Cinema

Na corrida pelo Oscar do real

Comentários críticos sobre 13 dos 15 semifinalistas ao Oscar de melhor documentário de longa-metragem

12/01/2020 14:15

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Hoje saem as indicações para o Oscar 2020. Na categoria dos documentários de longa-metragem, a concorrência é forte entre pelo menos sete dos 15 integrantes da shortlist já divulgada. Meu palpite é que os indicados estarão entre os seguintes títulos: For Sama, Honeyland, Apollo 11, One Child Nation, Democracia em Vertigem, Indústria Americana e Midnight Family.

Os links abaixo levam até os meus comentários sobre cada um dos 13 filmes a que consegui assistir até agora. A maioria encontra-se neste mesmo artigo; outros estão em matérias já publicadas em Carta Maior. Faltaram-me The Biggest Little Farm e Maiden, que presumo terem chances menores na disputa.

* Advocate
* Apollo 11

* Aquarela
* Democracia em Vertigem
* For Sama
* Honeyland
* Indústria Americana
* Midnight Family
* One Child Nation
* Privacidade Hackeada
* The Apollo
* The Cave
* Virando a Mesa do Poder

ADVOCATE



Traidora, demônio, esquerdista, advogada do diabo – eis alguns qualificativos atribuídos por israelenses à conterrânea Lea Tsemel. Ela tem sido a mais célebre defensora de réus palestinos em Israel pelos últimos 50 anos. O documentário ADVOCATE, de Rachel Leah Jones e Philippe Bellaiche, faz um perfil dessa mulher destemida, perseverante e às vezes virtuosamente áspera. Remonta a sua juventude como voluntária na guerra dos Seis Dias, em 1967, quando então ainda acreditava que Israel fazia "uma guerra pela paz".

A decepção não demorou a chegar, e Lea passou para a oposição e integrou a Matzpen, organização socialista e revolucionária. Depois de formada, começou a defender acusados de terrorismo, convencida de que a luta contra a ocupação israelense se justificava pelos meios que estivessem ao alcance dos palestinos. O filme recorda algumas de suas atuações e pequenas vitórias, que ficavam grandes perante as chances mínimas de justiça para os palestinos na justiça israelense. Seu primeiro caso, aliás, foi a defesa de um grupo de judeus acusados de colaborarem com a resistência árabe. Uma grande façanha foi conseguir que a Corte Suprema proibisse "métodos especiais de interrogatório" (leia-se tortura) em nome da segurança nacional – proibição que na prática não prevaleceu.

Lea é documentada enquanto trabalha em dois casos emblemáticos: uma mulher palestina que fez explodir um carro no centro de Jerusalém e um menino de 13 anos acusado de esfaquear dois adolescentes israelenses. Enquanto duram os processos, acompanhamos as táticas de Lea na defensoria e suas reflexões sobre um trabalho que a coloca na contracorrente da opinião pública e oficial de Israel.

O filme é eficaz como retrato de uma brava mulher, apesar de avançar pouco além do campo profissional e político. A identidade dos réus é protegida por meio de uma espécie de solarização de suas imagens, o que confere um certo ar de animação, sem prejudicar a fluência das cenas captadas de improviso. (Voltar para a lista)

APOLO 11



APOLO 11
chegou aos cinemas americanos em junho do ano passado, por encomenda da CNN, marcando os 50 anos da efeméride. O diretor Todd Douglas Miller tinha no currículo um curta sobre a missão Apollo 17 e o longa Dinosaur 13 – o que faz dele, como o nosso Silvio Da-Rin, um especialista em títulos numéricos. A NASA confiou-lhe seu acervo audiovisual, em grande parte nunca exibido publicamente. O resultado é uma síntese espetacular do voo que levou o primeiro homem à Lua.

Acompanhamos desde os últimos preparativos da nave e dos três astronautas, as imensas expectativas com a decolagem, inclusive o vazamento de uma válvula no último minuto, e as multidões que foram às proximidades para ver o lançamento ao vivo. O pouso no Mar da Tranquilidade ganha imagens em cores e resolução muito superior à que estávamos acostumados, por obra de restauração digital. O passeio de Armstrong e Aldrin na superfície lunar é revisto em detalhes como nunca antes. E a emoção só cresce com o retorno do trio à atmosfera e, após o período de descontaminação, à convivência com seus pares.

