Cinema

Mulheres empoderadas e mães em apuros

 

13/03/2018 11:55

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Créditos da foto: Divulgação

 
Entre os lançamentos cinematográficos desta semana, que chegaram justamente no Dia Internacional da Mulher, dois temas se agigantam: o empoderamento feminino e os caminhos e descaminhos da maternidade.

No primeiro tema se encaixam dois filmes tão diferentes quanto a água dos rios e o vinho francês. Encantados, novo filme da brasileira Tizuka Yamasaki, conta a história real (ok, um tanto romantizada) da pajé Zeneida Lima, hoje com 83 anos. É dela o livro O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, em que o filme se baseia. Ela conta história da sua meninice, quando a família teve que trocar Belém por uma fazenda na Ilha de Marajó. Lá os espíritos da floresta vão fazer aflorar em Zeneida (Carolina Oliveira) o destino de ser pajé. Institui-se, então, um duelo entre o racionalismo dos pais e os apelos mágicos da natureza, cujas leis Zeneida começa a desafiar.

A ascendência indígena e a predestinação da garota são mais fortes que todos os conselhos de prudência e a brutalidade dos homens "normais". São os espíritos da floresta que a protegem de uma tentativa de estupro por um capataz do seu pai.

A determinação de Zeneida em assumir sua espiritualidade é animada também pelos encontros com um homem-cobra chamado Antonio (Thiago Martins), ente lendário da tradição caruana de Marajó.

Se o clássico Ele, o Boto, de Walter Lima Jr., centrava o foco na figura masculina e seus poderes de sedução, Encantados tem o homem-cobra Antonio apenas como elemento detonador do que se passa com Zeneida. A menina é capaz até de apontar uma arma para o pai a fim de afastá-lo do seu caminho de predestinada.

O filme de Tizuka pode ser visto como a história do surgimento de uma super-heroína brasileira, empoderada pelo misticismo da floresta. Mas é também uma curiosa introdução a uma mitologia cabocla pouco conhecida. A mítica caruana compreende desde uma narrativa da criação do mundo e do povo Auí até a aparição dos seres da água, encarregados de auxiliar os seres da terra e transmitir os poderes da cura. Encantados resume essa lenda com um olho na plateia adolescente e outro no público de televisão. Alguns têm chamado o filme de "A Forma da Água" brasileiro.

Outro filme sobre empoderamento feminino é o francês A Número Um, de Tonie Marshall, única mulher já premiada com o César de melhor direção (por Instituto de Beleza Vênus). Tonie conta aqui as batalhas de uma executiva francesa para conquistar a presidência de uma gigante multinacional. Emmanuelle quer chegar lá sem compactuar com o machismo reinante no meio, nem com o militarismo de um clube de empresárias feministas que lança sua candidatura como um trunfo. "Estou cansada de jogar a carta de ser mulher", diz ela em dado momento.


Cena de "A Número Um" - Foto: Divulgação

Obviamente, Emmanuelle terá que enfrentar ameaças, chantagens, blefes, misoginia, paternalismo, tentativas de assédio, guerra de dossiês e até a oposição do pai e do marido. Terá, principalmente, que colocar em xeque alguns de seus princípios.

Tonie Marshall é crítica em relação a todos os lados em jogo, basta ver a relação mantida por uma executiva empoderadíssima com um colega podre de empáfia masculina. A diretora só não é crítica no trato com a sua própria escrita cinematográfica. A NÚMERO UM é aquele tipo de filme que, em lugar de tirar sua pauta da história que conta, faz o inverso: tenta extrair história de uma pauta pré-concebida. Assim, ficamos com uma série de esquetes armados para discutir cada tópico, separados por uma infinidade de tomadas dos imensos prédios da área parisiense de La Defense. Para quem curte a aridez do business, pode ser um negócio da China. Para os demais, resta pouco além da competência e da elegância da atriz Emmanuelle Devos. 

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"O Filho Uruguaio", de Olivier Peyon - Divulgação

Já o também francês O Filho Uruguaio e o argentino Uma Espécie de Família colocam em cena casos extremos de maternidade em xeque. No primeiro, a atriz Isabelle Carré é uma francesa que chega a Montevidéu junto com um assistente social para sequestrar o filho que não vê há quatro anos e fora roubado pelo pai, agora já morto. A ansiedade e o nervosismo de Sylvie contrastam com a tranquilidade do lugar.

O filme de Olivier Peyon adia sucessivamente a difícil aproximação entre mãe e filho enquanto desenha um quadro de enganos, carências e sublimações. Para o pequeno Felipe – que parece exercer uma especial atração sobre sequestradores –, trata-se de escolher entre a felicidade numa situação falsa e a disponibilidade para o desconhecido. A simples e tocante cena final compensa uma certa trivialidade que perpassa o filme.

Demoramos a nos conectar com o drama de Sylvie porque as razões são administradas com excessiva parcimônia no roteiro. A figura de Mehdi, o assistente social de origem árabe, é a mais interessante de se acompanhar. Sua posição intermediária o torna uma espécie de consciência em ação. É bonita a sutileza com que ele se relaciona e se afeiçoa ao que não lhe diz respeito diretamente. No fundo, esse é um modesto e cálido estudo sobre compreender as razões dos outros.

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Uma Espécie de Família, de Diego Lerman - Foto: Divulgação

Uma Espécie de Família, do portenho Diego Lerman, também gira em torno de uma mãe aflita para ficar com o filho. Mas aqui se trata de uma adoção. Malena (Bárbara Lennie) chega a uma cidade do interior em cima da hora para assistir ao parto da criança que vai adotar. Tudo estava previamente acertado, mas Malena não sabia que lidava com uma máfia de extorsão e um esquema ilegal de adoção.

O drama, então, se converte num thriller de fuga com direito a suspense na estrada e envolvimento policial. O desequilíbrio de Malena, causado por um trauma de culpa e uma ansiedade maternal exacerbada, arriscam botar o filme na rota perigosa do implausível. Mas felizmente o bom senso se impõe e aponta o caminho de uma bonita parábola sobre diferentes faces do amor materno. Na renúncia ou na aceitação. Chamo atenção para o desempenho da atriz amadora Yanina Ávila no papel da mãe biológica, um primor de adequação e aparente maturidade.

Outras estreias da semana que vale a pena prestigiar são os documentários Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, perfil biográfico de um poeta cercado de morte (suicidou-se aos 28 anos), e Claudio Santoro – O Homem e Sua Música. Ambos os personagens representam a transgressão, cada um a seu modo. Torquato pelo desassombro de sua poesia vanguardista e sua postura tropicalista; Santoro pela posição de esquerda durante a ditadura civil-militar, o que lhe privou de oportunidades e lhe custou muitos anos de exílio na Alemanha. Santoro trabalhou como um operário da música e morreu no palco, durante um ensaio em Brasília, sua última morada.

No lado oposto do espectro político está 15h17 – Trem para Paris, mais uma demonstração do reacionarismo de Clint Eastwood. Narrando o episódio real de três jovens americanos que tiveram papel decisivo (mas não só eles) na obstrução de um ataque terrorista a bordo de um trem, Clint faz o elogio das armas, do heroísmo e do civismo à americana no bojo de um filme extremamente medíocre e aborrecido.





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