Cinema

Nas dobras do real

'Eleições' e 'Elegia de um Crime' são documentários potentes no que revelam sobre a política dos jovens e as tragédias de uma família

14/03/2019 13:43

 

 

Meninxs crescendo diante da câmera

A filmografia brasileira sobre processos eleitorais ganha um exemplar original e bem-sucedido com Eleições, documentário de Alice Riff. Câmeras plantadas na escola estadual Dr. Alarico Silveira, no bairro paulistano da Barra Funda, Alice acompanha a formação de quatro chapas e a campanha eleitoral do grêmio escolar.

O exercício da política se faz aí como uma extensão do dia-a-dia na escola e também como uma ruptura na rotina. Um dos candidatos chega a admitir que entrou na chapa para ter oportunidades de "sair da sala". Mas, para além das brincadeiras e zoações, há um desejo sincero de influir na situação do colégio e nas difíceis relações com a diretoria. No fundo, aqueles adolescentes secundaristas estão crescendo diante da câmera e aproveitando a chance de afirmar o que de fato lhes parece importante.

São quatro chapas na disputa: a das meninas feministas, a dos arautos da diversidade, a dos bem comportados (sobre os quais uma descoberta altera o quadro da campanha perto do final) e o dos que defendem uma nebulosa união de todos em benefício da escola. O tesouro que o filme nos reserva é testemunhar como cada um desses grupos se prepara, escolhe seu foco e se promove para o pleito. No pano de fundo, as grandes questões brasileiras aparecem em filigrana.



No bojo da campanha, Alice Riff coleta debates, protestos e opiniões sobre as condições materiais da escola, repressão policial, identidade de gênero e prioridades de vida. Tudo em regime de cinema direto, sem interferências explícitas dos documentaristas. Essa opção, quando bem usada como aqui, cria uma dramaturgia interessante, gerando expectativas sobre o desenrolar da campanha e o resultado da votação. Um divertido contraponto ao método é feito pelas reportagens de duas alunas Youtubers, as impagáveis Laura e Lívia.

Eleições mantém seu aparato documental numa discrição eficiente, dando espaço para que os alunos se comportem muito à vontade e recebendo deles uma colaboração invejável. O resultado é um filme que nos familiariza com eficácia naquele meio e nos engaja vivamente no processo.

Além disso, a dinâmica política a que assistimos é o anúncio de um possível futuro do país, onde o conservadorismo e a explosão de identidades têm muitas batalhas a travar.


Mataram minha mãe

Elegia de um Crime
é o terceiro filme de Cristiano Burlan numa trilogia sobre mortes trágicas em sua família. Depois de Construção (sobre as estranhas circunstâncias da perda do seu pai) e de Mataram meu Irmão (leia uma pequena nota minha sobre esse filme), ele se volta para o assassinato de sua mãe por um companheiro em 2011.

Duas investigações correm em paralelo. Numa, Cristiano conversa com seus três irmãos remanescentes e outros parentes, em busca de ecos da tragédia. Quer saber como cada um se lembra de sua mãe e perceber o impacto da perda. Cristiano fala através dos irmãos, sobretudo da inteligência sensível de Kelly, a mais nova. Ele próprio se mantém quase sempre em posição de escuta.



Num dos raros momentos de extravasamento, Cristiano revela um dado crucial sobre sua origem, o que nos faz repensar boa parte do que ouvíamos até ali. A imagem da mãe Isabel, evocada em fotos e na lembrança dos familiares, como que ressurge da ameaça do esquecimento para condensar uma vida de sofrimento, carência maternal e beleza maltratada.

Na segunda investigação, auxiliado por uma repórter criminal que noticiou o crime sete anos atrás, Cristiano tenta engajar a polícia na procura do assassino, ainda solto. A partir de certo ponto, lança-se ele mesmo na busca, em vertente de filme policial verité.

Já no filme anterior, havíamos conhecido aquela família atribulada pelo envolvimento com o crime, as prisões e uma dor inconsolável. Elegia de um Crime avança um pouco mais nessa exposição. Nos muito silêncios e nas poucas e fortes palavras do diretor, irrompe a emoção de um homem que usa o cinema para curar-se. No caminho, emociona também a nós.





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