Surpreende, antes de mais nada, a quantidade de câmeras que registraram toda a missão em diversos ângulos e promenores. O próprio Miller editou o material em ordem cronológica, sem qualquer acréscimo além de música e alguns gráficos. Tudo o que vemos e ouvimos é material original, combinação de imagens com áudios da nave e do centro de controle em Houston. É a simples montagem que restitui a dramaticidade e o entusiasmo do evento, passando até pelo monitoramento da frequência cardíaca dos astronautas.

A qualidade da restauração das filmagens de 1969 (algumas em 70 milímetros!) é tal que, vez por outra, temos a sensação de estar vendo cenas de pura ficção científica. Um exemplo é a reacoplagem do módulo lunar com a nave Columbia para a volta à Terra, quando Miller junta as duas peças numa mesma tela, como se ambas estivessem sendo filmadas de um terceiro e impossível ponto de vista, como num balé de 2001, Uma Odisseia no Espaço.

Por mais que tantos filmes já tenham sido feitos sobre aquela viagem, nada pode soar mais autêntico e absorvente que a grandiosa simplicidade desse documentário. (Voltar para a lista)

AQUARELA



AQUARELA
, a sinfonia épica de Victor Kossakovsky, se divide em três grandes movimentos: gelo, ondas e catástrofes. No primeiro, assistimos ao penoso resgate de um carro sob a camada de gelo do Lago Baikal, na Sibéria. Só depois disso o diretor nos mostra o momento em que o carro é engolido pelo lago, com a trágica consequência de um passageiro afogado. Grandes muralhas de gelo desabando na Groenlândia e icebergs submersos complementam o movimento.

Kossakovsky passa, então, do sólido ao líquido, colocando-nos a flutuar sobre ondas gigantescas e explorando as variações de cor, forma e volume da superfície do mar. Um barco que vence as vagas gigantescas do Atlântico parece recordar lendárias sagas marítimas. Por fim, no terceiro movimento, passeamos em meio a uma cidade e um cemitério inundados, um furacão e o transbordamento de uma represa na Califórnia.

O documentário é mais contemplativo do que acautelatório sobre os desastres que a água reserva aos homens. Estes, por sinal, são presenças residuais nas paisagens filmadas, uma vez que o diretor russo, como de hábito, se interessa mais pelas potencialidades cinematográficas do que pelo aspecto social das realidades que aborda. Em Vivam os Antípodas!, por exemplo, ele registrou cenas em oito locais antípodas no planeta em busca da "linha invisível" que os ligaria apesar da distância fenomenal.

Há um bocado de bravura fílmica em AQUARELA. O intrépido Kossakovsky e seu colega de câmera Ben Bernhard, coadjuvados por helicópteros e drones, fizeram tomadas de grande beleza (muitas a 96 quadros por segundo para explorar detalhes do movimento) e muita coragem. Uma delas é um travelling numa rua deserta de Miami Beach em meio à fúria do furacão Irma. No Lago Baikal, a equipe corria os mesmos riscos que os acidentados e a equipe de resgate sobre a camada fina de gelo.

Dedicado a Alexander Sokurov, o filme lembra mais a Trilogia Qatsi, especialmente quando a música se alia às imagens, muito embora sem as intenções místico-antropológicas de Godfrey Reggio. Aqui e ali, Kossakovsky demonstra complacência com suas grandiosas imagens e se estende além da conta, podendo levar ao aborrecimento. De qualquer maneira, é uma experiência audiovisual impressionante para ser desfrutada na maior tela possível. (Voltar para a lista)

FOR SAMA



As imagens mais antigas que vemos em FOR SAMA são de 2012, quando estourou a revolta contra o ditador Bashar Al-Assad em Aleppo, norte da Síria. A jovem jornalista Waad Al-Kateab filmava a revolução na esperança de vê-la vitoriosa. Seguiu filmando quando as forças do regime reagiram e iniciaram uma série de bombardeios sobre Aleppo, culminando com o cerco que destruiu rapidamente a cidade. Nesse período, em plena guerra, Waad casou-se com o médico amigo Hamza e tiveram uma menina, Sama, a quem o filme é dedicado como carta de uma mãe que busca a compreensão da filha no futuro.

