Cinema

O ano em que meus pais saíram de férias

Um filme que mostra, por meio da contextualização da "fuga" dos pais no período da ditadura, um corpo político paralelo ao drama pessoal do menino protagonista forçado a passar um período com estranhos. Nasce, deste drama, um retrato fiel à realidade política da época, sem que o filme torne-se essencialmente político ou panfletário.

03/10/2006 00:00

 

O ano em que meus pais saíram de férias, último trabalho do diretor Cao Hamburger, foi lançado no Festival de Cinema do Rio de Janeiro na ultima semana. O diretor volta ao ambiente infantil, que lhe é tão caro, mas sem realizar o chamado "filme infantil". Este é um filme sobre crianças, mas não para crianças – pelo menos não apenas.

O protagonista Mauro (Michel Joelsas), um garoto mineiro de 12 anos de idade, vê-se despejado por pai e mãe no bairro do Bom Retiro em São Paulo, na frente do prédio do avô paterno que ele desconhece e com quem deverá passar o período indeterminado de duração das supostas férias dos pais. O desconhecido torna-se ainda mais assustador quando o avô falece antes mesmo de conhecer o menino e este fica a cargo do vizinho, um senhor judeu que lhe é igualmente estranho e, para piorar, não tem nenhuma intenção de cuidar dele até o retorno dos pais.

O filme tem no elenco nomes como Paulo Autran (o avô), Simone Spoladore (a mãe) e Eduardo Moreira (o pai), mas as aparições são breves e quem sustenta os 110 minutos de duração, ao lado de Germano Haiut (o “avô substituto”), são Michel Joelsas e Daniela Piepszyk (a amiguinha Hanna).

Cao Hamburger mostra mais uma vez que consegue transitar nesse ambiente infantil com muita habilidade e consegue extrair dos atores mirins atuações de primeira linha, o que bastaria para termos aqui um belo filme para crianças. Mas o diretor vai além e, situando o drama em 1970, durante a ditadura militar e às vésperas da copa do mundo daquele ano, dá ao filme uma outra dimensão e amplia sua riqueza e complexidade.

O filme ganha, por meio da contextualização da "fuga" dos pais no período da ditadura, um corpo político paralelo ao drama pessoal do menino. Nasce um retrato fiel à realidade política da época, sem que o filme torne-se essencialmente político ou panfletário. O cenário da copa do mundo também contribui para ilustrar as contradições da sociedade brasileira da época, submetida ao regime opressor e reunida em torno de televisores para acompanhar a trajetória da seleção, mas também desempenha papel no drama do garoto, que se apóia na paixão pelo futebol para suportar o abandono pela família.

Um dos pontos fortes do filme é justamente o roteiro, que consegue reunir essas diversas camadas de forma coesa e harmoniosa. O ano em que meus pais saíram de férias escapa à armadilha da colcha de retalhos sem sentido e, de outro lado, do enredo excessivamente costurado e artificial, onde cada frase tem uma função na construção de um retrato metódico e quase mecânico. O mérito, neste ponto, divide-se entre pelo menos quatro indivíduos,de cujo trabalho coletivo resultou o roteiro do filme: Cao Hamburger, Bráulio Mantovani (Cidade de Deus, Cidade dos Homens), Anna Muylaert (Durval Discos) e Cláudio Galperin (Cidade dos Homens).

Com ou sem ajuda de atores, roteiristas e muitos outros profissionais, a verdade é que Cao tem um jeito particular de fazer cinema e consegue retratar com propriedade a vivencia de uma criança "abandonada" pela família durante a ditadura militar e a copa do mundo. O filme guarda o tom leve da infância, mas permeado pela dor deste menino que anseia pela volta dos pais; a alegria e diversão da copa do mundo versus a seriedade e opressão do regime militar.




Conteúdo Relacionado