Cinema

Não olhe para a Constituição

Filme de ficção científica, mas assistido como documentário, 'Não olhe para cima' é o grande assunto cinematográfico deste começo de ano

05/01/2022 16:30

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
É um fenômeno compreensível que Não olhe para cima esteja estourando índices de assistência do streaming, no Brasil, nesse começo de verão de 2021. Alguém comentou, há dias, que o brasileiro acessa o filme do diretor estadunidense Adam McKay e o assiste como se fosse um documentário que retrata e sublinha, em tom de farsa e caricatura, a tragédia que estamos vivendo nesse país administrado pela inominável figura pinçada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro - onde fazia bons negócios milicianos -, e alçada a Brasília para destruir o país e negar tudo que convém ao seu marqueting; como aprendeu na cartilha de Steve Bannon.

Bingo.

Don't look up poderia ter o título de Não olhe para a Constituição, Não olhe para Nazaré das Farinhas, Não olhe para as famílias dormindo nas ruas, Não olhe para a miséria e a fome, Não olhe para a covid-19.

O filme de McKay, produzido como os anteriores pela Netflix, é mais uma distopia cinematográfica, de qualidade cinematográfica medíocre, sobre o fim do mundo e a extinção da humanidade. Nada de novo. Filmes sobre o Armageddon sempre foram ótimas fontes de lucro do cinema comercial. Impressionam e vendem-se bem.

Mas esse fim do mundo de McKay chega num momento especial de pandemia quando a figura da morte está impressa em corações, corpos e mentes das populações há dois anos, e há uma resistência cada vez mais organizada contra o movimento negacionista de manipuladores conduzindo descerebrados intoxicados pelo ultracapitalismo.

Como quase todos já sabem, o filme trata de um relato do momento em que dois cientistas descobrem um cometa de proporções assustadoras se dirigindo para explodir no nosso (?) planeta e dizimar a espécie humana dali a dois meses.

Os dois tentam alertar a Presidente da República dos Estados Unidos (Meryl Streep) para a chegada do Armageddon na certeza de que as autoridades de plantão vão tomar medidas urgentes a respeito.

Mas ambos (Leonardo di Caprio e Jennifer Lawrence) são envolvidos num dos pesados jogos políticos habituais, de bastidores, e se enredam nos podres interesses dos dirigentes do país e do mundo. Ou seja: políticos, militares, multimilionários - a caricatura de Elton Musk está no filme - e uma mídia submissa e desonesta.

A presidente Meryl Streep, numa versão Trump de saia e modelito capitão-do-planalto de Brasília, assume a negação à ciência e à tragédia anunciada, e arrasta a humanidade descerebrada, manipulada por ela, para um suicídio coletivo. Tudo muito esquemático e maniqueista.

Além do argumento de fim do mundo, que sempre fascina, o elenco estelar atrai grandes platéias. Leonardo Di Caprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Jonah Hill, Cate Blanchett, o indefectível Timothée Chalamet e Rob Morgan. No entanto, todos eles, inclusive Caprio e Meryl Streep estão duplamente artificiais. São artificiais dentro da artificialidade que seus papeis caricatos exigem.

(Niko Tavernise/Netflix)

 ''Nem um elenco cheio de medalhões é garantia de bons momentos em frente à tela, e nem mesmo a bombástica direção de McKay é capaz de sacudi-los pelos ombros",  escreveu a crítica Simran Hans , do The Observer. De acordo.

Mas atenção: há dois filmes anteriores de Adam McKay, excelentes e que foram cotados para receber oscars. Um deles, de 2016, é The Big Short - A grande aposta*. Cruza Economia política, a grande crise financeira de 2007/2008 com comédia dramática. Nele, um especialista em Economia diz: ''Até hoje a grande maioria das pessoas não entende o que ocorreu”. E um personagem lamenta: “As pessoas tendem a não pensar em coisas ruins e acham que coisas ruins nunca vão acontecer.”

A grande aposta foi comentado aqui, em Carta Maior
. Na sua resenha escrevemos: ''No fim do filme, algumas cifras informadas corroboram a sensação de que essa crise, para além de um desastre financeiro foi a de um estrondoso fracasso humano''.

E em Vice, de 2019,** uma corrosiva cinebiografia de 'Dick' Cheney, McKay mostra como o vice-presidente de Bush filho anunciou a chegada do ''tempo da malandragem na política rasteira''.

''O que mais impressiona, neste segundo sucesso político/comercial de Adam McKay'', diz a nossa resenha de Carta Maior desse filme baseado no livro de Richard Bruce, ''é que as mutretas de Wall Street adubaram a grande crise econômica de 2008. E impressiona a sua similitude com as transgressões, as raspadinhas, o deboche e as molecagens nas altas esferas do poder escancaradas na esfera Donald Trump e, no Brasil, na do capitão Jair Bolsonaro''.

Pena que o caminho de Não olhe para cima não tenha sido semelhante ao dos dois trabalhos anteriores de Adam Mckay. Comédias dramáticas (se não fossem tragédias) e não o arriscado gênero da ficção científica.

Mas há duas reflexões pertinentes  a esse Don't look up que provocam o espectador no filme A grande aposta. Uma, rabiscada num cartaz na parede de um bar de Washington frequentado por operadores da Bolsa e do mercado financeiro: ''Em geral, as pessoas odeiam a verdade; e a verdade é como a poesia''.

A outra, uma menção ao poeta japonês Murakami: ''No fundo do coração, todos nós esperamos o fim do mundo''.

A pergunta então, assistindo e pensando na trilogia de filmes de Adam McKay, pode ser esta: o fim do mundo já aconteceu ou o fracasso humano está ocorrendo aos poucos?

*A grande aposta: Como ganhar dinheiro à custa de oito milhões de empregos.

**Vice: O mundo boçal anunciado por Dick Cheney.







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