Cinema

No tapete vermelho de Cannes 2019: ''Apesar de você'', a cultura brasileira está viva

Com 'Bacurau' e com o Premio Camões, Chico Buarque, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles representam a força e a vitalidade da nossa cultura para além dos atuais tempos obtusos

24/05/2019 10:58

Equipe de 'Bacurau' posa no tapete vermelho do Festival de Cannes 2019 (Reuters/Stephane Mahe)

Créditos da foto: Equipe de 'Bacurau' posa no tapete vermelho do Festival de Cannes 2019 (Reuters/Stephane Mahe)

 
Uma competição cinematográfica de gigantes, no Festival de Cinema de Cannes deste ano. Um dos três certames mais conceituados a par de Berlim e de Veneza, que na sua 72ª edição encanta e fascina cinéfilos ao redor do mundo, este festival da Côte d'Azur francesa promete grande expectativa para os que seguem os movimentos culturais do Brasil – vivos e atuantes -, sobretudo nos atuais tempos obtusos de valorização da grosseria e da cafajestada que infelizmente vivemos hoje.

Apesar de tudo, a cultura brasileira mostra sua força com o filme Bacurau, apresentado ao mundo em Cannes, na Mostra principal, elogiado pela crítica internacional, e com o importante prêmio Camões que Chico Buarque ganhou esta semana.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, diretores de Bacurau (Divulgação)

O filme dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Bacurau, disputa a Palma de Ouro com grandes mestres do cinema – uns, ícones consagrados no seu final de carreira como o inglês Ken Loach (Eu, Daniel Blake) ou como o italiano Marco Bellochio - do inesquecível filme/manifestoIpugni in tasca - e Terence Mallick; outros, da geração de Pedro Almodóvar, Quentin Tarantino, de Jim Jarmush e dos irmãos Dardenne e os ainda não tão populares, mas artistas de peso como Ladj Ly, Bong Joon-ho, Kechiche Abdellatif e Elia Suleiman que vêm das bordas do mundo institucionalizado, mas com toda força das periferias. (Anotem seus nomes.).

O cartaz do Festival de Cinema de Cannes de 2019  presta homenagem à diretora Agnes Varda, que morreu aos 90 anos no último 28 de março

Bacurau compete com filmes sobre imigração, pobreza, amarcord, a necessidade de sermos conscientes do que se passa ao nosso redor e sobre nostalgia de um mundo que passou. Temas incômodos.

Os mortos não morrem, de Jarmusch é um filme de zumbis que invadem uma cidade americana, com elenco estelar. Filme di abertura do festival.

Sorry, we missed you, de Loach, conta a história de Rick, permanentemente em débito com seus parentes depois do crack de 2008. O empobrecimento do proletariado britânico é novamente o protagonista de Loach.

<br/><a style='color:#7b00c2' style='color:#7b00c2' href="http://oi66.tinypic.com/ztxfh1.jpg" target="_blank">View Raw Image</a>Cena de 'Os Miseráveis, de Ladj Ly (Divulgação)

Os miseráveis, de Ladj Ly, do Mali, se passa em Saint Denis, periferia de Paris onde vivem os mais ressentidos (e com razão) imigrantes africanos e os descendentes deles.

Dor e glória (um belo título), de Almodóvar, é uma espécie de Amarcord autobiográfico. Um diretor de cinema de meia idade e com um futuro incerto em viagem ao seu passado. Com Penélope Cruz fazendo a mãe de Almodóvar, ou seja, de Antonio Banderas.

Mallick mostra A hiden lyfe, drama da Segunda Guerra Mundial vivido pelo personagem de Franz Jägerstätter, guilhotinado pelo Terceiro Reich em 1943.

Antonio Banderas, Penélope Cruz e Pedro Almodóvar em Cannes (Sebastien Nogier/EPA)

Young Ahmed, dos irmãos Dardenne, trata de um adolescente belga que planeja matar sua professora depois de uma encenação com uma interpretação radical do Corão.

Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, com Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, é, segundo as palavras do diretor, ‘’uma carta de amor à Hollywood da minha infância, uma turnê de música rock de 1969 e uma ode ao cinema da época. ’’

Elia Suleiman em It must be heaven fala de um homem que foge da Palestina em busca de uma casa nova, mas percorrendo diversas cidades vê em todos os cantos a sua terra natal. Identidade, nacionalidade e pertencimento são os temas centrais.

Outros filmes são Atlantique, da diretora senegalesa Mati Diop - outra história de imigração. A distopia austríaca de Jessica Hausner, Little Joe; The wild goose lake, de Yinan Diao, The whistlers, de Corneliu Porumboiu, Portrait of a lady on fire, de Celine Sciamma – drama histórico -, Frankie, de Ira Sachs, se passa em Portugal.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio em 'Era uma Vez em Hollywood', de Quentin Tarantino (Divulgação)

Parasite, de Bong Joon-ho, conta o drama de um primogênito de família pobre trabalhando na casa de um casal rico. O resultado, dramático. Matthias e Maxime é de Xavier Dolan; Sibyl, de Justine Triet e Oh Mercy! de Arnaud Desplechin.

E Maktube, my Love: intermezzo, do festejado franco-tunisino Abdellatif Kechiche, de A vida de Adèle, vem agora com o ganhador da Palma de Ouro de 2013 seguindo um grupo de franceses de origem tunisiana a partir dos anos 90.

Bacurau vem precedido de criticas elogiosas. Sobretudo dos italianos que são, até hoje, dos mais entusiasmados aficionados do cinema novo brasileiro dos anos 60.

O jornalista Francesco Boille, por exemplo, na revista Internazionale, não poupa elogios ao filme que se passa numa localidade fictícia do profundo sertão pernambucano e o saúda como sendo ‘’o retorno dos cangaceiros’’.

<br/><a style='color:#7b00c2' style='color:#7b00c2' href="http://oi68.tinypic.com/funfow.jpg" target="_blank">View Raw Image</a>Mame Bineta Sane em cena de Atlantique, da senegalesa Mati Diop (Divulgação)

O título de sua resenha sobre ''essa aldeia simbólica'', diz ele, é ''Cinema brasileiro ressuscita em Cannes''. E engata: ''Provavelmente uma obra prima, este terceiro longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, e o primeiro depois do ótimo Aquarius''.

''Apresentando-se como uma distopia, o filme anula os limites, de modo magistral, de quatro gêneros: faroeste, ficção científica, horror e drama social. E graças à sua ambientação entre passado, presente e futuro, arcaísmo e hipermodernidade, faz ressurgir um momento fundamental da história do cinema – o cinema novo brasileiro''.

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