Cinema

No coração do Brasil

Um dos bons programas cinematográficos deste ano, o mineiro 'No coração do mundo' "universaliza a periferia", como diz a atriz e professora Kelly Crifer, no elenco do belo filme que se passa na cidade de Contagem

20/08/2019 14:14

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Muito mais adequado seria se No coração do mundo, o belo título de um dos melhores filmes apresentados este ano até agora, fosse este: No coração do Brasil. O local simbólico não seria propriamente a shangrilá almejada pelos quatro protagonistas de No coração do mundo. Ao contrário: seria um avesso do paraíso na terra, mas seria a sinalização de que, com este filme, estamos no coração do país. Um coração pobre, proletário, conformado e inconformado ao mesmo tempo, malandro, violento, fortemente criativo, piadista, apaixonado e acantonado nas periferias das grandes cidades – nas favelas e municípios industriais, como a mineira Contagem (com mais de seiscentos mil habitantes faz parte da grande Belo Horizonte), cenário extraordinário da narrativa desse filme. Ambos, favelas e centros industriais da periferia, comunidades onde vivem milhões de trabalhadores da pequena classe média.

No coração do mundo vem inteiro de Contagem, de Laguna e Milanez, onde se passa a história, dois bairros da cidade alçados à celebridade pelos diretores em curtas metragens anteriores. Contagem (de 2010) é um deles.

O filme, que estreou este ano no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, é criação (roteiro e direção) de dois mineiros nascidos em Contagem - Gabriel Martins e Maurício Martins por sua vez sócios de André Novais Oliveira, diretor do filme Temporada, outra pérola do atual cinema brasileiro, e de Thiago Macêdo Correia na produtora Filmes de Plástico já premiada com outros trabalhos em festivais europeus.



"Para nós, esse coração do mundo está lá, no Laguna e no Milanez", explica Maurílio. "No filme, para alguns está, e para outros, não, porque é um filme sobre isso – ilusão, desilusão, querer e sonho. Coração do mundo é o lugar onde a gente quer pisar, como diz um funk de Minas".

A narrativa acompanha a trajetória de personagens que são de uma autenticidade arrebatadora. Uma trocadora de ônibus namorada do rapaz perdido em bicos e pequenos delitos e sem saber o que fazer da vida, uma fotógrafa vinda de fora da cidade, a vendedora de loja de bairro que transa com o dono do negócio. Os personagens masculinos são passivos, lentos, não são rápidos no entendimento dos fatos.

O filme é das mulheres. Fortes, ativas, são elas quem acionam a ação, quem planejam os acontecimentos e quem decidem e dirigem o rumo dos acontecimentos. Não é por acaso que são motoristas. Uma, deseja pisar no seu próprio coração do mundo conseguindo comprar um carro para trabalhar com o Uber; outra é motorista num ônibus. Há a que dirige carro com grande segurança desde os 12 anos de idade, e a que deseja vender seu automóvel.

A última planeja o caminho que dará acesso a shangrilá. É a atriz, diretora e dramaturga mineira Grace Passô fazendo Brenda, a fotógrafa.

A cantora de Niterói, McCarol, convidada para participar do elenco, tem uma atuação espantosa. Kelly Crifer e Leo Pyrata, ele habitante de Contagem, fazem os namorados Ana e Marcos. Coadjuvantes e pontas são um trabalho de moradores da cidade, todos de uma veracidade, espontaneidade e um frescor raros inclusive no modo de falar pontuado pelas gírias e expressões locais, específicas e não usadas no Rio ou em São Paulo.



O filme, ambicioso, é um filme de histórias que se entrelaçam, mas custou menos de um milhão de reais, valor considerado abaixo até de uma produção tida como de orçamento modesto. "Vai do drama ao melodrama, se transforma em filme de assalto e mantém uma ligação com a comédia", observa Maurílio Martins. Orgulhoso das cenas finais, ele não esconde que "com recursos técnicos mais apurados fizemos uma sequência que não deve nada a Hollywood. E falo isso sem falsa modéstia. " Tem toda razão.

A atriz Kelly Crifer, graduada em Artes Cênicas pela UFMG e professora de Interpretação Teatral bem define o cinema dos dois Martins: "Eles não estão fazendo teatro de favela. Estão universalizando a periferia. Em Roterdã, as pessoas se identificavam com as personagens porque percebiam a força da humanidade e da poética da história".

Pena que o filme não tenha sido exibido em maior cadeia de cinemas, embora ainda esteja em cartaz no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre, porque precisou competir com produções para férias idiotizadas com a investida de filmes boçais tipo velozes e furiosos.

Mas a Filmes de Plástico e a distribuidora Embaúba (também mineira, de Belo Horizonte) devem estar a postos para exibi-lo em escolas, universidades, centros comunitários e culturais, associações de bairros e cineclubes, e em todos os locais onde a curiosidade intelectual e a sensibilidade cinematográfica ainda estão vivas no nosso país.



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