Cinema

O inferno entre quatro paredes

Entre um restaurante brasileiro e as lonjuras do Cáucaso, O Animal Cordial e Tesnota colocam personagens em dramas claustrofóbicos que refletem a realidade lá fora

08/08/2018 17:40

Cena do filme 'O Animal Cordial', de Gabriela Amaral Almeida

Créditos da foto: Cena do filme 'O Animal Cordial', de Gabriela Amaral Almeida

 

por Carlos Alberto Mattos
 
O arroto do leão
 
Há pouco mais de cinco anos, Gabriela Amaral Almeida escreveu para Cibele Forjaz a peça A Travessia da Calunga Grande, que se passava dentro de um navio negreiro movido a sangue. Em O Animal Cordial, primeiro longa de Gabriela, o espaço de confinamento é um restaurante de São Paulo, e o sangue continua a ser o combustível da alegoria.
 
Vi o filme pela primeira vez no Janela Internacional de Cinema do Recife, onde passou fora de competição. A plateia do Cine São Luiz – como todas até agora diante desse filme – ria, fechava os olhos e se contorcia nas poltronas, de acordo com o que Gabriela enfiava em nossos olhos a cada momento. As facas têm um papel protagonista desde as primeiras cenas, quando o restaurante, prestes a fechar, atende a um casal de última hora. Ainda é cedo para tudo o que vai acontecer naquela longa jornada noite adentro, mas a tensão já se acumulava nas relações entre o proprietário Inácio (Murilo Benício) e seus empregados, na estranha submissão da gerente Sara (Luciana Paes) e na espinhosa sessão de escolha do vinho.
 
Não demora para que o vinho dê lugar ao sangue a partir do momento em que o restaurante é invadido por dois assaltantes e Inácio se desdobra na defesa do seu patrimônio. Uma sucessão de blefes, suspeitas, agressões, manietamentos e desforras instala a barbárie entre papéis sociais e entre sexos. A psicopatia grassa entre alguns personagens, com destaque para o macho Inácio e sua ligação de amor e desprezo com Sara.


 
Embora o círculo infernal se instale entre todos os presentes, do salão à cozinha, são Inácio e Sara que levam a proposta de Gabriela até os seus paroxismos. Neles se concentram a atração e a repulsa de classes e de gêneros. Neles a violência, o sangue e o sexo perdem o valor de realidade e assumem a feição de um ritual dos corpos, algo que flutua entre a cerimônia indígena e o delírio psicótico. Através deles somos levados a aceitar – mesmo sem compreender de imediato – algumas hipérboles que a diretora incorpora corajosamente. Estamos no terreno do slasher movie, o subgênero do filme de terror que trata de um personagem psicopata matando pessoas em série, geralmente com arma cortante.
 
Se repararmos bem, veremos que tudo é ritualizado desde o início. Uma intencionalidade quase caricata mobiliza os personagens já a partir de sua apresentação. Numa perspectiva naturalista, eles poderiam soar insuportáveis, mas o código que Gabriela institui nos sintoniza de pronto com o gótico, o grand-guignol e as fronteiras do non sense. Se os clientes do restaurante não o abandonam logo ao primeiro derramamento de sangue é porque um ímã buñueliano os mantém presos ao cenário, como os personagens de  O Anjo Exterminador.
 
Do navio negreiro ao restaurante, Gabriela Amaral Almeida põe em cena alegorias de um Brasil que se dilacera e se autodevora no altar do consumo, da exploração e de um machismo transformado em política. Ela escreveu O Animal Cordial em tempos de impeachment de Dilma Rousseff. A indignação está na base dessa criação e chega a nos tocar como a ponta de uma faca. Para mim não é exatamente um filme de terror, mas sim um jorro de fúria e inteligência, um arroto de leão após deglutir sua presa.
 
Amor e guerra no Cáucaso
 
Tesnota é um filme que nos coloca em extrema proximidade dos seus personagens ("proximidade" é a tradução do título original) e ao mesmo tempo nos faz sentir a mundos de distância de quase tudo o que vemos. Por isso mesmo, é uma experiência cinematográfica peculiar.
 
No texto de abertura, o diretor estreante Kantemir Balagov apresenta a si mesmo como um filho daquela cidade de Nalchik, remota e desbotada capital de um pequena república do Cáucaso, no sudoeste da Rússia. Ele diz que vai contar uma história real. Após o último plano do filme, seu texto retorna para anunciar que "não sabe o que aconteceu àquelas pessoas em seguida".
 
Entre um letreiro e outro, conhecemos uma pobre família judaica recém-mudada para a cidade, cujo filho é sequestrado junto com a noiva em troca de um resgate altíssimo. A comunidade judaica se mobiliza, mas o dinheiro recolhido só dá para pagar a libertação da moça, que é nativa do local. Para ter de volta seu filho, os Koft precisarão ceder a filha Ilana a um jovem pretendente de uma família de posses. Mas Ilana mantém um namoro clandestino e arriscado com um rapaz da etnia cabardina, cuja maioria é de muçulmanos.
 
Nessa toada, tudo o mais vira pano de fundo para o desenho da personalidade angustiada e efervescente de Ilana, vivida com rara intensidade pela atriz novata Darya Zhovnar. Como mulher, Darya é quase uma sósia da jovem Jodie Foster; como atriz, é um manancial aparentemente inesgotável de surpresas e sutilezas; como personagem, Ilana lembra a Rosetta dos Irmãos Dardenne. Desconfortável dentro da família, ela nutre uma relação de amor incestuoso e ódio com o irmão, a quem julga privilegiado pelos pais. Seu apego sôfrego, mas vacilante, ao namorado "de outra tribo" é uma válvula de transgressão que ela não sabe bem como usar.
 

Transcorrida no ano de 1998, essa história sofre os eflúvios da guerra da Chechênia, muito próxima de Nalchik, e dos conflitos étnico-religiosos que abalaram a região após o fim da União Soviética. Numa sequência muito discutida quando o filme passou em Cannes 2017, Ilana, o namorado e seus amigos assistem a um dos tantos vídeos que circularam na época, mostrando execuções bárbaras de soldados russos por guerrilheiros chechenos. Ao colocar esse material hediondo dentro de uma tela de TV sendo visto pelos personagens, Balagov se permitiu algo que, de outra maneira, seria inconcebível fora do campo do snuff movie. Ainda assim, pode causar mal-estar e rejeição. Ninguém exibe esse tipo de coisa impunemente.
 
Relevada essa impropriedade, Tesnota se afirma como um filme de câmara muito rigoroso e interessante. As lentes usadas pelo fotógrafo Artem Yemelyanov compactam o espaço, deixando os atores numa proximidade sufocante. A imagem em proporção quadrada acentua a sensação de claustrofobia, só aliviada nas cenas finais. Os ruídos ambientais ganham um destaque dramático, contribuindo para a rusticidade do ambiente e das interações pessoais.
 
Merece atenção, mais que tudo, a construção estética e psicológica da personagem de Ilana. De modos, feições e roupas masculinizadas, ela, no entanto, é um furacão de desejo heterossexual usado como arma contra as convenções sociais. A particular preferência pela cor azul, em meio aos ocres e cinzas do entorno, ajuda a marcá-la como fator de dissenso e desacato numa comunidade dominada por códigos e segmentações rígidas.

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