Cinema

Nossa vida no Brasil de Bolsonaro

Filme 'Minha vida na Alemanha de Hitler' mostra o começo da barbárie anunciada, a explosão dos ódios, violência, criação das milícias e a incredulidade da população alemã: ''ele vai passar logo''

27/06/2019 12:28

 

 
Assistir os dois episódios do documentário do francês Jérôme Prieur, Minha vida na Alemanha de Hitler, (Ma vie dansl’Allemagne d’Hitler/2017) agora exibido no Canal Curta* em diversas datas e horários, é fundamental para refletir sobre a vida cotidiana no Brasil de hoje. Os depoimentos do eixo do filme funcionam como a luz vermelha de um alerta. Eles são a base da narrativa e relatam uma história de horror escrita em anotações e cartas de alemães da classe média – médicos, contadores, secretárias, judeus, católicos, comunistas, comerciantes, engenheiros, estudantes, desempregados, professores transmutados em camelôs - que viveram e sofreram o seu cotidiano submetidos ao processo político rápido e certeiro, na Alemanha de 1930/1938, início e ascensão fulminante de Adolf Hitler. Depoimentos dos que conseguiram fugir da barbárie anunciada a tempo.

Não é a toa que a pequena série de duas horas tem feito barulho e arrastando grande audiência por aqui. Ela funciona como aula de como enganar milhões de eleitores de uma população de país europeu, madura, que caiu ‘’como um bando de moscas’’ na conversa não de um capitão, como no caso brasileiro, mas de um cabo que no começo da sua trajetória era apenas motivo de piadas e de caricatura. Um “fanático ridículo, ’’ tranquilizavam as oposições e os intelectuais.

Ele vai passar logo’’, dizia-se de Hitler despreocupadamente, nos cafés e nas ruas de Berlim e das grandes cidades da Alemanha de Hindemburgo. Essa era uma observação do próprio sobrinho do velho marechal-presidente, vê-se no filme.

Quando o Chanceler começou a tomar corpo político, dizia-se nos cafés – inclusive no célebre Café Vitória, de Berlim, frequentado por Adolf: “Hitler é apenas um idiota, mas tem envergadura.”

O alerta do primeiro episódio é este: o que ocorreu na Alemanha dos três primeiros anos da década de 30 pode se repetir em qualquer tempo da existência histórica, e em qualquer lugar. Até – somos nós a observarmos - num país tropical parecendo como que ansioso, neste momento, para assumir em definitivo sua verdadeira (?) personalidade de bananão.

Prieur escolheu permear o seu documentário com imagens da época, com vídeos muito raros - alguns colorizados - da vida cotidiana em Berlim, Munique, Hamburgo, e dos comícios de Hitler, a formação das milícias, a ação dos SA nas ruas, da crescente violência contra os opositores, mas – o mais grave - da incredulidade geral das ‘’moscas’’ diante do que estava acontecendo.

Os vídeos preciosos são intercalados com a leitura das cartas, diários, 20 mil documentos dos que se exilaram a tempo e conseguiram fugir da barbárie anunciada e foram arquivados durante décadas em Harvard.

Este primeiro episódio mostra a ação do chanceler Hitler até a morte de Hindemburgo quando ele assume a presidência do país. Nas eleições legislativas de 1928, os nazistas não conseguiram amealhar mais do que 2,8% dos votos.

Como Adolf Hitler conseguiu chegar ao poder em 30 de janeiro de 1933?

Depois do crash do mercado de 1929, a crise econômica chegou à Alemanha e os confrontos entre os membros do Partido Comunista, os social-democratas e os nazistas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães aumentaram.

Os decepcionados e famintos trabalhadores comunistas e ainda os poucos espartaquistas que restavam apostaram suas fichas nos nazistas para garantir emprego e trabalho para si e comida (nas milícias) para os filhos jovens. Os que entravam para a SA recebiam uniforme, hospedagem e comida gratuitos.

O primeiro episódio enfoca o incêndio do Reichstag, o prédio do Parlamento, pouco a pouco as prisões de opositores políticos (é importante observar o ritmo rápido das mudanças havidas ali mantendo os cidadãos em permanente tensão e os deixando confusos, ansiosos ou perplexos).

A gradativa suspensão das liberdades civis fundamentais e a abertura dos primeiros campos de concentração dos inimigos. Importante também a criação de inimigos internos permanentes, como ocorre aqui hoje: marxistas, petistas, homossexuais, comunistas, cosmopolitas, adeptos das religiões africanas e da teoria da Terra Redonda. No caso alemão, judeus, comunistas, a Igreja, cientistas. E sempre os professores.

‘’Contra a fome e o desespero, votem Hitler. ’’ Era o que diziam as faixas e bandeiras que ornavam janelas, fachadas e varandas das ruas de um país notável até então pela sua cultura. Filmes de Fritz Lang estavam em cartaz nos cinemas de Potsdamerplatz e no teatro as sessões da Ópera dos Malandros lotavam.

Mas não se pode deixar de observar uma das passagens mais fortes desse primeiro episódio do cotidiano da vida alemã sob Hitler dando os primeiros passos. É a que uma mulher descreve em seu depoimento depositado em Harvard e lido pela narradora.

Num colégio, entra um grupo de milicianos que pegam uma menina judia, jogam-na ao chão diante das colegas e começam a pisoteá-la. As colegas se movimentam para ajudá-la a levantar quando o bando sai. Mas a professora impede e indaga: ‘’Quem são as alemãzinhas que estão deste lado?’’ E ordena que cada uma das colegas, em fila e por sua vez, pisoteie a companheira – o que todas fazem. Inclusive a autora do texto obedecendo a ordem. Ela escreve: ‘’até que a colega, no chão, deixa de respirar. ’’

No segundo episódio, depois das primeiras explosões de ódio generalizado que toma conta da população, a proclamação de partido único, queima de livros, a Noite das Facas Longas, proclamação de Hitler como führer e a vida que muda mais uma vez após a ascensão do ‘’idiota’’, como diziam as ‘’moscas’’, mero cabo do exército ao poder absoluto.

*Canal Curta pela NET e Claro: 56 // OI: 75

Dia 28/06 às 23 hs: segundo episódio do filme Minha Vida na

Alemanha de Hitler

Próxima exibição do primeiro episódio: 9/08/2019 às 21:00

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