O filme, finalizado em conjunto com Edward Watts, é extraordinário por diversas razões. Antes de mais nada, pelo sangue frio de Waad em persistir no registro de sucessivos massacres. Ela e Hamza criaram um hospital de emergência, que seria bombardeado e reconstruído em outro local até ficar sendo o único de pé na cidade. A câmera não nos poupa da visão dantesca de feridos e moribundos chegando às centenas por dia no auge de um cerco que mirava também escolas e hospitais.

Em dado momento, Waad se dirige à filha, ainda bebê, para perguntar se ela vai perdoá-la por tê-la exposto a tantos perigos, enquanto muitos trocavam Aleppo pelo exílio. É o que nos perguntamos também diante de uma persistência que chega à fronteira da irresponsabilidade. Mas Waad e Hamza tinham uma missão: denunciar o horror ao mundo e tentar salvar o máximo possível de vidas, mesmo pondo em risco as suas próprias e da filha.

Entre o hospital, a casa e as ruas devastadas, FOR SAMA expõe ainda a intimidade da vida sob ataque. O pânico dos mísseis, as carências básicas de alimentação, água e eletricidade, as crianças brincando com os destroços e os momentos de relaxamento, quando os adultos se permitiam rir e fazer piada com a desgraça. Waad e Hamza, assim como a família dos seus melhores amigos, são pessoas do bem e de alto astral, o que torna ainda mais selvagem o contraste com a guerra.

A pequena Sama, testemunha muda e inocente, faz com que o olhar da mãe-cineasta se interesse especialmente pelo destino das crianças na guerra. Este é o foco mais dramático e incisivo: crianças morrem diante de sua câmera, outras choram os irmãos mortos, outras são salvas milagrosamente ou simplesmente expõem no rosto o supremo pavor que se segue a um massacre. No limite do dramaticamente suportável, este documentário se junta a outros que entram para a história do cinema com a marca trágica de Aleppo. (Voltar para a lista)

HONEYLAND



Um dos fortes candidatos à indicação para o Oscar de documentário, HONEYLAND tem despertado indagações sobre seu estatuto de “filme do real”. Na verdade, trata-se de um híbrido. De um lado, é um documentário bastante planejado e filmado com cuidados mais comuns em filmes de ficção: construção de cenas em campo e contracampo, iluminação pictórica de interiores, sequências visivelmente encenadas. De outro, alimenta-se no favo de um cotidiano captado com legitimidade evidente.

Afinal, questões como essas tornaram-se irrelevantes desde que Flaherty filmou Nanook, o primeiro grande híbrido. Dali em diante, acumularam-se experiências nessa fronteira, bastando lembrar A Alma do Osso, de Cao Guimarães, ou os documentários de “realidade inventada” do dinamarquês Jon Bang Carlsen.

HONEYLAND, de Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov, enfoca a rotina rústica de Hatidze Muratova, uma apicultora das montanhas da Macedônia do Norte que vive da venda do seu apreciado mel no mercado de Skopje, a capital. Um belo dia ela vê seu santuário natural ser invadido por uma família de apicultores gananciosos.

A dinâmica do filme se instala no contraste entre, de um lado, a solidão de Hatidze e sua velha mãe enferma, seu trato carinhoso e harmônico com a natureza das colmeias; e, de outro, a algaravia grosseira da família nômade, sua imprudência e comportamento predatório. A princípio, a boa mulher estabelece um vínculo de solidariedade e simpatia, especialmente com as crianças. Mas a interferência danosa dos novos vizinhos vai ameaçar a convivência.

