Cinema

O corredor polonês do cristianismo seletivo

Harvey Milk, cuja trajetória foi magistralmente interpretada pelo ator Sean Penn, acaba silenciado por tiros à queima-roupa. Mas o ativista já dissera que a luta pelos direitos humanos é impessoal, apesar de o preconceito e a brutalidade acossarem pessoal e fisicamente aqueles e aquelas que o dedo em riste do reacionarismo só faz estigmatizar. Por Flávio Ricardo Vassoler.

23/07/2013 00:00

 

Milk – A voz da igualdade (2008), filme dirigido por Gus Van Sant, narra a trajetória política de Harvey Milk, ativista em prol dos direitos civis dos homossexuais. A obra, nesse sentido, não poderia dialogar de modo mais rente com discussões que vêm sendo travadas no Brasil contemporâneo.

Gus Van Sant focaliza a década de 70 nos EUA, ao longo da qual os homossexuais lutam para derrubar uma série de discriminações legalmente estabelecidas. Afora o contumaz e lamentável enquadramento da homossexualidade como patologia, trata-se de lutar contra restrições no âmbito do trabalho e da educação, restrições contra o direito de moradia e de ir e vir. São Francisco é o enclave das batalhas. E quem seriam os adversários mais encarniçados dos homossexuais senão a direita religiosa mais fanática?

É no mínimo contraditório – para não dizermos bárbaro e brutal – que um cristão discrimine quem ou o que quer que seja. E, aqui, não faço tábula rasa da história. A Igreja Católica e seu temível Tribunal da Santa Inquisição perpetraram uma série de crimes contra os “desvios” da fé e consolidaram toda uma gama de discriminações e temores no imaginário coletivo. O próprio termo “sodomia” pode ser associado a uma ação bíblica, já que o Deus do Velho Testamento, irado pelas práticas “desviantes” dos habitantes de Sodoma, acaba dizimando a cidade e seus habitantes. Refiro-me, porém, ao núcleo emancipatório do Sermão da Montanha – palavras de Jesus Cristo que o ódio religioso faz questão de amordaçar:
− Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Marcos, 12, 31)

A universalidade liberada pelo termo “próximo” transforma essa passagem em um libelo revolucionário com o potencial de romper particularismos e preconceitos de quaisquer gêneros. Próximo é todo aquele e aquela que está ao nosso lado. (E, na contemporaneidade, com a integração concreta e virtual do mundo, próximo também é aquele e aquela que está em um outro continente.) Se pensarmos no contexto histórico particularista em que a máxima de Cristo foi proferida, entreveremos o enorme caráter inclusivo e político do amor mútuo.

Mas a religiosidade fanática parece sempre tergiversar em relação ao ensinamento maior do cristianismo. As noções de inferno e danação eterna se mostram mais pragmáticas para que a realidade excludente seja não apenas legitimada, mas também recrudescida. Que dizer sobre a recente medida denominada “cura gay”? O nome algo contraditório desvela feridas difíceis de cicatrizar. O nome mais parece denotar que a homossexualidade fará a cura, ao invés de se tratar da trágica colocação de que haverá uma cura para os gays. Ora, a história é pródiga em exemplos de homossexuais que aderem a instituições que reprimem sobremaneira a homossexualidade.

A aparente contradição se dissolve ao pensarmos sobre o juízo coletivo bárbaro em relação aos gays. Como rechaçam a homossexualidade a priori, o exército e a Igreja chancelam seus integrantes como membros retos e direitos – vale dizer, heterossexuais. Assim, uma ferida profunda aberta pela discriminação historicamente (re)produzida pode se esconder sob a farda e a batina. O homossexual, nesses casos, introjeta a castração social contra a sua orientação sexual e reproduz, ao preço do colapso sempre iminente de sua individualidade, a opressão da normalidade normativa por séculos e séculos, amém.

