Cinema

O ano em que o Che desapareceu

''Che - Memórias de um Ano Secreto'', um dos grandes documentários históricos recentes, passa esta quarta às 20h no Canal Brasil

11/08/2020 14:12

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Donde está el Che? – era a pergunta que os cubanos e o resto do mundo se faziam entre dezembro de 1965 e julho de 1966. Che – Memórias de um Ano Secreto a responde com riqueza de detalhes a partir dos depoimentos de três agentes secretos e um protético que participaram da aventura clandestina de Che Guevara no Congo Belga, na Tanzânia e na ex-Tchecoslováquia. Sem dúvida, o filme da cubano-brasileira Margarita Hernández, de 2018, é um dos grandes documentários históricos recentes.

Uma extraordinária pesquisa de personagens, locais e arquivos sustenta um roteiro impecável de thriller, com tintas de análise política e toques de comédia. Em nenhum momento, Margarita e seus montadores (Leyda Napoles e Mair Tavares) descuidam da forma cinematográfica em troca da mera informação. Prova de que um documentário pode ser tão sedutor quanto revelador.

O Che era Ministro da Indústria de Fidel quando se sentiu insatisfeito com o papel de funcionário público e partiu com uma pequena tropa cubana para o Congo Belga (hoje Zaire), a fim de auxiliar os rebeldes congoleses a dar continuidade à luta de libertação empreendida por Patrice Lumumba. Levava um passaporte uruguaio com a identidade de Ramón Benítez Hernández. Após o golpe de Mobutu Sese Seko e alguns meses decepcionantes junto a guerrilheiros desmotivados, divididos em tribos e submissos a mitos de feitiçaria, ele partiu sozinho para a Tanzânia.



Segundo os que estiveram com ele nessa fase, Che não voltou a Cuba porque Fidel havia lido publicamente sua carta de despedida definitiva. Não queria desmenti-la. Em Havana, foram 20 anos sem que ninguém mencionasse a missão no Congo. Para sair da África, caçado por serviços de inteligência de vários países, Che recebe um disfarce com dentes postiços e próteses. Vai para Praga, onde passa vários meses, escreve muito, protagoniza boatos amorosos e inspira escritores como Abel Posse, autor do semificcional Os Cadernos de Praga. Em 1966, com disfarce ainda mais radical, volta clandestinamente a Cuba para preparar a luta na Bolívia.

O filme refaz esse trajeto com clareza cristalina e ritmo de aventura. Os depoimentos dos ex-agentes e do protético encarregado dos “mascaramentos” do Che exalam carisma, humor e noção de narratividade. Margarita engaja, ainda, outros personagens que vão somando ao mapeamento, às vezes com um pequeno dado, uma curta reflexão, mas que resultam numa rede de grande alcance a respeito do cotidiano underground do Che. Ganham destaque também os reflexos da cultura pop dos anos 1960 (Beatles, James Bond, etc) sobre aqueles homens metidos até os cabelos com o projeto da revolução socialista.

Vinhetas de reconstituição dramatizada, que normalmente representam um perigo para esse tipo de documentário, aqui se acomodam com sutileza e propriedade na narrativa. Chama atenção a qualidade dos materiais de arquivo, tanto em termos de ilustração, quanto de conservação e raridade, e cuja maioria provém do ICAIC cubano. As imagens de Ernesto menino numa praia encerram gloriosamente um filme que, mesmo sem tecer loas a seu personagem, o torna ainda mais fascinante. Como se, no caso do Che, isso ainda fosse possível.



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