HONEYLAND é uma parábola cativante sobre os vínculos profundos e sustentáveis do homem com a Natureza, em oposição à mentalidade puramente extrativista. Ao mesmo tempo, é o retrato de uma mulher isolada do mundo, mas cuja vida rudimentar não lhe retirou a doçura e o afeto. O último plano do filme nos revela que também os olhos de Hatidze têm a cor do mel. (Voltar para a lista)

INDÚSTRIA AMERICANA



Antes do crack de 2008 seria difícil imaginar o que vemos no documentário INDÚSTRIA AMERICANA (American Factory), em cartaz na Netflix. Operários americanos se humilhando perante patrões chineses, abrindo mão do poder sindical e sujeitando-se a salários pífios em troca de garantia no emprego. O cenário é a fábrica de vidro para automóveis Fuyao Glass America, aberta em 2015 no lugar de um fábrica GM fechada em 2008 em Dayton, Ohio. Grandes magnatas chineses têm investido pesado na indústria americana desde 2010.

Desfrutando de acesso privilegiado ao chão de fábricas, reuniões internas e celebrações corporativas, nos EUA e na China, os diretores Steven Bognar e Julia Reichert perfazem uma radiografia excepcional do choque de culturas e de modos de vida entre americanos e chineses, designados a trabalharem juntos na planta de Ohio. O filme acompanha também uma visita de operários americanos à Fuyao chinesa, onde testemunharam (alguns supostamente encantados) a retórica da moderna escravidão corporativa made in China. A empresa é decantada como família e virtualmente religião, em moldes que muito se assemelham ao culto político da Coreia do Norte. Enquanto isso, os operários trabalham em turnos de 12 horas, sem medidas de segurança, nem folgas semanais.

Perante o modelo chinês, os trabalhadores americanos são vistos como preguiçosos, falastrões e excessivamente folgados. A ideia de sindicalização é demonizada sem meias palavras. Em torno disso se desenrola boa parte do doc, na medida em que o sindicato tenta se estabelecer na Fuyao America. Uma revelação importante é a existência nos EUA de "consultorias antissindicais", contratadas pelos patrões para desestimular o engajamento dos empregados.

:: Sobre Indústria Americana, leia também: Na briga de chineses X americanos, o perdedor é o operário

Julia Reichert é tida como a madrinha do cinema independente americano, tendo já sido indicada três vezes ao Oscar de documentários. Ela e Steven Bognar colheram diversos ângulos dessa relação com grande senso de oportunidade e muita perícia na aproximação dos personagens. INDÚSTRIA AMERICANA revela uma nova face da famigerada globalização e anuncia seu recrudescimento com o avanço da automação e do consequente desemprego.

A importância do tema e, certamente, a reputação de Julia atraíram o interesse do casal Obama, que estreou com esse filme sua produtora Higher Ground. A Netflix exibe como bônus uma pequena conversa dos diretores com Michelle e Barack sobre o assunto. (Voltar para a lista)

MIDNIGHT FAMILY



Como uma ambulância zigezagueando no trânsito, somos levados a oscilar entre o riso e o nervosismo enquanto assistimos às aventuras da família Ochoa pelas ruas da Cidade do México. Fer Ochoa e seus dois filhos, mais eventuais auxiliares, dirigem uma ambulância privada em busca de acidentados e vítimas de violência na noite da capital mexicana. Durante algumas semanas de 2017 tiveram a companhia de Luke Lorentzen, diretor e cinegrafista de MIDNIGHT FAMILY.

Os Ochoa vivem intensamente as noites na rua. Descansam nas macas, improvisam refeições com fast food, o pequeno Josué brinca no asfalto deserto. A cada notificação de ocorrência, saem desabalados para chegar antes das ambulâncias concorrentes. As corridas são eletrizantes. A prefeitura da CDMX tinha somente cerca de 70 ambulâncias públicas em serviço, dando margem a toda uma indústria de similares privados em dura competição. Os Ochoa não parecem dar muita sorte, pois frequentemente atendem a pessoas pobres que não têm como pagar o socorro. Eles se limitam a lamentar e seguir em frente.

A ambiguidade moral fica clara, mas sem julgamentos. A "família meia-noite" leva pacientes para hospitais privados em troca de comissões. Seu veículo não atende aos requisitos burocráticos e por isso eles são constantemente visados por policiais, a quem precisam subornar. Por outro lado, é evidente o empenho em salvar vidas, assim como o desolamento quando isso não é possível.

