Cinema

Música ao Norte

Amazônia Groove é uma belíssima introdução à música da região amazônica e um respiro de energia boa para um país enfermo

06/06/2019 10:58

 

 
Ela vem do movimento das águas, do canto dos pássaros, dos espíritos da floresta. Ou simplesmente da picardia de uma Gina Lobrista, que vende seus CDs no Mercado Ver-o-Peso montada em beleza e simpatia. A música do Norte é a estrela de Amazônia Groove, o delicioso documentário de Bruno Murtinho, feito em parceria com o músico paraense Marco André, argumentista e diretor musical do filme.

Que eu saiba, o Sudeste não costuma dar muita atenção à música da região amazônica, estigmatizada como regional. No entanto, os ritmos e padrões musicais ali apresentam uma riquíssima mescla de heranças indígenas, caribenhas e da América hispânica, a par de outras correntes ligadas ao pop e ao funk. Amazônia Groove é uma bela introdução a essa diversidade.

Bela em muitos sentidos. Musicalmente, pela alternância de exemplos de excelência que vão do canto rústico de Mestre Damasceno, compositor cego do Marajó ("vou por aí distraindo a tristeza"), ao requinte do violão de Sebastião Tapajós; do "treme" e da "pressão" da aparelhagem de Waldo Squash à suntuosidade da orquestra de Albery Albuquerque devolvendo à Natureza a composição feita a partir do canto do sabiá; do "carimbó chamegado" de Dona Onete à sensualidade da canção de Paulo André Barata. E outros mais.



Bela sonoramente na captação de som direto de Samuel Braga e visualmente na fotografia excepcional de Jacques Cheuiche, que tem aqui um de seus trabalhos mais sofisticados em termos de construção de imagens externas. Imagens calorosas e permeáveis às cores tropicais do Norte. O virtuosístico plano inicial surpreende pelo caráter praticamente anfíbio. Algumas composições visuais potencializam magnificamente o discurso dos personagens e do próprio filme, que é no sentido de integrá-los à paisagem da região.

É curioso ver, no módulo dedicado à mística Dona Onete, um possível diálogo com Santo Forte, de Eduardo Coutinho, que, embora não tenha sido fotografado por Cheuiche, certamente impregnou-se em sua memória artística.

Sem disfarçar sua estrutura de portifólio da música amazônica, o filme contagia pela qualidade do que se vê e se ouve, de ponta a ponta. Pode-se discutir a necessidade de alguns poucos depoimentos professorais que não acrescentam grande coisa e soam como intrusos. No mais, é só prazer e, para muitos, descoberta.

Além de tudo, é um passeio por um Brasil fervoroso, alheio aos péssimos fluidos que vêm corrompendo a alma de grande parte do nosso povo nos últimos anos. A Amazônia, com suas águas grandes e sua música vasta, é também uma reserva de energia boa para um país enfermo.


 



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