Cinema

Na TV, os bastidores de maio 68 em Paris

 

10/05/2018 12:36

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Créditos da foto: Reprodução

 
Uma grata surpresa, o documentário de uma hora e meia, Mai 68 – les coulisses de la révolte (Maio de 68 – os bastidores da revolta) que está sendo exibido esta semana pelo Canal Cinco, de língua francesa, para a América Latina. No Brasil, o Canal 204.*

Excelente, a qualidade dos filmes de época recuperados, com imagens das célebres sequências da revolta estudantil se agigantando pelas ruas de Paris, as semanas intensas que se seguiram, as greves que eclodiram, e vários filmes domésticos restaurados com sucesso.

Para alguns, um período que marca uma ruptura na história do século vinte, movimento libertário inspirado em sua origem pelo anarquismo, uma revolução típica contra o capitalismo, contra o consumismo e contra a educação elitista. A certa altura a questão posta nas discussões era esta: os operários na universidade ou os estudantes nas fábricas?

Na contramão da cultura bem comportada, o estabelecimento de uma contracultura poderosa, que deixou marcas profundas e referenciou toda uma geração de mulheres e de homens. A luta contra preceitos e preconceitos conservadores de um pós-guerra europeu prolongado em caretice e conformidade e uma abordagem existencial livre.

Para outros, para os que teimam em uma revisão pueril e superficial dos fatos, maio de 68 em Paris teria sido ‘’apenas’’ um protesto comportamental.

O doc sobre os bastidores de maio 68 é obra do jornalista Patrice Duhamel, que também faz a sua narração. Foi dirigido por Emmanuel Amara. Começa com as primeiras reuniões e protestos de estudantes da Faculdade de Nanterre, nos arredores de Paris, no inicio do mês de maio de 1968 e termina no dia 30, com a gigantesca manifestação histórica pró De Gaulle que paralisou Paris.

O filme é pontuado por inúmeros testemunhos atuais – do então estudante Daniel Cohn-Bendit (apelidado de Dany le Rouge), de diversos jornalistas das rádios da periferia que cobriam os eventos, e do neto de De Gaulle, de uma filha de Pompidou e de alguns descendentes dos personagens políticos que foram, depois, protagonistas da história da Quinta República francesa: Georges Pompidou, Valéry Giscard d’Estaing, Jacques Chirac. O jovem François Mitterrand aparecendo em certas imagens.

Nos bastidores do Palácio do Elysée, as birras e a queda de braço entre De Gaulle e Pompidou, que sempre se detestaram (anota o narrador). O presidente-general cada vez mais perdido e hesitante com o desenvolvimento dos acontecimentos. De Gaulle, o herói que teria sabido fazer a guerra contra os alemães, não percebia agora como lutar contra os estudantes franceses; é outra observação do narrador.

Por outro lado, o premier Georges Pompidou, negociador tarimbado, planejando ganhar tempo com o desgaste dos movimentos estudantis e pretendendo conversar com todos, todo o tempo da primeira fase do chienlit. Ou ambicionando desgastar o presidente...

Na primeira fase das revoltas, vê-se a rua. O deslocamento dos estudantes que saem de Nanterre, (a faculdade tinha sido fechada) e se dirigem para o assalto às ruas parisienses.

Na segunda fase, ‘’o reino da utopia’’. É proibido proibir. A Sorbonne e o Teatro Odeon ocupados, o Boulevard Saint Germain devastado com as batalhas entre polícia e manifestantes e a entrada dos intelectuais no movimento.  Truffaut, Godard, Sartre, Simone de Beauvoir. No Elysée, contam testemunhas, o general de Gaulle hesita, vaga cabisbaixo, cada vez mais triste, silencioso, e se sentindo humilhado.

A terceira fase dos protestos ganha corpo e uma consistência imprevista com a aliança dos estudantes com a CGT e os sindicatos. Explode a greve geral. É o ‘’maio social’’. Os operários franceses desfilam pelas ruas e ganham apoio e forte legitimidade.

Nesse ponto, fala-se na ‘’queda das elites’’ que se mostram desnorteadas. O país parece que está prestes a desmoronar. A anarquia se instala. São dez milhões de operários parados, bloqueando a economia do país.

É o episódio que marca o início da mudança da opinião pública até então com os jovens insurgentes. O momento esperado pacientemente por Pompidou, quando os protestos e o quebra-quebra, as bombas de gás lacrimogêneo e os enfrentamentos entre polícia e manifestantes atravessam as pontes do rio e espalham-se pelas ruas da burguesa margem direita do Sena.

O jovem Jacques Chirac, então alto funcionário do Ministério do Trabalho, é o intermediário entre a CGT e o governo. Trabalha, discretamente, para romper os acordos entre estudantes, líderes sindicais e comunistas e quebra a frente sindicalista.

No final, o documentário da TV Monde traz imagens históricas e nem tão conhecidas, do episódio em que De Gaulle, às escondidas e sem avisar o governo, viaja com a família, em dois helicópteros, para a cidade de Baden-Baden, na Alemanha, onde se encontravam aquarteladas tropas francesas sob o comando de seu grande amigo, o general Jacques Massu. O mesmo da Batalha de Argel, que é seu companheiro de toda a vida, herói de guerra e na casa de quem o presidente, aos 78 anos, busca refúgio e, sobretudo, conselhos sobre a situação.

Assim como no filme que Godard estrearia, anos depois, intitulado Tout va Bien, depois da conversa de hora e meia com o amigo Massu (ele é testemunha no filme), De Gaulle decide voltar para a França, para Colombey-les-Deux-Églises, sua casa no campo. Dias depois se dirige à nação em triunfal pronunciamento pelo rádio.

Tout va bien novamente. A normalidade se instalaria outra vez em Paris e na França. Mas as marcas deixadas por maio de 1968 em todas e todos que viveram intensamente aquele período, foram bem mais profundas que uma mera mudança de comportamento de meninos mimados de classe média.

* Este documentário será exibido novamente sábado próximo, dia 12 de maio, às 00:04 horas.





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