Os dramas deles e das vítimas se alternam com os flagrantes divertidíssimos dos Ochoa na sua convivência diária. Discutem sem parar, tratam a ambulância como uma extensão de sua casa e dão um retrato delicioso do fairplay popular mexicano. Juan, o filho mais velho, é um ás do volante e da picardia adolescente. Não ficamos sabendo muita coisa da família durante o dia – nem sabemos quem seria a mãe dos garotos. Mas as noites não podiam ser mais febris do que em sua companhia. (Voltar para a lista)

ONE CHILD NATION



Nanfu é um prenome masculino na China, mas Nanfu Wang é uma mulher. Ela nasceu durante o período (1979 a 2015) em que na China vigorava a política do filho único. Seus pais queriam um menino, e por isso ela ficou com o prenome de homem. Inconformados, infringiram a lei e fizeram outra gravidez, da qual nasceu um garoto. Nanfu imigrou para os EUA ainda jovem e lá teve seu primeiro filho. Resolveu, então, junto com a parceira Jialing Zhang, fazer um documentário sobre o assunto.

ONE CHILD NATION parte da família de Nanfu e abre um leque de abordagens da época em que o estado chinês promovia o filho único através de propaganda maciça em todos os meios e não tolerava trangressões. Famílias eram perseguidas e tinham suas casas demolidas, mães eram submetidas a abortos e esterilização forçados, fiscais de "planejamento familiar" operavam nas cidades e aldeias à procura de infratores.

As cineastas colheram não somente depoimentos dolorosos de gente que lamenta ter participado do programa, como de pessoas que, como a própria mãe de Nanfu, continuam aprovando a restrição e alegando que ela salvou o país da fome e da destruição. "Era como uma guerra. Mortes eram inevitáveis", avalia uma ex-agente do governo.

Os subterrâneos dessa "guerra populacional" são desevendados por vários ângulos no filme. Uma parteira que praticou milhares de abortos e esterilizações confessa seu remorso diante da câmera e mostra que depois se dedicaria a casos de infertilidade para compensar seus feitos pregressos. Um fotógrafo e artista plástico, escondido em Hong-Kong, comenta sua obra dedicada aos fetos jogados no lixo comum de sua cidade.

Nascer mulher, como Nanfu, era uma maldição, pois a tradição chinesa julga que só os homens podem levar adiante o nome das famílias. Assim, meninas recém-nascidas eram abandonadas na rua ou nos mercados, muitas vezes para morrer. As que tinham mais sorte eram recolhidas por traficantes para vender a orfanatos estatais, que as revendiam à adoção internacional como órfãos. O filme conversa com uma família de traficantes e outra de americanos que adotaram meninas chinesas e hoje prestam um serviço de localização de pais biológicos para chineses adotados nos EUA.

A investigação ainda se desdobra em casos de corrupção governamental, nos quais o estado arrecadava com o próprio tráfico de crianças "ilegais" ou simplesmente abandonadas pelos pais. Trata-se de uma espécie de genocídio estatal, acompanhado da destruição de famílias, separação de irmãos (inclusive gêmeos) e repressão à maternidade. Nanfu não deixa de anotar a ironia de viver hoje nos EUA, onde o aborto é restringido. "Não é o oposto, mas duas formas de negar à mulher o controle dos seus corpos", diz.

A reflexão conclui da maneira mais íntegra possível um documentário exemplar como pesquisa, equilíbrio entre o pessoal e o geral, e sobriedade na condução de um assunto tão dramático. Um grande filme. (Voltar para a lista)

THE APOLLO



Louis Armstrong, Aretha Franklin, Ray Charles, Billie Holiday, James Brown, Gladys Knight and the Pips, Stevie Wonder, Ella Fitzgerald, Duke Ellington... É interminável a lista dos grandes artistas afro-americanos que despontaram no palco do Apollo Theatre, no Harlem nova-iorquino. Eles passam rapidamente pela tela em THE APOLLO, o documentário que celebra a história da celebérrima casa de espetáculos fundada em 1914.

