Cinema

Na estrada rumo à guerra

Documentário inglês 'The coming war on China' pretende quebrar o silêncio da mídia: China e EUA podem estar caminhando na direção de um conflito nuclear planejado

23/05/2021 13:18

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Para além da realidade das ameaças, desafios, insultos e da retórica agressiva que os governos dos dois estados mais poderosos da nossa época se trocam regularmente, as perguntas que o documentário The coming war on China*, de uma hora e cinquenta minutos, se faz é: quando haverá a guerra EUA versus China? Ela se aproxima? Será o pior conflito deste século? Ou o pior de todos os séculos?

No catálogo de plataformas digitais - YouTube e Amazon Prime Video - o filme tem sido acessado com interesse crescente. Ele relembra detalhes de ações dos governos americanos utilizando-se dos ilhéus, habitantes da região dos mares do Sul da China desde os anos 40 - as 23 Ilhas Marshall, o Atol de Biquini - transformando-as em cobaias para experiências com armas do seu arsenal nuclear.

Revela também, dando uma olhada antes, no século passado, e por meio de preciosos filmes de época, a competição acirrada na luta pela supremacia do poder planetário contra os chineses desde a época Mao-Tsé-Tung.

O documentário é sobre ''a paranóia e a beligerância militar preventiva no Pacífico'' como bem anotou o jornal The Guardian ao comentar o filme. É também sobre '' um perigo alternativo do século 21''.

Lançado em 2016 na televisão britânica, o seu roteirista, produtor e diretor é o experiente e conceituado jornalista australiano radicado na Grã-Bretanha, John Pilger, de 81 anos, também apresentador do doc.

Pilger foi correspondente em diversas guerras. Índia, Camboja, Biafra, Vietnã. Entre os seus mais conhecidos documentários, A guerra que você não vê, que é sobre o papel da mídia independente em situações de guerra, e Utopia, com o foco nos aborígenes da Austrália.

Nesse trabalho atual o premiado jornalista aposta no que a mídia reluta em revelar: ambos, a maior potência militar do mundo, e a China, segunda força econômica do planeta, já estariam na estrada em direção à guerra e de modo planejado.

No primeiro caso, americanos usam a Otan como braço armado para provocações nas fronteiras ocidentais da Rússia. E no Oriente, mais uma vez na História, o alvo é o que cunharam como o ''perigo amarelo''.



Áreas oceânicas ocupadas mostram um cinturão de bases militares e de navios de guerra estacionados no Mar do Sul da China apontando mísseis de bombardeio contra o país.

São impressionantes os mapas desenhados para o filme que mostram essa ação, Pivô para a Ásia, rotulada como ''operação de contenção''. É como a justificam alguns generais americanos entrevistados por Pilger.

As sequências do primeiro terço de The coming war, a partir da detonação do primeiro teste nuclear em Biquini, em 1946, são destinadas aos espectadores de estômago forte. Mostra sem complacência as consequências impressionantes das radiações nos ilhéus, mulheres, homens, jovens, crianças e bebês, através de gerações. Durante décadas serviram de cobaias na operação nuclear de ensaio contra o inimigo eleito.

Pilger comenta os 150 milhões de dólares de compensação que os ilhéus da região receberam, 40 anos depois, como reparo às 'perdas' sofridas.

Generais, escritores e congressistas de Washington conversam com o jornalista durante as outras quatro sequências (ou capítulos) do filme que rastreia a história da obsessão dos EUA pela China.

Alguns observam as diferenças existentes entre as culturas que opõem os dois países. A dos chineses, que nunca quiseram converter ninguém. E a dos ocidentais, que com suas raízes cristãs pregam a conversão.

Um senador americano comenta que ''a China, um dia, será o nosso grande inimigo.'' Outro, em filmete de 1960, assegura que '' o principal fator de desordem do mundo é a China''. Richard Nixon dá o xeque-mate: ''A China é a causa de todos os nossos problemas na Ásia''.

O discurso do Premio Nobel da Paz Barack Obama, anos atrás, anunciando comprometer trilhões de dólares para o arsenal nuclear americano é lembrado e a sua decisão de transferir para a Ásia e para o Pacífico quase dois terços de todas as forças navais dos EUA. Foi Obama quem batizou essa operação de Pivô para a Ásia (uma ''prioridade'', ele explica) que aponta suas armas para a China de hoje.

Longe de Pilger ser canhestro. Ele não aborda de modo maniqueísta a competição e as provocações decorrentes que cada vez mais se tornam possibilidades concretas de guerra nesse seu filme; um documento histórico. Não é crítico apenas dos governos dos Estados Unidos embora concentre a atenção neles - republicanos e democratas. Não poupa o regime chinês em relação a direitos humanos e exala um tom de reprovação (?) por exemplo, apesar do parecer paradoxal sobre a localização do Museu das Origens do Partido Comunista situado no quarteirão do luxo do centro de Pequim e rodeado por alguns símbolos do capitalismo: lojas de Evian, Dolce e Gabanna, Armani, Starbucks.

The coming war on China, realizado ao longo de dois anos, mostra até os vitupérios irresponsáveis de Donald Trump contra o país asiático visando seu público interno na campanha eleitoral. "Não podemos continuar permitindo que a China estupre nosso país'', mostra o doc. (Qualquer infeliz semelhança com os insultos do governo atual brasileiro não é apenas coincidência; aqui é burrice mesmo).

Quebrar o silêncio, diz John Pilger, é o objetivo desse filme que pretende denunciar dois países caminhando para uma guerra programada.

*A versão de The coming war on China é original. Legendas automáticas em português.





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