Eis o núcleo contraditório daquilo que se tende a chamar de recalque – o caráter “enrustido” da homossexualidade. Negar a própria orientação sexual equivale a referendar o juízo da sociedade que, ao fim e ao cabo, configura nosso olhar e possibilidades de vivência. Daí o caráter essencial da luta pelos direitos civis dos homossexuais: apenas uma reconfiguração social, sempre amparada pelo âmbito legal, pode transformar os valores e práticas excludentes assentados no imaginário histórico como se fossem nossa segunda natureza.

Nesse sentido, parece-me fundamental retomar as palavras do deputado federal Jean Wyllys, militante em prol dos direitos humanos e homossexual assumido, em sua discussão com o pastor Silas Malafaia, que, no contexto em questão, defendia a discriminação aos homossexuais a partir de sua formação como psicólogo e procurava derrubar uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que não trata a homossexualidade como patologia:
Jean Wyllys:

“É algo no mínimo curioso que esta audiência esteja assim tão lotada. Eu não vejo por aqui tantas pessoas quando tratamos de temas como a exploração do trabalho escravo, a exploração do trabalho de crianças e adolescentes, eu não vejo essa disposição das pessoas quando estamos tratando da exploração sexual de crianças e adolescentes, quando tratamos do direito das pessoas com deficiência. É curioso que as pessoas lotem essa audiência para tratar desse tema. Primeiramente, é preciso dizer que se trata de um cristianismo bastante seletivo, que fica bastante solidário a algumas questões, mas em relação a outras, não. Eu acho isso bastante interessante. Depois, eu procurei, na plataforma Lattes, do CNPq, que reúne os currículos dos cientistas do país, das pessoas que têm produção científica e publicações, eu procurei o currículo do pastor Silas Malafaia, mas não o encontrei. E aí eu fico me perguntando sobre quais seriam os critérios de seleção das pessoas que vêm falar sobre algo relevante para a comunidade de psicologia. Fico me perguntando: qual o propósito de se convidar, ainda que psicólogo, um pastor? Pastor que não tem produção científica. (...) Estamos ferindo a laicidade do Estado. Ainda que se diga que nós vivemos em um Estado que é laico, mas não é ateu, o princípio da laicidade diz que o Estado não tem paixão religiosa, e visto que estamos diante de um pastor evangélico que responde aos interesses da sua igreja, a laicidade está sendo ferida. (...) Me espanta, por exemplo, a compreensão rasteira – mas é rasteira, mesmo – das noções de identidade de gênero e orientação sexual expostas aqui. Eu fico envergonhado de pensar que pessoas com essa pobreza intelectual de informação estejam prestando serviços psicológicos a pessoas com profundo sofrimento psíquico. (...) É preciso que busquemos as raízes desse sofrimento psíquico que os homossexuais experimentam em uma cultura heteronormativa construída há 3 mil anos para então descobrirmos por que eles experimentam um sentido negativo em relação a si mesmos. E qualquer terapêutica tem que fazer com que o homossexual passe da vergonha para o orgulho, sem jamais reforçar a vergonha. E isso mesmo em casamentos aparentes e na felicidade aparente construídos e sustentados por um discurso religioso”.

Harvey Milk, cuja trajetória foi magistralmente interpretada pelo ator Sean Penn, acaba silenciado por tiros à queima-roupa. Mas o ativista já dissera que a luta pelos direitos humanos é impessoal, apesar de o preconceito e a brutalidade acossarem pessoal e fisicamente aqueles e aquelas que o dedo em riste do reacionarismo só faz estigmatizar. O cristianismo seletivo a que Jean Wyllys se referiu não nos deve surpreender. A religião, historicamente, vem abençoando fogueiras, torturas e ogivas. A certa altura, a brutalidade clerical chegou a indagar, teologicamente, se os africanos sequestrados pela escravidão teriam alma. O poder espiritual que sempre abençoou o poder temporal precisa crucificar ainda uma vez – e sempre – outra máxima espinhosa de Jesus Cristo, o mesmo mártir que os fanáticos idolatram de modo seletivo – e coisificado.

− Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. (Mateus, 20, 16)







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