Cinema

O filme do consenso para vencer a Netflix?

A estatueta de melhor filme para 'Green Book', que derrotou inesperadamente a favorita 'Roma', pode ser interpretada como um voto de consenso conservador dentro da Academia de Cinema de Hollywood, ou como um rechaço à Netflix. Por sua parte, Spike Lee não perdeu a chance de fazer adequadas comparações entre a película vencedora e a clássica 'Conduzindo Miss Daisy'

27/02/2019 10:22

Como em 'Conduzindo Miss Daisy', o filme de Peter Farrelly não ganhou o Oscar de melhor direção, mas acabou levando a estatueta de melhor filme (AFP)

Créditos da foto: Como em 'Conduzindo Miss Daisy', o filme de Peter Farrelly não ganhou o Oscar de melhor direção, mas acabou levando a estatueta de melhor filme (AFP)

 

Faltaram poucos votos para conseguir uma façanha. Não a alcançou, e a realidade é que Ted Sarandos, CEO de conteúdos da gigante plataforma online Netflix, perdeu a chance de subir no cenário do Dolby Theatre de Los Angeles. Ele e sua companhia fizeram de tudo para posicionar Roma de tal forma que, pela primeira vez na história da Academia de Hollywood, um filme proveniente de um sistema de streaming – e não falado em inglês – tivesse chances reais de triunfar na principal categoria da noite.

Porém, esse esforço – inclusive econômico, já que a plataforma de N vermelha investiu 25 milhões de dólares na promoção da obra – não foi suficiente na reta final da campanha. O diretor mexicano Alfonso Cuarón subiu três vezes ao palco, na entrega dos prêmios de Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Filme em Idioma Estrangeiro, mas foi Green Book que ficou com a estatueta de Melhor Filme, o que pode ser interpretado como um voto de consenso.

O chamado “voto médio”, que influi no sistema de sufrágio da Academia, conhecido como preferential voting, no qual não necessariamente ganha o filme mais votado e sim o que tem o melhor quociente, foi o que inclinou a balança a favor de uma película de reconciliação e harmonia interracial, como Green Book. Um filme amável, previsível, politicamente correto e adequado a uma tradição liberal muito arraigada na Academia de Hollywood, com antecedentes bastante notórios a esse respeito, inclusive.

Green Book, de Peter Farrelly (Divulgação)

O primeiro caso foi lá por 1967, com o triunfo de Noite Sem Fim, onde um orgulhoso detetive negro, interpretado por Sidney Poitier (“Call me Mr.Tibbs!”, reclamava furioso o personagem, quando as pessoas no povoado racista o chamavam de modos menos formais), teve que se entender e resolver um caso em parceria com um bestial colega branco do Sul, interpretado por Rod Steiger.

O segundo antecedente é menos distante no tempo, e tem ainda mais semelhanças com o filme de Peter Farrelly, a ponte de parece quase uma cópia, porém invertendo os papeis protagonistas. Me refiro a Conduzindo Miss Daisy, de 1989, onde um motorista negro, vivido por Morgan Freeman, trabalhava para uma presunçosa passageira branca, interpretada por Jessica Tandy. No começo, também se tratam como o cão e o gato, e previsivelmente terminam amigos e confidentes, com uma bem-intencionada mensagem de tolerância e compreensão.

Como aconteceu com Conduzindo Miss Daisy, o filme de Farrelly não ganhou a estatueta de Melhor Direção, para o qual sequer foi indicado – aliás, o diretor daquele filme, Bruce Beresford, jamais recebeu o prêmio –, mas ambos os filmes conseguiram se posicionar como candidatos ao momento culminante da noite quando obtiveram o prêmio de Melhor Roteiro, por mais convencionais que fossem.

Há outra coincidência histórica a ser recordada, que não passou inadvertida para um dos principais prejudicado, além da Netflix e de Cuarón. Se trata do diretor Spike Lee, que em 1989 competia pelo Oscar de Melhor Filme com uma das mais valiosas obras daquele período inicial da sua carreira: a iracunda e imprevisível Faça a Coisa Certa, que era totalmente o contrário de Conduzindo Miss Daisy, assim como Green Book é o contrário de Infiltrado na Klan, o melhor trabalho de Lee nos últimos anos.

Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford (Divulgação)

Comparando os dois concorrentes deste ano, ambos são filmes inspirados em fatos reais, ambos têm uma dupla de protagonistas interracial, ambas estão ambientadas em um passado recente, quando a discriminação estava muito mais naturalizada que agora nos Estados Unidos. Mas enquanto o de Farrelly não parece querer outra coisa a não ser dizer que um branco e um negro podem ser amigos e aprender de suas diferenças, a de Spike Lee vai além. Sem perder o senso do humor – que tem, e muito –, Infiltrado na Klan é uma película profundamente política, que aproveita um caso histórico para falar do presente, vinculando inequivocamente o presidente Donald Trump com os supremacistas brancos da Ku Klux Klan que ainda hoje continuam exercendo sua influência na agenda pública dos Estados Unidos.

“Esta é a minha sexta taça”, disse o diretor nova-iorquino, serviram o champanhe na sala de imprensa do Dolby Theatre, feliz por haver vencido o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado com Infiltrado na Klan, mas ressentido por não ter ficado com a estatueta principal, à qual também estava indicado, e especialmente por ter perdido para Green Book, um filme com o qual evidentemente não comunga. “Estou um pouco envenenado”, confessou entre risos. “Cada vez que alguém dirige um carro para outro eu estou em problemas”, brincou. Contudo, também valorizou a abertura da Academia, que nos últimos anos incorporou quase dois mil novos votantes, e graças a isso “três mulheres negras ganharam prêmios esta noite”, reconheceu. No fim das contas, Lee também ganhou sua estatueta e pode dar um potente discurso sobre a escravidão e o racismo nos Estados Unidos.

Roma, de Alfonso Cuarón (Divulgação)

Enquanto isso, em Hollywood, continuam as especulações. Quanto influiu nos votos da Academia o fato de que Roma não era falada em inglês? Ou será que não ganhou porque ainda há em Hollywood uma férrea resistência ao sistema de streaming que Netflix está impondo ao mundo de forma avassaladora? Para Ted Sarandos, talvez seja só questão de ter um pouco mais de paciência. Guarda nas mangas um trunfo, nada menos que The Irishman, uma saga mafiosa dirigida por Martin Scorsese e co-estrelada por Robert DeNiro e Al Pacino. Não por acaso, em plena transmissão da cerimônia, as redes oficiais da Netflix difundiram o primeiro trailer desse filme. Foi como um desafio. Ou uma ameaça. Como quem diz: se não é neste ano, será no próximo. E já não será com um filme mexicano, mas sim com uma superprodução que conta com três das maiores figuras de Hollywood. Assim, finalmente, conquistarão a cidade.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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