Cinema

O Brasil de Justino

O belo 'A febre', com elenco indígena e falado em português e tukano, é tocante com o seu cenário da cidade de Manaus pré-covid-19 e é um filme indispensável

28/02/2021 12:29

Indígenas interpretando indígenas: Regis Myrupu e Rosa Peixoto vivem pai e filha em 'A febre' (Barbara Alvarez/Tamanduá Vermelho)

Créditos da foto: Indígenas interpretando indígenas: Regis Myrupu e Rosa Peixoto vivem pai e filha em 'A febre' (Barbara Alvarez/Tamanduá Vermelho)

 

Um pequeno grande filme. Curto, enxuto, modulado no gênero do conto cinematográfico, tem uma hora e quarenta de duração. Grande filme porque é comovente na singeleza, cinema de observação sem ser afetado, e com origem no documentário, o berço da carioca Maya Da-Rin que estréia no filme de ficção.

Impossível assistir a A febre sem deixar de refletir sobre o número de mortes registradas no Amazonas nos dois últimos meses superando o total de óbitos nesse estado em todo período de 2020. E, no quadro da pandemia fora de controle do país, um dos alvos mais atacados são os indígenas da região.

A febre ganha amplitude tocante por ter sido rodado no cenário da cidade de Manaus que na ocasião das filmagens ainda não se encontrava assolada pela covid-19. Ela é uma das principais vítimas da necropolítica genocida do atual desgoverno autor de projeto premeditado de enxugamento de população. A tragédia dos manauaras atinge em cheio os mais frágeis. Pobres, negros, idosos e, no caso do norte, os indígenas da cidade e da região amazonense. O personagem central e o ator protagonista são indígenas em A febre.

Uma das (ainda) poucas produções nacionais, ilumina com sucesso o Brasil indígena e retrata um momento na vida do personagem Justino. A febre está no catálogo da Netflix e nos traz um país muito pouco conhecido dos que habitam o sul/sudeste. Traz também o surpreendente ator Regis Myrupu, descendente da etnia desana, filho, neto e herdeiro do conhecimento espiritual de gerações de xamãs.

Um dos raríssimos atores indígenas do cinema brasileiro, Myrupu nasceu em Pari Cachoeira, no Alto Rio Negro, e bem moço deixou sua aldeia. O primeiro filme que viu, ainda por lá, foi uma produção de Tarzan projetada por missionários sobre um lençol branco.



Ele passou um ano e meio fazendo pesquisas e testes de elenco e sua intimidade com a câmera ocorreu por meio do turismo, quando participava de vídeos de danças da tradição indígena para exibição aos turistas visitantes do Amazonas. Hoje, Regis vive parte do seu tempo na Itália. É casado com uma italiana e tem uma filha.

E este papel de agora, o de Justino/viúvo e trabalhador no porto de cargas de Chibatão é o seu mais efetivo trabalho profissional. O resultado é excelente e ele se mostra inteiramente à vontade alternando os dois idiomas em que o filme é falado: português e tukano.

"Foi a precisão dos seus gestos'', afirma Maya Da-Rin ''que me impressionou. Regis tem presença forte, um olhar muito forte, um olhar corporal muito preciso nos gestos e movimentos. Isso vem da trajetória pessoal de vida dele”, conta a diretora de A febre em entrevista a Caio Pimenta, do site Cineset.

Justino, o personagem indígena, trabalha desde criança. Foi operário na construção de fábricas do ''distrito'', como é chamada pelos locais a zona livre de Manaus. Há vinte anos é vigia e segurança no porto de cargas e tenta conciliar uma modesta vida urbana na periferia da grande cidade, como viúvo, com os traços que restam das tradições culturais de sua família indígena.

Um filho adulto que também vive e trabalha em Manaus, e mora em bairro distante, e a jovem filha que mora com ele e trabalha num posto de saúde. Ela acaba de ser aprovada para iniciar seu curso numa faculdade de medicina de Brasília. Logo ela irá embora.

Mas uma febre insistente faz Justino, às vezes, delirar em sonhos e fantasias com lendas e alertas. Justino está na meia idade. Começa a envelhecer e seu irmão, que permaneceu vivendo no ''mato''. ( Ou ''selva'', como os militares do exército que ocupam a Amazônia definem a floresta.) O irmão procura convencê-lo a retornar à aldeia de onde saiu há muitos anos.

Outro pensamento paralelo que o espectador dificilmente afastará, é que enquanto A febre conquista grandes platéias e também a crítica internacional a floresta amazônica vai sucumbindo e registra o maior índice de desmatamento em dez anos, segundo o Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).



 “Tudo é triste e dá vergonha'', diz Myrupu nas entrevistas que vem concedendo fora do Brasil. ''Todos perguntam sobre as queimadas, se é verdadeiro ou mentira. As pessoas aqui sabem que é verdade. Não é uma coisa acidental, não é algo que se faz por necessidade de plantio; é ambição e ganância”.

''A destruição da floresta é muito triste para uma pessoa que vive com a natureza de forma muito intensa.“ O critério de ''natureza morta'' dos não-indígenas diz ele, é equivocado. Fenômenos da natureza, árvore, peixe, tudo, são seres vivos, repisa o ator.

Pedro Cesarino e Miguel Seabra Lopes assinam o excelente roteiro com pausas precisas e respiração adequada junto com Maya. Viveram em Manaus durante meses e, como diz a diretora, "A febre é fruto da produção cultural indígena pulsante que nem sempre tem a visibilidade merecida''. Recebeu o prêmio de Melhor Filme em festivais na China, Argentina, Portugal, Estados Unidos, Uruguai, Chile, Peru, Alemanha e Espanha.

Maya é otimista: ''Hoje, temos uma produção forte de cineastas e artistas indígenas que vêm desconstruindo estereótipos e propondo novas imagens e narrativas'' para se contrapor à

''propensão do cinema em 'exotizar' as culturas indígenas e uma tendência em enxergá-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são''.

Como conclusão: nada mais exato do que a anotação do crítico José Geraldo Couto, no blog do Instituto Moreira Salles sobre esse belo filme.

Diz ele: ''A Febre pode ser considerado um marco no modo como o cinema encara esse personagem trágico que é o índio no mundo dos brancos - ou mais precisamente, o índio brasileiro num país entregue desde sempre a ferocidade predatória de um certo modelo de civilização".

É imperdível.



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