Cinema

O canto do fantasma da História

''Liquid Voices'', a ópera cinemática de Jocy de Oliveira, é um filme líquido que corre entre mundos tão díspares quanto possível

02/07/2020 15:56

 

 
Segundo ela mesma conta no livro Além do Roteiro, publicado paralelamente ao lançamento do filme, Liquid Voices - A História de Mathilda Segalescu é a conjunção de várias pesquisas e interesses de Jocy de Oliveira. A mais conceituada autora brasileira de música eletrônica e eletroacústica, Jocy há muito investiga temas como a dimensão lendária da água em várias culturas, o destino de refugiados e desterrados que se tornam náufragos e a "situação agonizante da música erudita no Brasil". Ecos de tudo isso estão na "ópera cinemática" que chega às plataformas online.

A inspiração veio da tragédia do pequeno navio MV Struma em 1941. Tendo partido da Romênia com cerca de 800 refugiados judeus em direção à Palestina, a embarcação apresentou defeito no Mar Negro e foi rebocada até o porto de Istambul. Proibidos de sair à terra, os passageiros permaneceram a bordo por mais de dois meses em condições precárias. Por fim, as autoridades turcas abandonaram o navio em alto mar, á mercê de um submarino russo que o torpedeou, deixando apenas um sobrevivente.



Jocy imaginou ficcionalmente esse sobrevivente não como uma pessoa, mas como um piano. Não por acaso, o mesmo velho Steinway que ela usou numa videoperformance de 2005, em que uma pianista afundava no mar com seu instrumento. Em Liquid Voices, esse piano, coberto de destroços marítimos, pende sobre uma piscina rústica que representa o mar. Ali um pescador árabe se deixa seduzir pelo espectro de uma das passageiras do MV Struma, a cantora Mathilda Segalescu (nome e sobrenome de dois diferentes passageiros do navio real).

Liquid Voices é mais um exemplo do cruzamento de mídias que Jocy de Oliveira promove em suas obras. Ópera, teatro e cinema se fundem nessa fábula sobre outras fusões: de épocas e de civilizações. A soprano e atriz Gabriela Geluda, habituê dos trabalhos de Jocy, vive duas transformações deslumbrantes em cena. Na primeira, uma espécie de prólogo, ela surge como monja da Idade Média para depois se despir do manto e se apresentar como roqueira do século XXI. Ao mesmo tempo, o tenor Luciano Botelho faz o percurso inverso, numa alegoria sobre a História que se repete.

A segunda metamorfose de Gabriela é produzida pelo pescador (também Luciano Botelho), que projeta na judia Mathilda a imagem desejada da mulher árabe. Na parte musical mais prazerosa da ópera, numa espécie de ritual erótico, ele a despe e a cobre com a túnica e o niqab (véu) muçulmano.

Não tenho ferramentas para analisar a música particularíssima de Jocy, mas destaco ainda o diálogo do flautista com as palavras do pescador e o recital de Mathilda no banquete de vampiros, alegoria dos horrores sofridos pelos passageiros do MV Struma.

À exceção de alguns planos no mar, tudo foi filmado nas ruínas do Cassino da Urca durante noites em que os músicos e cantores dividiam o espaço com morcegos, alguns dos quais cruzam a cena sem pedir licença. O cenário deteriorado ganhou iluminação e adereços cenográficos de grande bom gosto, entre o macabro e o fantasioso, fazendo de Liquid Voices um deleite visual permanente.



Como fantasma do passado a nos lembrar das atrocidades da guerra, Mathilda é uma criação admirável de Gabriela Geluda, dona de uma beleza que se estende do físico para a voz e a expressividade dramática. Luciano foi um casting perfeito para o papel do árabe. O Ensemble Jocy de Oliveira executa à perfeição a desafiadora partitura da autora, que se inspira na musicalidade de várias épocas e latitudes. Vale ressaltar também o requinte dos figurinos de Ticiana Passos.

A montagem de Bernardo Palmeiro e Jocy cria uma dinâmica cinematográfica muito atraente e consegue realçar a riqueza das performances. Não se trata de planos-sequência, como supõe Jocy no livro, já que as cenas foram entrecortadas na edição. Ainda assim, a ideia de fluxo ininterrupto não se perde. Um filme líquido, que corre entre mundos tão díspares quanto possível.

Liquid Voices – A História de Mathilda Segalescu
está disponível no Now, Looke e VivoPlay





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