”), Benoît Jacquot (“Último Amor de Casanova”), Moshen Makmalbaf (“Marghe e sua Mãe”), Agnieska Holland (“Mr Jones”) e Abel Ferrara (“The Projectionist”). O russo Andrei Tarkowski, tema de “Uma Oração para o Cinema”, será lembrado com filme-homenagem realizado por seu filho Andrei A. Tarkowski. Os fãs do húngaro Béla Tarr poderão enfrentar maratona de oito horas de “Satantango”.

O festival paulistano contará com Mostra em Realidade Virtual, incluindo o curta brasileiro “A Linha”, de Ricardo Laganaro, vencedor do prêmio de melhor experiência interativa em Veneza.

A Spcine Play, via streaming, vai disponibilizar nove filmes internacionais da Mostra para seus espectadores (por mais de 40 dias, o longo das duas semanas da maratona e durante todo o mês de novembro). Já o Itaú Cultural sediará o Fórum de Debates, que contará com o grande escritor lusitano Gonçalo M. Tavares e disponibilizará, em Mostra On-Line, cinco filmes brasileiros (“Narradores de Javé”, “Do Luto à Luta”, “Mutum”, “Pro Dia Nascer Feliz” e “Bollywood Dream’s”).

O filme estadunidense “O Farol”, produzido por Rodrigo Teixeira e parceiros, será exibido em sessão especial no Auditório do Ibirapuera e seu diretor, Robert Eggers, ministrará masterclass aos interessados.

O júri oficial da Mostra contará com a atriz e cineasta Maria de Medeiros (“Capitães de Abril”), a produtora executiva Xênia Maingot (“Dogville”, “A Mulher sem Cabeça”) e o diretor e roteirista argentino Lisandro Alonso (“La Libertad”). Eles escolherão o vencedor da competição de Novos Diretores. Outros júris têm espaço na Mostra: o da Abraccine (Prêmio da Crítica) ao melhor filme brasileiro de novo diretor, Prêmio da Crítica ao melhor filme estrangeiro e ao melhor brasileiro (independente de quantos filmes o autor tenha realizado), Prêmio do Público ao melhor filme (brasileiro e internacional) e Prêmio do Instituto Olga Rabinovich – Projeto Paradiso (Bolsa para o melhor filme brasileiro em processo de preparação).

42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Data: 17 a 30 de outubro

Local: em 34 salas de 28 locais de exibição (Espaço Itaú Frei Caneca, Cinearte, CineSesc, Espaço Itaú Augusta, IMS Paulista, CineSala, Cinemateca Brasileira, Auditório Ibirapuera, Itaú Cultural, MIS, Petra Belas Artes, Reserva Cultural, Spcine Olido, Spcine Paulo Emílio e Lima Barreto, ambas no CCSP-Vergueiro): nestas salas, com venda de ingressos. Com sessões gratuitas: Theatro Municipal, Sesc Belenzinho, Sesc Campo Limpo, Sesc Osasco, Masp-Vão Livre, Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes e cinco CEUS (Aricanduva, Caminho do Mar, Meninos, Vila Atlântica e Jaçanã). Com extensão em Campinas, no Instituto CPFL (Sala Umuarama) e em 12 cidades do interior e litoral paulista, na “Itinerância CineSesc”.

Permanentes para o festival podem ser adquiridas na Central da Mostra, no Conjunto Nacional: permanente integral (R$500,00), pacote com 40 ingressos (R$374,00), com 20 ingressos (R$220,00). Ingressos individuais: R$20,00, a inteira, e R$10,00, a meia.

*Este conteúdo foi publicado originalmente na Revista de Cinema

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