Cinema

O amor nos tempos do crack

Afeto e violência andam juntos entre os personagens do documentário 'Diz a Ela que me Viu Chorar'

15/11/2019 15:43

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Entre agosto de 2016 e janeiro de 2017, a documentarista e antropóloga Maíra Bühler registrou o cotidiano de um centro de acolhimento de viciados em drogas e bebida no centro de São Paulo. À diferença do magistral documentarista americano Frederick Wiseman, interessado sempre em fornecer uma ideia geral do funcionamento de uma instituição, Maíra centrou sua atenção – ou pelo menos suas escolhas de montagem – nas relações amorosas que floresciam ou feneciam dentro do edifício.

Relações tumultuadas ou aparentemente calmas, mas que evoluem para rumos surpreendentes, como a da andrógina Maria Benedita com sua namorada. Outras que se insinuam somente através de um telefonema desesperado ou nas performances de um cantador das dores de amor – daí o título Diz a Ela que me Viu Chorar. Surpreende que, mesmo em vidas tão desregradas e situações sociais tão limítrofes, o afeto seja capaz de mobilizar tantas emoções, algumas sob a forma de violência.



A aproximação da diretora a esses personagens foi certamente muito delicada, mas extremamente eficaz. A câmera de Leonardo Bittencourt está sempre muito próxima sem parecer intrusiva, além de produzir momentos de grande densidade e contenção. De certa maneira, a vulnerabilidade e o "nada a perder" daquelas pessoas gera um tipo de inconsciência (assim como filmar loucos ou crianças) ou, pelo menos, uma ausência de autocensura diante da câmera. A responsabilidade da diretora, então, cresce mais ainda quanto à medida do que expor. Boa parte do filme se situa próximo a essa fronteira ética, especialmente quando alguns se autonomeiam bandidos ou ameaçam vingar-se da sociedade à sua maneira.

Há também uma variedade de flagrantes alheios às histórias de amor, como os solilóquios reflexivos de um homem aparentemente deprimido, entrevistas de moradores com a equipe de coordenação, conversas de elevador e movimentações pelas escadarias do prédio. Quase sempre, o que está em foco são as interações num ambiente sob risco constante de conflito, mas que também favorecia a troca e a germinação de uma possível semente de comunidade.

A sinopse oficial do documentário, produzido por Anna Muylaert, menciona "um grupo de pessoas reunidas por laços fortes em frágil abrigo". Tão frágil que, no início de 2017, uma canetada do então recém-eleito prefeito João Dória pôs fim aos 20 meses de existência do hotel social Parque Dom Pedro. A maioria das 105 pessoas que ali moravam voltaram para as ruas com seus cachimbos de crack, suas garrafas e seus corações partidos. O filme ficou como testemunho de um interlúdio.





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