Cinema

No documentário 'Nostalgia da Luz', as mulheres não esquecem

'Vou procurar o meu noivo até morrer', diz uma mulher determinada a encontrar os restos mortais do noivo assassinado pela ditadura de Pinochet.

01/04/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Se um festival de cinema apresentasse apenas um filme, Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz), de um dos maiores documentaristas do mundo, o chileno Patrício Guzmán, já teria valido a pena. É extraordinário o documentário de Guzmán, premiado em Cannes em 2010 quando foi a grande novidade cinematográfica, na Europa.
 
De uma beleza plástica limpa e íntegra, aquela que está sendo corrompida por artifícios de imagem baratos, e sem qualquer maneirismo vulgar próprio do cinema de massa americano, A Nostalgia da Luz reúne de modo natural, três conteúdos fundamentais do nosso tempo: o retorno a uma qualidade inquestionável do verdadeiro cinema, um questionamento político que faz parte, cada qual ao seu modo, da vida de todos os cidadãos - mesmo os mais alienados da realidade - e a soberana poesia, que torna a existência humana suportável.
 
Com roteiro enxuto e preciso onde nada é demais nem de menos, o filme se passa no deserto do Atacama, no norte do Chile, o local mais seco do planeta. Lá, astrônomos, arqueólogos e mulheres – no início, elas eram um grupo de cinquenta mulheres, depois, não mais que dez porque envelheceram e, com o tempo, vão morrendo – procuram no espaço, na terra e na areia, rastros de estrelas mortas, vestígios de passados remotos e restos de homens e mulheres assassinados pelo regime de Pinochet que foram enterrados ou jogados de helicópteros militares, se não no mar, na imensidão desse deserto desolado.
 
“Vou procurar o meu noivo até morrer”, diz uma das mulheres espantosamente determinadas, em depoimento a Guzmán. Outra, em sua fala, com infinita tristeza prova como, com o ar seco da região, os ossos e os restos dos mortos se mantêm intactos, inclusive com as roupas usadas pelas pessoas quando foram abatidas: ”Encontrei um pé do meu irmão... reconheci pela meia dele ... levei para casa... quis ficar com o pé durante dois dias...”
 
Essas mulheres, da geração que chegou aos setenta, oitenta anos, são “a lepra do Chile”, como elas mesmas se dizem. Estão sós na sua permanente busca. É o único grupo de pessoas que, até hoje, procura por parentes assassinados sem o apoio das diversas instâncias de governo nem da própria sociedade. “Elas denunciam um país que os outros indivíduos desejam esquecer”, disse Guzmán, cinco anos atrás, depois do premio de Cannes, em entrevista ao blog Bilhetes de Paris, da jornalista Leneide Duarte-Plon.
 
Obsessivamente, essas mulheres escavam, com pequenas pás domésticas, e vão encontrando mínimos fragmentos de ossos. Constituem uma imagem impressionante da força da tragédia, raras vezes vista no cinema. O momento mais emocionante do filme é o narrador – o próprio Guzmán -, mostrando, através das lentes poderosas dos telescópios, as chuvas dos flocos de cálcio escorrendo, desolados, das estrelas, como lágrimas. O narrador lembra: ”Nós, humanos, somos feitos da mesma matéria das estrelas”.
 
Na época, Nostalgia da Luz ganhou entusiasmadas resenhas das mais sérias publicações europeias. Le Monde observou: ”É um filme extraordinário”. E L’Humanité: “ De uma beleza de tirar o fôlego”. A revista Première comparou: “Uma fábula kubrickiana”, lembrando a epopeia de Kubrick no espaço.
 
Sobre um documentário anterior de Patrício, a trilogia de A Batalha do Chile, a revista Cinéaste já observara: ”Trata-se de um dos dez filmes políticos mais importantes já realizados”. Guzmán tem 74 anos, vive em Paris e é casado com uma psicanalista francesa, Renate Sachse - que foi a produtora de Nostalgia da Luz. Já fez dois docs importantes - Allende e O Caso Pinochet. Este ano, em fevereiro passado, ganhou o premio do júri ecumênico do Festival de Berlim com El Botón de Nácar onde a sua metáfora para reviver a memória está na água dos oceanos, as águas da Patagônia, o cemitério de muitos que foram jogados ao mar, dos helicópteros, pela ditadura Pinochet. “O meu objetivo é procurar que se devolva os corpos, “ disse Guzmán, na Alemanha,” para que os mortos terminem de morrer e os vivos sigam com vida.”
 
O filme deve entrar em cartaz em outubro, em Paris. Imperdível.
 
- Atualizado e adaptado de www.umacoisaeoutra.com.br





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