Cinema

Mulheres - de rua e de ferrovia

O francês 'As Invisíveis' e o azerbaijano 'De Quem é o Sutiã?' procuram a graça na compaixão e na sedução

21/02/2020 09:42

 

 

A graça de ajudar

Numa cena de O Paraíso Deve Ser Aqui, uma ambulância estaciona junto a um morador de rua e lhe serve uma refeição com escolhas num menu variado. Elia Suleiman usava da sátira, mas não deixava de refletir a qualidade invejável da assistência francesa aos clochards. O sistema real, contudo, não admite paternalismo. O amparo visa a rápida reintegração das pessoas no meio social. As Invisíveis (Les Invisibles) conta a história de um centro de acolhimento diurno de mulheres que não consegue atingir esses objetivos com a rapidez desejável. Por isso está ameaçado de fechar.

A simpática comédia de Louis-Julien Petit, adaptada de livro de Claire Lajeunie, trata da distância fundamental entre a assistência burocrática encampada pelo estado e a empatia humana existente entre um grupo de voluntárias e suas assistidas. Juntas, elas improvisam um programa expresso de reintegração, que consiste em descobrir a vocação de cada sem-teto e tentar colocá-las no mercado de trabalho – e eventualmente na rota de um romance.

Os workshops e sessões de psicodrama dão margem a situações e diálogos hilários, sem medo de agenciar as excentricidades das personagens. Descobre-se, então, a graça de ajudar e ser ajudado. É possível encontrar humor até na compaixão. Com a particularidade que, no mesmo processo, também as voluntárias conseguem algum refrigério para suas carências. Mas quando tudo se encaminha para o modelo do feel good movie, eis que a dureza da realidade se impõe.

Grande parte do apelo do filme vem do casting excepcional e da direção inspirada, que reúne e nivela atrizes profissionais e ex-moradoras de rua de meia idade. As personagens dessas últimas atendem por apelidos como Brigitte Bardot, Edith Piaf e La Cicciolina. Elas são invisíveis para a sociedade, mas aqui, mediante um relooking e a redescoberta de suas potencialidades, se revelam mulheres apreciáveis.



Cinderela do Azerbaijão

A crer na comédia De Quem é o Sutiã? (The Bra), as mulheres do Azerbaijão são todas lindas e adoram sutiãs enormes, talvez típicos do Leste europeu. Um deles, estendido para secar na linha férrea que corta um subúrbio de Baku, fica preso na locomotiva e dá início a uma nova versão da Cinderela, dessa vez sem um príncipe encantado. O veterano maquinista está se aposentando e, um tanto por senso de dever, outro tanto por um fetiche de homem solitário, resolve procurar a dona da peça.



Os mais idosos aqui talvez se lembrem dos filmes do holandês Jos Stelling (O Ilusionista, O Homem da Linha), contos absurdos narrados sem diálogos. O diretor alemão Veit Helmer também abre mão das falas, embora, ao contrário de Stelling, não crie uma realidade paralela. Seus personagens são gente comum vivendo em ambiente realista de mulheres submetidas a maridos possessivos. A exceção está no aprendiz de maquinista, interpretado com veia clownesca por Denis Lavant.

A procura do busto que se enquadre no tal sutiã azul desperta reações ora de repúdio, ora de fascinação por um objeto de desejo. Helmer cria algumas gags divertidas em torno da sedução e tira bom partido do cenário natural, mas a graça de sua ideia não se sustenta por muito tempo, caindo na repetição e na obviedade. Quando o trem passava pela enésima vez pela rua estreita do bairro e o maquinista batia na enésima porta, eu já não estava mais interessado em saber a quem, afinal, pertencia a avantajada lingerie.



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