Em tempos de segregação racial e violência contra os negros, o Apollo era onde eles se sentiam "em casa". Espaço de resistência cultural e promoção dos talentos black, ali surgiu o primeiro show de calouros do mundo, as Amateur Nights, que continuam a acontecer semanalmente até hoje. Jimi Hendrix foi o vencedor de uma delas em 1964. Quando os Beatles tentaram visitá-lo em sua primeira viagem aos EUA, foram desaconselhados por ser muito "perigoso". Até os anos 1980, brancos tinham medo de circular pelo Harlem.

O papel artístico e político do Apollo é relembrado num filme correto, mas pouco inventivo. Segue o padrão dos docs da TV pública americana, mas sem o talento de um Stanley Nelson. Arquivos de performances e depoimentos se alternam de maneira um tanto burocrática, apesar do valor intrínseco de cada um. As fichas de avaliação do proprietário Frank Schiffman, onde ele anotava suas impressões sobre os artistas, é um dos bons achados. Em compensação, as recentes leituras de preparação do espetáculo Between the World and Me, acompanhadas por discussões sobre a questão negra, quebram o ritmo e trazem um tanto de aridez ao filme.

O diretor Roger Rossi Williams fez um bom trabalho de pesquisa, mas subaproveitou um personagem importante, que é Billy Mitchel, o guardião da memória do Apollo, e largou pelo caminho o que parecia ser o seu mote inicial, o show do centenário de Ella.

O filme evita também colocar em debate o contexto de criminalidade do Harlem que levou ao declínio e fechamento do Apollo nos anos 1970. Nota-se um certo pudor em relação à imagem do bairro. O fato de que hoje é uma fundação integrada à máquina estatal e a ocupação pelo hip hop são mencionados como um destino natural da casa. A gente fica querendo ouvir mais sobre isso. (Voltar para a lista)

THE CAVE



Como For Sama, também semifinalista ao Oscar de documentário, THE CAVE se passa num hospital de emergência na guerra da Síria. Al-Ghouta, subúrbio de Damasco, era alvo constante de bombardeios de aviões russos durante os cinco anos em que esteve cercado pelas tropas de Bashar al-Assad. The Cave era o apelido de um hospital subterrâneo ligado a uma cadeia de túneis onde a população buscava refúgio. Com recursos mínimos, sem medicamentos e com alimentação racionada, um grupo de médicos e enfermeiros conseguiu salvar milhares de vidas, colocando as suas em risco permanente.

O filme é dirigido por Feras Fayyad, o mesmo do também impactante Últimos Homens em Aleppo (2017), que retratava o trabalho de um grupo de voluntários no resgate de vítimas da guerra naquela cidade. Agora Fayyad se aferra à Dra. Amani, a jovem frágil fisicamente, mas forte de espírito, que gerencia o hospital e três membros de sua equipe: o devotado Dr. Salim, que se desdobra em cirurgias ao som de música clássica no celular quando lhe falta anestesia; a cozinheira Samehr, expansiva quase sempre mas tomada de crises de pânico durante os bombardeios; e a doce enfermeira Alaa. Todos irmanados pelo senso de dever perante a tragédia de sua cidade.

Enquanto For Sama tinha sua narrativa organizada em primeira pessoa pela diretora e cinegrafista Waad al-Kateab, THE CAVE é menos pessoal e mais observacional. A direção força um pouco a construção do protagonismo em torno da Dra. Amani em cenas introspectivas que não soam lá muito legítimas e chega a imprimir um close dos olhos da moça à espera de uma lágrima. Apesar desses senões, o testemunho que Fayyad nos oferece do estresse e dos horrores da situação é inestimável. O desespero dos médicos quando veem que nada mais podem fazer pelos seus pacientes em estado terminal, incluindo tantas crianças, é coisa que toca profundamente a medula da nossa humanidade.

É preciso dizer também que nem todo mundo tem nervos fortes para suportar tal exposição de feridos e de casos extremos. Ao apegar-se à pura rotina do hospital, o doc concentra os momentos dolorosos e se torna repetitivo como a própria guerra. O uso de música espetaculosa na sequência do atendimento a vítimas de um ataque com armas químicas é como um projétil que deveria ter sido extirpado da carne do filme. (Voltar para a lista)



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