Cinema

O agora de Elza e o circo de Cacá

'My Name is Now - Elza Soares' e 'O Grande Circo Místico' procuram alguma coisa que está além da música popular brasileira

15/11/2018 13:48

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

Elza Soares em close up

O rosto largo e forte de Elza Soares enche a tela por cerca de 90% do filme. É assim que a vemos cantar, conversar com seu espelho e passar um batom obsessivo nos lábios como se esfregasse uma pedra mágica. Tem mesmo algo de xamânico em My Name Is Now – Elza Soares. O documentário de Elizabete Martins Campos mais invoca que explica aquela "Nega Fênix" de sete vidas. Elza da Conceição Soares é associada à Lua, às águas e aos raios. Elza como força da Natureza, quem sabe um Orixá.

Há ali também qualquer coisa de Arthur Omar e suas faces gloriosas, sobretudo na sequência em que o rosto de Elza é trocado pelos de figuras em êxtase carnavalesco.



Quem quiser um verbete a respeito da cantora, que procure a Wikipedia. Aqui ela somente confidencia conosco (ou com o espelho) sobre suas dores, açoites e humilhações, minorados todos pela recompensa dos aplausos. Em cena, a autoconsciência sagaz de Elza, filósofa de si mesma. "Eu me sinto como uma pantera reduzida a filhote de gato em fundo de padaria".

Quando canta, e canta o tempo todo, o estilo é bem conhecido: bebop-batucada, jazz-jongo em improvisações radicais, o rostão sempre de frente pra gente, esfinge ebúrnea, carne negra em cores. O filme entra em fase com essa trip, numa jam-session de sons e formas. O quadro trepida, as imagens sambam, fulguram e se fundem num experimentalismo que, bem a propósito, é mais musical que conceitual. A montagem de Lorena Ortiz e Pablo Paniagua providencia uma féerie permanente.

Afora um trecho em que se rememora Garrincha, o tempo não conta muito para esse instantâneo de Elza. Ela é sempre agora, seja no canto, seja nas confidências ou nas sessões de massagem filmadas com a insolência de um Kenneth Anger. Em boa hora, Elza Soares ganhou, se não um perfil didático, um retrato à altura de sua audácia.



Fragmentos de vida circense

Do poema de Jorge de Lima à peça de Naum Alves de Souza, ao disco de Edu Lobo e Chico Buarque e finalmente ao filme de Cacá Diegues, O Grande Circo Místico foi ganhando camadas de materialização, mas conservando o essencial: a história de sucessivas gerações de uma família circense e a separação entre corpo e alma, entre a expansividade do espetáculo e a interiorização de conflitos pessoais.

O longamente esperado 17º longa de ficção de Cacá (o último foi O Maior Amor do Mundo, de 2006) chega escorado numa caprichada produção e num dos maiores acertos do diretor na regência de sua "orquestra". O filme impressiona pela vitalidade da encenação, pela ótima condução do elenco e pelo eficiente resultado artesanal de cenas desafiadoras como as do circo.

No roteiro de Cacá e George Moura, a saga dos Knieps se estende de 1910 até um ponto indefinido do século 21. Começa com o pedido do jovem Fred Knieps à rica amante do seu pai, em seguida à morte dele: comprar-lhe um circo para agradar a sua amada Beatriz. Daí em diante, de tragédia em tragédia, de nascimento em nascimento, filhos e filhos dos filhos darão continuidade ao empreendimento e à complexa rede de afetos que inclui casamentos indesejados, abandono familiar, incestos, estupro, rejeição erótica e vingança conjugal.



Cada personagem atua numa modalidade circense, e é através dela que se relaciona com os demais. Assim é que ganham sentido metafórico a cópula da contorcionista, a superdotação do mago, a fúria do domador de leões, as artimanhas da trapezista e a leviandade das dançarinas que levitam. Atravessando incólume todos os tempos, pois ele é o próprio tempo, está o mestre de cerimônias Celavi (Jesuíta Barbosa), que só altera o arranjo dos cabelos. O circo, como é de praxe acontecer em suas representações dramáticas, é um microcosmo das paixões e dos humores dos homens.

Por mais esmerado que seja na realização, O Grande Circo Místico falha, porém, em criar uma liga entre seus muitos fragmentos. A narrativa é episódica demais, o que pode se justificar num espetáculo de picadeiro, mas resulta um tanto flácido como estrutura cinematográfica. É bem verdade que o material original é por natureza fracionado e serial, mas a rapidez com que se passa de uma situação a outra não deixa muita margem a uma adesão mais calorosa do espectador.

É recomendável, portanto, que se apegue ao simples espetáculo, ora esfuziante, ora sedutor. Há cenas de bravura na arena do circo, culminando com o balé das gêmeas voadoras. Cacá dá vazão mais uma vez a sua poética dos efeitos especiais singelos, com borboletas e balões digitais, um coração em chamas e um estranho cometa que não repete a promessa de passar de novo.

Eu, particularmente, gostaria de ter visto um efeito especial que fizesse as belíssimas canções de Edu e Chico ganharem maior proeminência. Infelizmente, este não é um filme musical.



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