Cinema

O Pequeno Gatsby e a garota fútil

'Um dia de chuva em Nova York' certamente não aborrece ninguém, mas deixa patente uma certa confusão de Woody Allen na representação da mulher

22/11/2019 13:46

 

 
**Este texto contém spoilers. Melhor para ler depois de ver o filme**

Antes de tudo tem Manhattan, alvo de uns tantos elogios apesar do mau tempo de Um dia de chuva em Nova York. Woody Allen retorna a sua zona de conforto: Central Park, casais em apuros, uma montanha de referências à cultura nova-iorquina. Mas a verdade é que Nova York nunca pareceu tão estranha num filme seu, tão deslocada no tempo. Há referências ao cinema antigo (filmes diversos, Nora Desmond, etc), algo como um desejo de flertar com o passado, o que transparece no sabor antiquado dessa historinha de um casal que se desencontra num passeio de fim de semana.

Já em Roda Gigante Allen dava sinais de cansaço criativo. Neste novo filme, atravessado pela campanha puritana que enfrenta nos EUA, ele parece dirigir no piloto automático. As incessantes alusões a doenças e especialidades médicas deixam entrever um agravamento de sua célebre hipocondria. Não fosse a performance exuberantemente simpática de Elle Fanning como Ashleigh, A Rainy Day in New York talvez resultasse um mero soporífero. A depender do alter ego da vez, o Pequeno Gatsby confiado a Timothée Chalamet, o caminho seria aquele mesmo.

(Aqui uma observação feita por minha amiga Rosângela Sodré ao fim da sessão: à medida que Allen envelhece, seus alter egos vão ficando cada vez mais jovens. Em breve teremos um bebê ruminando dores de amor nas imediações do Guggenheim).



Ashleigh, por sua vez, é uma rara protagonista maltratada pelo diretor. Há quase uma ponta de misoginia na caracterização da garota fútil, deslumbrada por celebridades de Hollywood ao ponto de não titubear diante da corte de um ator egóico como o Francisco Vega vivido por Diego Luna. O fato de seu pouco caso pelo namorado romântico coincidir com um flerte dele não impede que ela seja a parte "negativa" do casal – e por isso punida na cena final.

A atração (entre intelectual e sexual) de Ashleigh por homens mais velhos sugere um subtexto inevitável ligado à vida de Allen. Por outro lado, a presença de uma prostituta e uma ex-prostituta, personagem frequente nos seus filmes, enfatiza o lusco-fusco moral que ele tanto cultiva.

A Manhattan do filme tampouco se sai bem na fita, retratada pelo seu lado mais anacronicamente esnobe. A cena em que as telas impressionistas do Metropolitan servem de mero fundo para uma conversa banal de Gatsby com Chan (Selena Gomez) exemplifica bem o pedantismo que Allen pretende apresentar como charme.

Um dia de chuva em Nova York certamente não aborrece ninguém, mas está longe de figurar entre os bons Woody Allen. Ademais, deixa patente uma certa confusão do cineasta na representação da mulher, talvez por conta de tantas atribulações pessoais.







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