Cinema

Beleza e poesia no cinema turco

Do diretor turco Emin Alper, um dos mais belos filmes deste ano é uma versão poética, em imagens, da clássica peça de Anton Tchekhov

27/10/2020 12:31

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O filme é tão especial que vale comentá-lo mais uma vez e sugerir assisti-lo assim que for possível - aproveitando agora que ele se encontra disponível no streaming.* Certamente, o turco O conto das três irmãs, (Kiz Kardesler) de Emin Alper, entrará na relação de melhores do ano de 2020 exibidos no Brasil. Discípulo de um dos melhores cineastas em atividade, Nuri Bilge Ceylan, também turco, Alper, de 46 anos, é discípulo do diretor do belo Sono de inverno que foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes há seis anos e é autor de uma filmografia hoje já clássica.**

Nascido na Turquia profunda, na península da Anatólia, Alper escreveu o roteiro do seu filme com esse cenário, uma aldeia parada no tempo, nos anos 80, encravada nas montanhas e distante da Capadocia dos balões e dos roteiros turísticos de massa da Turquia de Erdogan.

A saga das três irmãs Reyhan, Nurhan e Havva, que revê Tchekhov e são oprimidas pela histórica autoridade absolutista masculina, pela miséria e pelo atraso do lugarejo onde vivem, é narrada na forma da mais pura poesia cinematográfica, e construída com imagens de extraordinária beleza e pertinência por Emre Erkmen. O relato é pontuado por comentários musicais de uma tristeza lancinante de autoria de Nikos Papaioannou e Giorgos Papaioannou. (Há que lembrar que o filme, mostrado no mais recente Festival de Berlim, é uma produção Turquia/Grécia/ Alemanha/ Holanda.)



As três jovens esperam deixar a aldeia, no ''fim de mundo'', para viverem na grande cidade, em Istambul, trabalhando em casa de família abastada como beslemes, misto de filha adotiva e empregada doméstica; o mesmo costume, no Rio de Janeiro dos anos 30, entre algumas famílias da classe média que escolhiam meninas e jovens pobres do interior para trabalharem em suas casas com o mesmo status das irmãs turcas.

Mas as três irmãs, por diversos motivos, são devolvidas ao pai, à casa e à aldeia no ''fim do mundo'' e têm por obsessão voltar a Istambul.

O destino da grande maioria das mulheres na Turquia, que é selado pelo Islã; a injustiça social; as contradições desse país/chave no acerto de contas cultural e político entre ocidente e oriente; a possibilidade e existência do afeto, mesmo que torto e tosco, quase que uma erva daninha, são alguns dos temas para reflexão desse e de alguns dos filmes do grupo de brilhantes cineastas turcos em atividade.

Professor de História Contemporânea na Universidade Técnica de Istambul, Alper é economista e historiador. Assim como Ceylan ele é o autor dos seus próprios roteiros cinematográficos e costuma trabalhar com elencos de atrizes e atores soberbos, que é o que vai se estabelecendo como padrão e tradição de alta qualidade no cinema do seu país. Para ambos, a Anatólia é o palco dileto das suas fábulas.

O filme e as atrizes que interpretam as três irmãs já foram premiados em diversos festivais - Saravejo, Istambul, Bruxelas -, e fizeram grande sucesso no mais recente Festival Internacional de Cinema de Berlim onde Kiz Kardesler concorreu ao Urso de Ouro. Em Veneza, Alper já ganhou o Leão de Ouro, de Prata e o premio do Júri com o seu Abluka.



Mas para além do reconhecimento dos prêmios oficiais, o diretor de Istambul é sobretudo um excelente poeta. Pertence a uma leva de geração um pouco mais jovem que Nuri Ceylan e Orhan Pamuk, Nobel de Literatura e um dos grandes escritores turcos. E é mais um gigante de uma das culturas mais significativas da contemporaneidade, protagonista da dicotomia de dois mundos.

Aliás, o final de O conto das três irmãs evoca diretamente Pamuk. Assim como no seu romance Neve, o filme ''imerge nas raízes profundas da Turquia'' enquanto, num suspiro, a velha aldeia desaparece nas montanhas brancas da Anatólia.

*No Now.

** Dentre eles, Era uma vez na Anatólia e A árvore dos frutos selvagens.



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