Cinema

O diretor que botou a Guatemala no mapa

Jayro Bustamante vem se situando entre os melhores cineastas da América Latina. E, certamente, o primeiro a ajustar a Guatemala no foco do cinema mundial

27/11/2019 21:47

 

 
Jayro Bustamante é o primeiro cineasta da Guatemala a ter projeção internacional. O cinema guatemalteco desfruta de pouca tradição, uma vez que o país sempre se caracterizou mais como um consumidor de produções norte-americanas e mexicanas, numa relação de dependência cultural. Os filmes que já obtiveram algum destaque são geralmente coproduções com o México, a Espanha e outros países europeus.

Ixcanul é um desses casos. Coproduzido com a França em 2015, foi apenas o segundo longa da Guatemala a ser inscrito na competição do Oscar de filme estrangeiro (o primeiro foi El Silencio de Neto, em 1994). Não chegou a ser indicado, mas deu a Jayro Bustamante o Prêmio Alfred Bauer no Festival de Berlim e os de melhor filme em Cartagena e Biarritz, entre várias outras premiações. Deu-lhe, sobretudo, o status de grande promessa.

Ixcanul significa vulcão no idioma Kaqchiquel e se passa na área do vulcão Pacaya, um dos diversos ainda ativos na Guatemala. Maria (María Mercedes Croy) é uma jovem de origem indígena, prometida pela família a um comerciante local. Ela, porém, está enamorada por um rapaz que planeja emigrar para os EUA. Espera que ele a leve consigo, mas não é isso o que acontece. Grávida e deixada para trás, ela precisará reconstruir seus sonhos.

Ixcanul

O filme passa uma beleza triste e calma, condensada no olhar da atriz principal e na relação de ternura e cumplicidade com sua mãe. O cenário vulcânico impressiona, além de servir como uma metáfora da força uterina materna. A história, que começa com o engravidamento de uma porca, envolve tentativas de aborto forçado e tráfico de bebês. Surpreendentemente, não é um melodrama apelativo, nem uma exploração de situações vexaminosas. Ao contrário, é rude e delicado ao mesmo tempo.

Ixcanul não foi lançado no Brasil mas pode ser encontrado em comunidades cinéfilas na internet (veja aqui o trailer). Seguindo-se ao sucesso internacional do filme, Bustamante criou uma agência de talentos para dar continuidade à carreira dos atores e atrizes que havia formado entre os habitantes da região. Com sua veia empreendedorista, o cineasta fundou em 2017 La Sala de Cine, um cinema gratuito para fomentar a circulação de filmes alternativos na Cidade da Guatemala. Já em 2019, abriu a Fundação Ixcanul, instituição sem fins lucrativos que visa usar o cinema como ferramenta de aprendizado e mudança social na Guatemala, tanto nas comunidades maias quanto na área mestiça.

Tantas atividades talvez expliquem a demora de quatro anos para que surgissem o segundo e o terceiro longas desse diretor que concluiu sua formação em Paris e em Roma. Temblores e La Llorona foram finalizados em 2019 e exibidos na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Hoje com 42 anos, Bustamante parece interessado em abordar diferentes contextos da vida na Guatemala. Depois do ambiente rural e ameríndio de Ixcanul, ele tratou de questões políticas e sócio-religiosas em locações urbanas.

Temblores (Tremores) também recorre metaforicamente a fenômenos naturais do país. Não mais os vulcões, mas os terremotos. Por duas vezes, os personagens passam o susto de um tremor de terra. Mas o que os abala de verdade é a revelação de que Pablo (Juan Pablo Olyslager), o querido pai, marido e filho de uma família profundamente evangélica, resolveu sair de casa para viver com outro homem.

Temblores

Quando o filme começa, Pablo já saiu do armário e chega para conversar com a mulher. Encontra toda a família reunida e escandalizada. Daí em diante, todos se empenham em “curar” o moço pela via evangélica. Enquanto Pablo hesita na relação com Francisco (Mauricio Armas Zebadúa), uma pastora muito compenetrada dedica-se a “consertar” a vida dos fiéis que se desencaminharam no que aparentemente é o pior dos pecados. Temblores ganha, então, tintas de sátira aos métodos terapêuticos que incluem injeções contra a libido, lutas corporais e banhos com oração.

Bustamante não nos concede a graça consoladora da revolta, pintando Pablo como um personagem vacilante, que introjeta a culpa e se submete pelo desejo de estar próximo dos seus dois filhos, o que lhe foi negado como parte da punição familiar em forma de chantagem. O filme é duro e perturbador, apesar dos toques que se avizinham da comédia (aqui o trailer).

Política e terror interagem em La Llorona, cujo título se refere a um mito do folclore mexicano e guatemalteco. Na versão original, A Chorona é uma mulher que, tendo sido abandonada pelo marido, afoga seus dois filhos e é condenada a vagar pela eternidade até encontrar os corpos das crianças. No filme de Bustamante, ela é Alma, uma estranha jovem do interior que se emprega na casa de um general reformado e condenado por genocídio nos massacres de populações maias na década de 1980. Ainda impune, com parte de seus empregados abandonando o trabalho, ele fica sitiado com sua família na casa cercada por manifestantes indígenas que clamam por vingança.

La Llorona

O general Enrique (Julio Díaz) passa a ouvir os lamentos da Llorona ao mesmo tempo em que é atraído pela presença de Alma, sintoma de sua perversa fixação sexual por mulheres indígenas. O terror do período ditatorial ressoa em flashbacks e nos sons incessantes das manifestações no presente, três décadas depois. Por conta disso, o filme é de um impacto sonoro extraordinário. Os familiares de Enrique recebem os ecos das culpas do velho, seja por inquietação com o momento atual, seja em pesadelos da esposa, que se vê no lugar do massacre. A misteriosa Alma é vivida pela mesma María Mercedes Croy de Ixcanul com sua cabeleira longuíssima e seus olhos de amêndoa entumescida. Veja o trailer.

Os filmes de Jayro Bustamante merecem ser exibidos ao público brasileiro. Além de exporem questões desse pequeno país da América Central que tão pouco conhecemos, são obras de extremo apuro narrativo, visual e sonoro. Desde que foi premiado em Clermont-Ferrand com o curta Cuando Sea Grande, em 2012, Bustamante vem se situando entre os melhores cineastas da América Latina. E, certamente, o primeiro a ajustar a Guatemala no foco do cinema mundial.



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